domingo, 30 de outubro de 2016

"Defesa ativa": a nova política de Putin


Eduard Popov, Fort Russ [trad.ru.ing. J. Arnoldski]

Traduzido pelo coletivo da Vila Vudu

Na sessão de ontem do Clube de Discussão Valdai, em Moscou, Vladimir Putin fez várias declarações sobre o sistema de relações internacionais. Lembrou aos ouvintes que a hegemonia norte-americana deixou um rastro de invasões militares e agressões a países soberanos – Iugoslávia, Afeganistão, Iraque, Líbia etc. Depois, lembrou a "abertura" da Rússia, em meados dos anos 1990, que sinalizava disposição para diálogo entre iguais, mas não recebeu o que esperava. 



Mas o que foi realmente sem precedentes na história da Rússia foi o que Putin tinha em mente (ingenuamente) naquele momento: confiar nos países ocidentais, como se viu na década de governo de Yeltsin. Os EUA responderam à abertura russa com tentativas empenhadas para enfraquecer a Rússia 'por dentro' (inclusive com 'reformas' e privatizações levadas a efeito com a participação de especialistas norte-americanos) e por fora, criando em torno da Rússia uma linha perimetral de países de fronteira controlados por Washington. A Rússia foi proibida de ter interesses além das próprias fronteiras, e os interesses dos EUA avançaram sobre fronteiras russas e, até, para dentro do país. 

O presidente Putin também poderia ter acrescentado que ele mesmo, no início de sua presidência, perseguiu políticas de máxima abertura para o ocidente. Afinal, foi ele quem primeiro deu valiosa ajuda aos EUA depois do ataque de 11/9/2001, autor da primeira condenação internacional àquele ato terrorista; e permitiu que os EUA estabelecessem bases aéreas na Ásia Central. Especialistas russos nacionalistas condenaram Putin duramente por essa iniciativa. Foi o presidente russo também quem fechou as últimas bases e centros de inteligência russa em Cuba e no Vietnã. Depois de fechadas as últimas bases da Rússia no exterior, a OTAN expandiu suas fronteiras para o leste e acolheu em suas fileiras os países do velho Pacto de Varsóvia e os Estados do Báltico. Não fosse a feroz resistência diplomática da Rússia, a Geórgia e a Ucrânia também teriam entrado para a lista de países-membros da OTAN.

Foi grave erro de Moscou, mas o presidente ganhou valiosíssima experiência. Hoje já não resta nele nem vestígio de confiança na demagogia pseudodemocrática de Washington, que hoje vive de 'alertar' países do leste da Europa (Polônia e os Estados Bálticos) para que resistam contra a tal mítica "ameaça russa".

Para sermos justos, devemos registrar que muitos observadores respeitáveis no ocidente manifestaram-se contra a política desastrosa de empurrar a Rússia para as cordas. Houve prognósticos impressionantes (que pareciam delirantes há 16-20 anos) de que a Rússia recuperaria o poder militar e voltaria ao posto de grande potência mundial. 

Patrick Buchanan, político norte-americano "peso leve", semimarginal, por exemplo, recomendou que os EUA acreditassem numa Rússia que se manteria forte, e que parrassem com as provocações. Hoje, essas ideias já nada têm de marginais, embora, sim, ainda sejam ideologia de uma minoria. Por outro lado, há na Rússia a minoria liberal marginal, cuja ideologia é de concessões unilaterais ao ocidente. A popularidade de Putin repousa sobe a evidência de que o presidente conta com o apoio até de correntes da oposição, dos comunistas aos nacionalistas, em tudo que tenha a ver com segurança nacional. 

No discurso dessa semana no Clube Valdai, o presidente Putin demonstra ter compreensão realista dos desafios internos e externos que se apresentam à Rússia. O país tem vários problemas domésticos, que vão de questões econômicas e sociais até questões demográficas, mas os EUA também enfrentam problemas. 

Eis portanto por que a Rússia não investirá nem está investindo em qualquer política de expansionismo. Não só porque estaria em oposição aos princípios nacionais, mas também porque também estaria em oposição aos interesses nacionais dos russos. Mesmo dentro da própria OTAN há os que não acreditam que a Rússia tenha realmente planos para conquistar os Estados Bálticos ou a Polônia. Essa é linha que, talvez, interessa a esses países (ou, talvez, aos seus respectivos establishment comprador), mas não interessa à Rússia. 

O que interessa à Rússia é encontrar aliados na Europa, inclusive nos próprios EUA, principalmente fora da classe política 'oficial' nesses países, que são ferozmente controladas por Washington.

Como se vê na legislação sobre "desarmamento de plutônio" e no discurso de Putin ontem, a Rússia já se cansou de fazer concessões unilaterais e de sacrificar interesses dela, sem obter nem uma compensação moral. Assim, a estratégia de Vladimir Putin em anos recentes e até em meses recentes pode ser chamada de uma transição para defesa ativa.

A Rússia está demarcando o círculo (não muito amplo) de seus interesses externos às próprias fronteiras e concentra-se agora nos próprios problemas internos. Como disse o ministro de Relações Exteriores do Império Russo, príncipe Gorchakov, depois da derrota dos russos na Guerra da Crimeia, ao assinar o humilhante Tratado de Paris em 1856: "a Rússia concentra-se". Depois de longos 20 anos, a Rússia se organiza agora para praticar política de defesa ativa, atentamente evitando ocasiões para guerras. 

Em 2016 a Rússia não sofreu nenhuma derrota, mas ainda enfrenta os mesmos problemas, e concentra-se para cumprir tarefas internas. Não implica porém que a Rússia planeje ceder posições, seja dentro seja fora do país. Esse, precisamente, foi o núcleo duro do discurso de Vladimir Putin, dia 27/10/2016. 

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