quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Nas Filipinas, "EUA perderam", por Pepe Escobar


Pepe Escobar, Strategic Culture Foundation

Traduzido pelo coletivo da vila vudu

"Ilustres senhores, nessa oportunidade anuncio minha separação dos EUA tanto militar como também econômica." 

Assim o presidente das Filipinas Rodrigo "O Justiceiro" Duterte desencadeou um terremoto geopolítico que tomou toda a Eurásia e reverbera por todo o Oceano Pacífico.

E nem se fala da perfeita escolha da oportunidade; ali, nada menos que no coração do Dragão Emergente [orig. Rising Dragon].

Coroando sua visita de Estado a Pequim, Duterte então cunhou o mantra – grávido de sugestões – que continuará a reverberar por todo o sul global: "Os EUA perderam".



E como se não bastasse, anunciou que uma nova aliança – Filipinas, China e Rússia – está emergindo: "somos três, contra o mundo".

Como se podia prever, o establishment do governo da "nação indispensável" na Av. Beltway em Washington pirou-total, reagindo como "aturdidos" ou ensandecidos de fúria e espalhando os expletivos de sempre sobre o "enganador populista cru" [ing. "crude populist"], "líder destrambelhado" [ing. "unhinged leader"].

Resumo da ópera é que é preciso muita coragem para o líder de um país pobre, subdesenvolvido, no Sudeste Asiático ou em qualquer lugar do mundo, para desafiar tão abertamente a hiperpotência. Pois o jogo que Duterte está jogando é realpolitik, da pura; se der certo, terá habilmente jogado EUA contra China, para benefício dos interesses dos filipinos.

"Uma primavera de nosso relacionamento"

E começou com estardalhaço: durante a visita de Duterte à China, Manila assinou nada menos que $13 bilhões de contratos de negócios com Pequim – de comércio e investimento a controle do tráfico de drogas, segurança marítima e infraestrutura.

Pequim não mediu esforços para que Duterte se sentisse bem vindo e bem acolhido.

O presidente Xi Jinping sugeriu que Manila e Pequim devem "pôr temporariamente de lado" as inabordáveis disputas no Mar do Sul da China, e aprender com a "sabedoria da história" – que sempre dá espaço a conversações diplomáticas. Afinal, os dois povos são "irmãos de sangue".

Duterte respondeu à altura: "Embora cheguemos a Pequim bem perto do inverno, aqui é a primavera de nosso relacionamento" – disse a Xi, no Grande Salão do Povo.

China já é o segundo maior parceiro comercial das Filipinas, atrás só de Japão, EUA e Cingapura. As exportações filipinas para esses três chegam a 42,7% do total, comparadas aos 22,1% para China/Hong Kong. Importações da China são 16,1% do total. Ainda que o comércio com a China deva aumentar, o que realmente interessa a Duterte é o massivo investimento dos chineses em infraestrutura.

O significado disso tudo na prática e realmente impressionante: o Banco Asiático de Investimento e Infraestrutura liderado pela China (BAII) se envolverá definitivamente no desenvolvimento econômico das Filipinas; Manila se envolverá mais na promoção de relações tranquilas China-Nações do Sudeste Asiático [ing. ASEAN] em todas as questões regionais (assumirá a presidência rotativa da ASEAN em 2017); e as Filipinas se integrarão mais profundamente nas Novas Rotas da Seda ("Projeto Um Cinturão, Uma Estrada", ing. One Belt, One Road, OBOR).

Três tiros no olho do alvo: não é surpresa que os EUA tenham ficado de fora. E há ainda mais um dardo bem encaminhado para o alvo, embutido na promessa de Duterte, de que em breve porá fim à cooperação militar com os EUA, apesar da oposição de uma parte das Forças Armadas filipinas.

Atenção à Cadeia Primeira Ilha [ing. First Island Chain]

Tudo até aí já fora dramático que baste. Na véspera de sua reunião com Xi, falando a membros da comunidade filipina em Pequim, Duterte disse, "é hora de dizer adeus" aos EUA. "Não pedirei nada, mas se [os chineses] oferecerem e se me perguntarem 'o senhor precisa dessa ajuda? [Responderei] Claro! Somos muito pobres!" 

E o gancho, para os próximos capítulos: "Nunca mais irei aos EUA... Lá só seremos insultados".

Os EUA foram a potência colonial nas Filipinas de 1899 a 1942. Hollywood está gravada no inconsciente coletivo. Inglês é a língua franca – lado a lado com o tagalog. Mas os tentáculos da rede de "proteção" que Tio Sam estende sobre os filipinos estão longe de ser considerados bem-vindos. Duas das principais pérolas do Império de Bases dos EUA estão localizadas há décadas nas Filipinas: a Base Clark da Força Aérea e a Base Naval Baía Subic.

Clark ocupa 560 km2, com 15 mil habitantes, e trabalhou furiosamente durante a Guerra do Vietnã – principal entreposto de homens e armamentos para dentro e para fora de Saigon. Depois, foi convertida num daqueles QGs "operacionais avançados" do Pentágono. Subic ocupa 700 km2, e trabalhou tanto quando Clark. Foi base operacional avançada para a 7ª Frota dos EUA.

Já em 1987, antes do final da Guerra Fria, a Corporação RAND vivia alarmada com a perda dessas duas bases: que seria perda "devastadora para a segurança regional". Devastadora no sentido – mítico – de "defender os interesses das nações da ASEAN" e "a segurança das rotas marítimas".

Tradução: o Pentágono e a Marinha dos EUA perderiam um instrumento chave de pressão sobre as nações da ASEAN, dado que proteger "a segurança das rotas marítimas" sempre foi a justificativa chave para manter aquelas bases.

Mas fato é que perderam: Clark foi fechada em novembro de 1991, e Subic em novembro de 1992.

Passaram-se anos até que a China sentiu possibilidade de uma abertura – e aproveitou; afinal, durante os anos 1990s e início dos anos 2000s, a prioridade absoluta foi crescer à velocidade estonteante que se viu. Mas então Pequim fez as contas: não havia mais bases dos EUA com vista para a Cadeia Primeira Ilha.

A Cadeia Primeira Ilha é produto, ao longo de milênios, das fabulosas forças tectônicas do Anel de Fogo: uma cadeia de ilhas que vai do sul do Japão ao norte de Bornéu ao sul. Para Pequim, serve como uma espécie de escudo que protege o litoral ocidental da China: se essa cadeia de ilhas está segura, a Ásia está segura.

Para todas as finalidades práticas, Pequim considera a Cadeia Primeira Ilha como zona não negociável de demarcação do Pacífico Ocidental – idealmente sem qualquer interferência (tipo: dos EUA) estrangeira. O Mar do Sul da China – que em alguns pontos é chamado, por Manila, de Mar Filipino Ocidental – fica dentro da Cadeia Primeira Ilha. Assim sendo, para que a Cadeia Primeira Ilha esteja realmente protegida, o Mar do Sul da China deve estar livre de interferência estrangeira.

E aqui afinal nos vemos lançados no coração do caldeirão chave mais fervente de toda a geopolítica asiática no século 21 – e razão principal da pivotagem do governo Obama para a Ásia.

A Marinha dos EUA até aqui sempre contou com as Filipinas para fazer oposição à proverbial super propagandeada "agressão chinesa" nos mares do Sul da China e do Leste da China. A fúria do complexo industrial-militar neoconservador/neoliberal contra o "destrambelhado" esperto e valente Duterte e que conter a China e mandar sem oposição em toda a Cadeia Primeira Ilha tem sido o núcleo mais duro de toda a estratégia naval dos EUA desde o começo da Guerra Fria.

Pequim, entrementes, ganha o tempo de que precisa para polir o próprio ambiente estratégico. Isso nada tem a ver com "liberdade de navegação" e proteção a rotas marítimas: todos precisam do comércio cruzado pelo Mar do Sul da China. Trata-se de a China – talvez dentro dos próximos dez anos – já ser capaz de negar "acesso" à Marinha dos EUA ao Mar do Sul da China e ao interior da Cadeia Primeira Ilha.

A ousada cartada de Duterte batizada de "os EUA perderam" é só uma nova palavra-senha no que, muito provavelmente, será o thriller geopolítico chave do século 21. Um juiz da Suprema Corte em Manila, por exemplo, já avisou Duterte que, se ele ceder a soberania sobre o [baixio] Scarborough Shoal, pode sofrer impeachment. Não acontecerá: Duterte quer os carregamentos de comércio e investimento chineses, não abdicar da soberania filipina. Melhor que se prepare para a campanha de demonização que lhe moverá a hiperpotência, das dimensões da que sofreu, nos seus grandes dias, o falecido presidente Hugo Chávez.

blogdoalok

Um comentário :

  1. O que dizer de tamanha acurácia, tamanha grandeza intelectual e humanística dos fatos no panorama social e político, visto por tão belo e lúcido placar luminoso que se materializa em ingente existência...
    Onde mais encontrar homens assim?

    Deixo minhas lágrimas de felicidade, agradecimento e esperança, por sua existência e compromisso com ela que é, ao mesmo tempo, compromisso com os demais.

    Obrigado, Pepe (e colaboradores de material que jamais estaria disponiível (reconheço), sem luta, dor, lágrimas e sangue)!

    ResponderExcluir