terça-feira, 23 de agosto de 2016

Rússia e Irã reformatam a geopolítica do Oriente Médio


MK Bhadrakumar, Indian Punchline


Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu

Em declarações excepcionalmente assertivas no sábado, o ministro da Defesa do Irã general Hossein Dehqan disse em Teerã que mais bases militares iranianas poderão ser disponibilizadas para uso dos russos, dependendo de exigências operacionais, além da base aérea Hamadan que os bombardeiros russos já estão usando.

Acrescentou que não há limite algum imposto ao acesso de aeronaves russas para operarem também foram da base militar de Hamadan. Dehqan revelou que:


-- jatos e bombardeiros russos são livres para fazer reparos e carregar munição na base iraniana;


-- a cooperação militar do Irã com a Rússia nesse campo é "estratégica" por sua própria natureza; 


-- a cooperação brota de um pacto de defesa para aprofundar a cooperação militar "com vistas a agir mais harmonicamente, especialmente na luta contra o terrorismo";


-- o uso de bases militares iranianas pelos russos é tópico que está além do campo de decisão do Majlis [Parlamento] (implica dizer que se baseia em decisão do Supremo Líder);


-- a aliança Irã-Rússia visa a pôr fim rapidamente ao conflito na Síria.

A grande questão é se estaria sendo preparada uma aliança Irã-Rússia de segurança mútua – algo semelhante ao Tratado Indo-Soviético de 1971.

No final de semana, um especialista moscovita, Prof. Dmitry Yevstafyev sapateou em torno do explosivo tema. Reforçou os seguintes tópicos, em coluna que, presumivelmente, visava aos públicos ocidentais:


·         Até agora, "não há qualquer conversa sobre união militar plena" entre Rússia e Irã;


·         mas nem por isso o uso da base aérea em Hamadan deve ser visto como evento isolado;


·         tampouco deve ser visto como mero laço tático, com o objetivo estreito de libertar Aleppo.


·         Ao contrário, repousa sobre base sólida que foi atentamente construída em termos políticos, militares e econômicos nas relações russo-iranianas em tempos recentes, os quais, por sua vez, radicam em avaliação clara, por Moscou, de que a 'lua-de-mel' EUA-Irã já é coisa do passado;


·         Rússia e Irã criaram juntos um "contexto completamente novo" na região e aspiram a ser "atores decisivos";


·         Rússia sinalizou para Washington que: a) a parceria com o Irã é "prioridade estratégica" para os russos; b) Moscou já não se limita pelas 'linhas vermelhas' dos EUA no que tenham a ver com laços estratégicos com o Irã; c) se a ligação em Hamadan for bem-sucedida, "são possíveis também movimentos que levarão a convergência sem precedentes entre Irã e Moscou, no futuro"; e d) Washington não tem como impedir que Moscou leve avante sua tarefa prioritária de "destruir a oposição síria em Aleppo";


·         os laços que agora ligam Rússia e Irã levaram Pequim a superar suas reticências e a mover-se na direção de "expandir a ajuda" ao regime sírio, com a intenção de "participar em futuros processos políticos e econômicos".

Na minha avaliação, aí está avaliação acurada das tendências novas que acabam de surgir à superfície. Significa, claramente, já sem sombra de dúvida, que o equilíbrio do poder no Oriente Médio está passando por mudança realmente fenomenal.

A Índia deve considerar muito seriamente esses eventos, também porque MJ Akbar chega hoje a Damasco como ministro de Estado – visita muito rara feita por dignitário indiano. (Se a China vai, a Índia não pode ficar muito para trás?) 

Tudo indica que Moscou está agindo com rapidez para criar novos fatos em campo antes de o novo presidente dos EUA chegar à Casa Branca para comandar a política dos EUA para o Oriente Médio. Moscou quer reforçar a capacidade de defesa do Irã a ponto de ataque militar contra aquele país deixar de ser opção para EUA e/ou Israel.

Não se deve descartar tampouco que já esteja em curso alguma conversa entre Moscou e Teerã relacionada a uma aliança de segurança mútua, no caso de ameaça militar vinda do novo governo dos EUA, dominado por ideólogos neoconservadores (como será o caso numa presidência de Hillary Clinton).

A Rússia está acelerando a entrega ao Irã do sistema de mísseis S-300. Notícias de Teerã informam que a entrega estará concluída no prazo de um mês a partir de agora.

Fontes da inteligência militar israelense citadas por Debka dizem que a Rússia já instalou o formidável sistema de mísseis S-400 em Hamadan. (Apesar dos desmentidos iranianos, não seria surpresa, porque já há fotos que mostram número não especificado de bombardeiros estratégicos 'Backfire' Tu-22M3s – que podem ser armados com mísseis nucleares – e jatos Su-34 de combate pousados na base aérea Hamadan; e é inconcebível que essas aeronaves não sejam protegidas por sólidos sistemas russos de defesa aérea.)

Aos poucos, a região vai-se apercebendo da importância dessa congruência estratégica russo-iraniana. Ao longo do fim de semana, pela primeira vez jatos sírios atacaram forças curdas no norte da Síria (que são protegidas por Forças Especiais dos EUA), apesar dos avisos dos EUA para se manterem afastados (Reuters).

Assim também, o ministro de Relações Exteriores da Turquia Mavlut Cavusoglu teve reunião de cinco horas com seu contraparte Mohammad Zarif em Teerã, dia 18 de agosto, na continuação das conversações de Zarif com a liderança turca em Ankara, dia 12 de agosto. A apressada viagem de Cavusoglu a Teerã visou a uma coordenação turco-iraniana, no movimento contra os curdos.

Ankara gostará da ideia de Damasco, afinal, atacar os curdos. Em declarações no sábado em Ankara, o primeiro-ministro Binaldi Yildirim enfatizou que a Turquia se movimentaria para impedir a emergência de um Curdistão-enclave (que recebe apoio tácito dos EUA) no norte da Síria. Quanto a isso, os interesses da Turquia coincidem com Teerã e Damasco.

Se acontecer assim, Ankara, Teerã e Damasco podem ver-se na mesma página, mais cedo do que se esperava. Para Moscou, esse desenvolvimento não poderia ser melhor (Sputnik).

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