terça-feira, 25 de outubro de 2016

EUA diante da pior crise de sua história. E como o exemplo de Putin bem poderia inspirar Trump


The Saker, Unz Review (de Vineyard of the Saker)

Traduzido pelo coletivo da vila vudu

Assistir ao último debate entre os candidatos à presidência dos EUA foi experiência deprimente. Achei que Trump saiu-se bastante bem, mas não é esse o ponto aqui. O ponto é o seguinte: não importa quem vença, uma crise aguda é inevitável.

Opção #1: Hillary vence. É Obama bombada de esteroides, só que pior. Lembram-se que o próprio Obama foi Dábliu, só que pior, Dábliu foi Clinton, só que pior. Agora o ciclo se fecha: de volta a Clinton. Exceto que dessa vez temos uma mulher profundamente insegura, que falhou em absolutamente tudo que tentou fazer, e que agora já arrasta longa lista de três décadas de desastres e fracassos. 



Até quando nem tinha autoridade para iniciar uma guerra, ela iniciou uma (disse a Bill que passasse fogo nos sérvios). Agora, tem a autoridade. E agora ela teve de ficar lá, em pé, diante de milhões de pessoas, e ouvir Trump dizer a ela que "Putin fez melhor que a senhora em todos os passos do caminho" (viram o rosto dela congelar, ao ouvir isso?). Trump tem toda a razão: Putin fez melhor que ela e que Obama, em todos os passos. 

O problema é que agora, além de ter presidente com complexo de inferioridade ante Putin (Obama), Trump terá presidente com o mesmo complexo de inferioridade E com uma mórbida determinação de impor uma zona aérea de exclusão sobre as forças russas na Síria. Vendo Hillary, o feio cabelo recém-cortado e calças masculinas ridículas, pensei comigo: "aí está uma mulher que faz e fará qualquer coisa para provar que é durona como qualquer macho" –, problema, claro, é que não é. O currículo dela também a mostra fraca, covarde e com senso de total impunidade. E agora essa lunática messiânica maléfica, com fundo complexo de inferioridade, será comandanta-em-chefa?! Deus nos ajude!

Opção #2: Trump vence. Problema: estará completamente só. Os neoconservadores têm total, repito, total, controle sobre o Congresso, a mídia-empresa, todo o banking e finança, e sobre as cortes de justiça. De Clinton a Clinton, infiltraram-se profundamente no Pentágono, em Foggy Bottom [bairro onde está localizado o Departamento de Estado dos EUA, em Washington] e em todas as agências de três letras. O Fed é o castelo-fortaleza desses todos. Como, no mundo, Trump lidará com esses "crazies in the basement" [lit. "doidos no porão"]? Considerem a pervertida campanha de ódio que essas "personalidades" (de atores a políticos e jornalistas) desencadearam contra Trump: eles todos queimaram as pontes e sabem que, se Trump vencer, terão perdido absolutamente tudo (e se Trump conseguir vencer, a vitória dele nada significará, seja como for). Os neoconservadores nada têm a perder e lutarão até o último homem/mulher. O que Trump conseguiria fazer, cercado de neoconservadores e de agentes de influência que só respondem a eles? Nomear equipe completamente nova? E como conseguirá que aprovem os que ele indique? A primeira escolha de Trump foi Pence, para a vice-presidência – completo desastre (e Pence já está sabotando Trump na questão da Síria e resultados eleitorais). Tremo de *medo* só de pensar em quem Trump nomearia para chefe de gabinete da Casa Branca, porque temo que, só para pacificar os neoconservadores, ele nomeará (se for eleito) alguma nova versão daquele infame Rahm Emanuel… E se acontecer de Trump conseguir provar que tem coragem e princípios, os neoconservadores sempre podem aplicar-lhe dose letal de "Dallas" e pôr Pence em seu lugar. Et voilà!

Só vejo uma saída:

O modelo Putin (acrescentado de alguns defeitos)

Quando Putin chegou ao poder, herdou um Kremlin exatamente tão corrupto e infestado de traidores quanto é hoje a Casa Branca. Quanto à Rússia, estava praticamente no mesmo estado lastimável em que hoje está a Ucrânia Independente governada por nazistas. A Rússia também era governada por banqueiros e fantoches anglo-sionistas, e a maioria dos russos vivia miseravelmente. A grande diferença é que, ao contrário do que acontece hoje com Trump, a versão russa dos neoconservadores norte-americanos jamais temeu qualquer risco que lhes viesse de Putin. Putin foi selecionado pelas elites governantes como representante dos serviços de segurança, para governar ao lado de um representante do grande dinheiro corporativo, Medvedev. Foi solução de compromisso entre as duas partes da sociedade russa que ainda funcionavam: os serviços de segurança e o dinheiro do petróleo/gás.

Putin tinhas ares de pequeno burocrata sempre metido em ternos maiores que ele, tímido, desengonçado, pode-se dizer, que não representaria ameaça alguma aos poderosos oligarcas da semibankirshchina (os Sete Banqueiros) que governava a Rússia. Exceto que viria a ser um dos mais formidáveis governantes de toda a história russa.

Eis aqui o que Putin fez, imediatamente depois de assumir o poder:

Primeiro, restabeleceu a credibilidade do Kremlin com as Forças Armadas e os serviços de segurança, graças à rapidez e eficácia com que esmagou a insurgência Wahhabista na Chechênia. Com isso, estabeleceu a própria credibilidade pessoal junto à população, da qual dependeria para lidar com os oligarcas.

Segundo, Putin usou o fato de que todos, todos e quaisquer empresário pequeno ou grande e todas as corporações na Rússia, de modo mais grave ou menos grave, haviam infringido a lei durante os anos 1990s, dentre outros motivos porque, de fato, não havia lei alguma. Em vez de atacar os 'grandes' Berezovski(s) ou Khodorkovski(s) por suas atividades políticas, esmagou-os com acusações (absolutamente verdadeiras e provadas) de corrupção. Radicalmente importante aí, fez tudo muito abertamente, com o que enviou mensagem clara ao outro arqui-inimigo da Rússia: a mídia-empresa.

Terceiro, ao contrário das alucinações das agências 'pró' direitos humanos ocidentais e liberais russos, Putin nunca impediu qualquer crítica, ou atacou veículos nem, sequer, mandou matar seja quem fosse. Fez coisa muito mais esperta. Vocês sabem: jornalistas do jornalismo contemporâneo são, antes de tudo, presstitutos/presstitutas, ok? Ao atacar sem piedade e sem alívio os oligarcas, Putin cortou as linhas de abastecimento de dinheiro que corriam diretamente dos oligarcas para os/as presstitutos/presstitutas e o correspondente apoio político aos veículos de mídia-empresa.

Grande número deles/delas emigraram para a Ucrânia, outros/outras simplesmente desistiram e uns/umas poucos/poucas sobrevivem, numa espécie de zoológico de aberrações, em publicações claramente identificáveis, como Dozhd TV, Ekho Moskvy Radio ou o jornal Kommersant. Os que emigraram tornaram-se irrelevantes, como também os que ainda são vistos no "zoológico liberal" – já não mordem, porque têm credibilidade zero. Importante aí, que todos os demais envolvidos "captaram a mensagem".  Depois disso, foi só nomear alguns bons cidadãos verdadeiramente dedicados aos interesses do povo russo (como Dmitri Kiselev, Margarita Simonian e mais alguns) para posições chaves, e todos rapidamente compreenderam que os ventos do destino haviam passado a soprar a favor dos russos.

Quarto, tão logo os veículos da mídia comercial recuperaram a sanidade, não demorou até os partidos "liberais" (na Rússia, "liberal" significa "pró-EUA) entrarem em espiral de decadência, da qual jamais se recuperaram. Com isso, todos os "liberais" foram também ejetados do Parlamento, no qual há hoje só quatro partidos, todos mais ou menos "patrióticos".

Até aqui, a parte que funcionou bem.

Porque até agora Putin ainda não conseguiu ejetar do governo e do Kremlin os "5ª Colunistas", que chamo de "Integracionistas Atlanticistas" (para detalhes, inclusive nomes, ver aqui). Nem o conhecido Alexei Kudrin foi demitido por Putin, mas por Medvedev. Os serviços de segurança conseguiram afinal se livrar de Anatolii Serdyukov, mas não tiveram força para metê-lo na cadeia. Pessoalmente, ainda acho que haverá um expurgo, ideia da qual Alexander Mercouris discorda. Seja como for, fato é que Putin não livrou a Rússia, dos 5ª Colunistas que infestam o setor de banking/finanças, e que o citado setor tem cuidado atentamente de não dar pretexto, ao governo Putin, para agir contra ele.

Rússia e EUA são países muito diferentes e nenhuma receita pode ser simplesmente copiada de um para outro. Ainda assim há lições valiosas, que Trump pode recolher do "modelo Putin", uma das quais, não insignificante, é que seus mais formidáveis inimigos estão encastelados, muito provavelmente, no Fed.

Um analista russo – Rostislav Ishchenko – sugeriu que Trump pode de algum modo forçar o Fed a aumentar a taxa de juros, o que resultaria numa queda em cascata ("efeito dominó") de quebradeira de bancos nos EUA, mas talvez seja a única maneira de afinal o governo eleito nos EUA conseguir demitir o Fed e retomar o controle sobre o bankingnorte-americano. Talvez seja. Honestamente, não sou especialista qualificado para opinar sobre isso.

Certo é que, por hora, os EUA continuarão como o que aí se vê: um sem-teto, possivelmente veterano de guerra, construiu um "corredor de bandeiras", para induzir as pessoas a lhe dar esmolas (Florida, outubro de 2016, imagem). Rico em patriotismo cenográfico, e pobre para todos os demais efeitos.

Hillary vê nisso um sucesso estrondoso. Trump vê nisso uma desgraça. Minha avaliação é que não é difícil escolher o que menos erra.

Para os que repetem que não pode haver cisma dentro das elites anglo-sionistas, respondo que o exemplo da conspiração para impedir que Dominique Strauss-Kahn viesse a ser presidente da França mostra que, como hienas, os líderes anglo-sionistas às vezes, sim, se voltam uns contra outros. Acontece em todos os regimes, independente de ideologia política (pense em SS contra SA na Alemanha nazista, ou nos trotskistas contra stalinistas na URSS bolchevique).

De vassouras e pedaços de corpos

Leon Trotsky costumava dizer que a Rússia Soviética devia ser varrida com uma "vassoura de ferro", para livrá-la dos anarquistas e da nobreza". Até publicou no Pravda um artigo intitulado "Precisamos de uma vassoura de ferro".[1]  Felix Derzhinskii, maníaco genocida fundador da polícia secreta ChK costumava dizer que agente do serviço secreto tem de ter "coração ardente, cabeça fria e mãos limpas" (...).

Hillary Clinton e a gangue de neoconservadores dela são sucessores espirituais (não raras vezes também físicos) de todos os genocidas e torturadores da história do mundo, e como eles, não hesitará em esmagar e retalhar seus inimigos. Donald Trump – assumindo-se que seja autêntico e que realmente acredite no que diz – tem de compreender isso e fazer o que Putin fez: atacar primeiro e atacar com força. Stálin, aliás, fez exatamente a mesma coisa (...) e os trotskistas só voltaram a tomar o poder em 1991.

Entendo que a questão de se Putin conseguirá ou não, afinal, remover do poder os 5ª Colunistas, permanece aberta. Certo é que a Rússia está pelo menos semilivre de ser controlada por essa gente e que hoje o quartel-general deles e última fortaleza é os EUA. O ódio maníaco que nutrem contra Trump pode ser em parte explicado pela sensação de perigo iminente que toma conta dessa gente, pela primeira vez ameaçada dentro do que eles veem como sua pátria (não em algum sentido patriótico, mas como o parasita vê seu "hospedeiro"). Talvez haja alguma boa razão para terem tanto medo. Espero que haja.

Entusiasmou-me o modo como Trump enfrentou a mais recente tentativa para fazê-lo escafeder-se de medo. Ontem, ele se atreveu a dizer que, dado que a eleição pode ser fraudada ou roubada, não se compromete a aceitar o resultado. E por mais que todos os norte-americanos de semiletrados até os professores-doutores saibam que as eleições nos EUA várias vezes foram fraudadas e roubadas no passado, inclusive eleições presidenciais, ao dizer o que disse Trump incorreu em grave crime de pensamento [ing.crimethink].

A mídia sionista caiu sobre ele com o mais arrogante ultraje, exigindo que se retratasse do que dissera (e que, por sinal, contrariava a posição de Pence).  Em vez de voltar atrás e arrepender-se do "crime", Trump respondeu vídeo: "(...) Afirmo e prometo aos meus eleitores, apoiadores e a todo o povo dos EUA, que aceitarei totalmente o resultado dessa eleição histórica para a presidência dos EUA [gritinhos do público] se eu vencer" [ovação].

Bonito, hein? Esperemos que continue a mostrar a mesma coragem.

Trump está fazendo agora o que Jean-Marie Le Pen fez na França: está mostrando aos neoconservadores que ousa desafiá-los abertamente, que se recusa a jogar pelas regras deles, que a fúria 'ofendida' deles não tem efeito sobre ele, e que não conseguirão censurá-lo, muito menos, silenciá-lo. Foi o que também fez quando, mais uma vez, recusou-se a acusar os russos de serem autores de ciberataques e, em vez de acusar os russos, repetiu que seria ótimo para todos se Rússia e EUA fossem amigos. Mais uma vez, não sei por quanto tempo Trump conseguirá manter essa linha, mas por hora não há como negar que o candidato está desafiando abertamente o estado profundo e o império anglo-sionista.

Conclusão

Os EUA estão a um passo de entrar na que, provavelmente, será a mais profunda e mais perigosa crise de toda sua história. Se Trump for eleito, terá de lançar imediatamente um bem planejado ataque contra seus adversários, sem dar a eles o pretexto de acusá-lo de fazer repressão politicamente motivada. Na Rússia, Putin podia contar com o apoio dos militares e dos serviços de segurança. Não sei com quem Trump pode contar, mas confio firmemente que ainda há gente patriota de bem, nas Forças Armadas dos EUA. Se Trump conseguir pôr a pessoa certa no comando do FBI, pode usar aquela agência para limpar a casa e levar avante o julgamento de número consistente de acusados por crimes de corrupção, de conspiração para [... preencha a lacuna], abuso de autoridade, obstrução da justiça, omissão no cumprimento do dever, etc. Dado que esses crimes são disseminados nos atuais círculos do poder, também são fáceis de provar, e atacar a corrupção pode valer a Trump aplausos de pé do povo dos EUA. Em seguida, como Putin na Rússia, Trump terá de lidar com a mídia-empresa. Como, exatamente, não sei. Mas terá de encarar a besta e derrotá-la. Em cada passo nesse processo, terá de receber apoio proativo do povo, como Putin fez por merecer. Será capaz de fazer tudo isso?

Não sei. Honestamente, duvido. Primeiro, porque ainda não confio no homem. Mas, mais importante, acho que devo reconhecer que derrubar o estado profundo e restaurar o verdadeiro poder do povo é ainda mais difícil nos EUA, do que foi na Rússia. Sempre acreditei que o Império Anglo-sionista terá de ser derrubado de fora para dentro, mais provavelmente por uma combinação de derrotas militares e econômicas. Ainda penso assim. Contudo, posso estar errado – de fato, espero sinceramente estar errado –, e talvez Trump será o homem que derrubará o Império, para salvar os EUA. Se essa possibilidade existe, por menor que seja, acho que temos de acreditar nela e agir para que se concretize, uma vez que as vias alternativas são, de longe, muito piores.*****


[1] O Saker é muito furiosamente anticomunista, do que não faz segredo. Verdade é que a metáfora da vassoura não é exclusividade de Trotski e foi, mais, figura de propaganda. Lênin também ensinava a varrer, embora com vassoura de palha, a nobreza, os banqueiros, padres etc., além de Jânio Quadros, outro exímio varredor de corruptos. Nesse trecho suprimimos os excessos emocionais de anticomunismo do autor, para não jogar fora a criança com a água do banho [NTs].

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