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sábado, 23 de julho de 2016

Gilad Atzmon: Putin, Erdogan e o 'golpe' contra 'nosso mundo'



Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu

Putin e Erdogan vão-se reunir no início de agosto. A tensão entre Rússia e Turquia dissipou-se gradualmente, a partir de uma conversa telefônica entre ambos os presidentes, em junho. Essa semana, autoridades russas e turcas informaram que os dois governos alcançaram um novo consenso. O efeito desse entendimento é que Erdogan está modificando suas políticas para a Síria e Assad e quanto à intervenção pela OTAN. A Turquia pode deixar de ser parte da crise síria: pode bem acontecer de se integrar como elemento essencial ao processo de paz. Viram-se sinais dessa mudança ao longo da semana passada, desde que a Turquia começou a reformular seu relacionamento com o regime sírio.

Na 4ª-feira, 13 de julho, apenas dois dias antes da tentativa de golpe, The Guardian escreveu:


"Depois de mais de cinco anos de envolvimento na guerra na Síria, a Turquia, país que mais reforçou a rebelião contra o governo de Bashar al-Assad, deu sinais de interesse em normalizar as relações com Damasco".

Na manchete do The Guardian, lia-se: "Rebeldes sírios atônitos: turcos sinalizan interesse em normalizar relações com Damasco".

Soube-se também nas últimas horas, que o governo russo aceita agora que o ataque turco aos seus jatos Su-24 no espaço aéreo sírio ano passado foi claro complô para fazer desandar as relações entre os dois países.

Claro que essas são boas notícias, de novas esperanças para a região. Mas não são exatamente as notícias que OTAN, EUA e Israel esperavam.

É possível que a nova aliança emergente entre Rússia, Turquia e possivelmente a Síria tenha levado uns poucos militares turcos a tentar um golpe de Estado? Pode ser coincidência, mas o quartel-general dos golpistas fracassados estava instalado na Base Aérea Incirlik, pista turca de onde EUA e OTAN lançam regularmente ataques aéreos contra o Estado Islâmico. E essa semana apareceram notícias de que os EUA armazenam 50 bombas nucleares em Incirlik.

Putin e Erdogan partilham várias características. Os dois são governantes populares e carismáticos. Ambos são vistos pelos próprios eleitores como nacionalistas e patriotas, e ambos operam em países que sofreram longa história de instabilidade política e golpes militares. Ambos parecem ser animais políticos astutos e criativos. Mas nem um nem outro está na lista dos favoritos de EUA/OTAN. Nem um nem outro é apreciado – de fato, ambos são desprezados – pelos sionistas conservadores, pelos lobbies israelenses e por Israel. Alguns especialistas já sugeriram que os eventos da 6ª-feira passada na Turquia podem ser um 'aviso' para Putin: ele pode ser o próximo, na lista dos países alvos de tentativas de golpe de Estado.

Tempos estranhíssimos para a imprensa. Hoje, não há um único veículo confiável de informação, ou que se possa levar a sério. Somos bombardeados por uma pletora de redes globais de propaganda. Quanto maior o número de canais de TV a que temos acesso, menos sabemos sobre o mundo.

Construir um quadro coerente e objetivo da realidade ou dos assuntos globais já é praticamente impossível. As redes de ativistas e comentaristas progressistas que vivem de reciclar o noticiário circulante tampouco ajudam.

Foi um choque para mim perceber, essa semana, que um grupo de apoiadores ocidentais de Assad, que eu, erradamente, considerava bem-intencionados e bem informados, servem-se da mesma terminologia dos conservadores e neoconservadores ("islamistas", "bandidos" e "islamofascistas") para referir-se ao povo turco que foi às ruas para salvar o próprio país de um regime militar.

À medida que o quadro vai-se esclarecendo, vai-se entendendo que a tentativa de golpe foi motivada pela emergente aliança entre Turquia e Rússia. A possibilidade de a Turquia passar a trabalhar a favor de uma solução pacífica na Síria põe um ponto final na guerra intervencionista da OTAN contra o regime de Assad. Os golpistas que tentaram derrubar Erdogan estavam desesperados para impedir essa transição na direção da paz.

Um velho amigo lembrou-me ontem o precioso insight de Charles Bukowski: "o problema do mundo é que os inteligentes vivem cheios de dúvidas, e os estúpidos, de confiança".

blogdoalok

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