quinta-feira, 27 de outubro de 2016

O jogo pesado para aprovar a PEC da Morte


Por Altamiro Borges

Por 359 votos a favor, 116 contra e duas abstenções, a Câmara Federal aprovou na noite desta terça-feira (25), em segundo turno, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC-241) que limita por 20 anos os gastos públicos - menos para o pagamento dos juros da dívida. Já batizada de PEC da Morte, ela impõe a ditadura do capital financeiro e terá profundos impactos na educação, na saúde e em outros serviços essenciais à população brasileira. Apesar dos inúmeros alertas de especialistas e de entidades da sociedade civil, o covil golpista de Michel Temer usou o rolo compressor para bancar a violenta medida de austeridade fiscal - inédita no mundo. O presidente da Câmara Federal, o demo Rodrigo Maia, chegou a acionar a Polícia Legislativa para esvaziar as galerias e evitar os protestos. O jogo foi pesado e sujo, bem ao estilo do "golpe dos corruptos" que abortou a democracia brasileira.



Nas últimas semanas, Brasília se transformou num autêntico balcão de negócios. Além dos banquetes oferecidos aos gulosos deputados, o governo ilegítimo negociou nos bastidores a entrega de inúmeros cargos em postos estratégicos da União. A própria revista Época, da famiglia Marinho - que militou de forma descarada pela aprovação da PEC-241 -, postou uma reportagem que revela o jogo bruto do covil golpista, que "afagou e fez ameaças", segundo relato do repórter Bruno Boghossian. "O governo transmitiu aos partidos aliados a mensagem de que o apoio será recompensado com a consolidação dos espaços - cargos -, enquanto as traições serão punidas. 'Quem participa do governo tem de apoiar o governo. Quem quiser ficar só com o bônus não pode participar do governo', diz Geddel Vieira". 

Ainda segundo a dócil matéria, "Geddel não enxerga nisso um bicho comum na política, o chamado fisiologismo. 'A ocupação de cargos é absolutamente natural e democrática, vamos furar esse tumor', diz. 'O que eu não admito é que alguém chegue aqui com a faca no pescoço.” Em outras palavras, Geddel quer evitar os agressivos que fazem exigências quando o governo está em maus lençóis. Quando montou o seu ministério, em maio, Temer pensou, de início, em uma equipe de notáveis... [Mas] Temer decidiu lotear a Esplanada entre a base, em busca de supremacia no Congresso". Nos tempos de Lula e Dilma, esta constatação seria motivo de escândalo na venal revista dos Marinho.

Além do descarado fisiologismo - que a Época agora trata como natural -, o rolo compressor do covil golpista ainda contou com o apoio da elite empresarial. Entidades patronais foram acionadas diretamente pelo Judas Michel Temer com o objetivo de pressionar "seus" deputados - ou melhor, seus capachos. Algumas confederações do setor privado chegaram a gastar fortunas em anúncios publicitários para elogiar a PEC-241. O presidente do Bradesco escreveu artigos para defender a urgência do "ajuste fiscal" - mas nada falou sobre o lucro exorbitante dos banqueiros. Pimenta no dos outros é refresco!

A PEC da Morte ainda contou com uma operação de propaganda da mídia chapa-branca - que agora terá mais cacife para negociar verbas publicitárias e outras benesses. Os jornalões publicaram vários editoriais para defender a medida. Fizeram até cadernos especiais mostrando as "vantagens" da PEC. Nas telinhas da tevê, os apresentadores e os "analistas de mercado" - nome fictício dos porta-vozes da máfia rentista - também deram um show de servilismo. Poucas vozes dissonantes tiveram espaço na mídia privada - apenas para disfarçar a visão monolítica e emburrecedora que prevalece nos meios de comunicação. Vale conferir um dos poucos artigos que questionaram o novo golpe do covil golpista:  

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PEC 241 reduz deveres do Estado com saúde e educação

Por Laura Carvalho - Folha de S.Paulo - 20/10/2016

No Brasil, a vinculação de recursos tributários para a educação pública teve origem na Constituição de 1934. A ideia que fundamenta a vinculação é de que, para garantir direitos aos cidadãos, é necessário atribuir deveres ao poder público. O artigo 112 da Constituição de 1988 define que a União nunca aplicará menos de 18% da arrecadação de impostos na "manutenção e desenvolvimento do ensino". Em 2000, o mesmo princípio foi estendido para saúde, que inicialmente acompanhava o crescimento do PIB e, a partir de 2016, passou a estar associada à evolução da arrecadação total.

A exposição de motivos da PEC 241 diz a que veio: "(...) É essencial alterarmos a regra de fixação do gasto mínimo em algumas áreas. Isso porque a Constituição estabelece que as despesas com saúde e educação devem ter um piso, fixado como proporção da receita fiscal". Em um governo aberto ao debate democrático, a PEC do "teto de gastos" deveria chamar-se PEC da "desvinculação de recursos".

Sob a alegação de que despesas obrigatórias engessam o Orçamento, a emenda altera o mínimo destinado a essas áreas para o valor vigente quando da implementação da regra, ajustando-o apenas pela inflação do ano anterior. Hoje a União gasta com saúde e educação mais do que o mínimo constitucional. Se em 2017 a União se ativer a esse mínimo, tal valor real passaria a funcionar como piso constitucional por 20 anos, mesmo em caso de expansão da arrecadação.

O governo alega que trata-se de um mínimo, e não de um teto, o que não implicaria necessariamente em um congelamento real dos recursos destinados a essas áreas. No entanto, dada a previsão de crescimento dos gastos com benefícios previdenciários - que ocorrerá por muitos anos mesmo se aprovada a reforma da Previdência -, o teto global para as despesas de cada Poder tornaria inviável a aplicação de um maior volume de recursos nas áreas de saúde e educação públicas. Caso contrário, despesas com outras áreas - cultura, ciência e tecnologia, investimentos em infraestrutura ou assistência social, por exemplo - teriam de ser ainda mais comprimidas ou até mesmo eliminadas.

Na prática, isso significa o abandono do princípio básico que norteou essas vinculações desde 1934, qual seja, de que enquanto não chegarmos aos níveis adequados de qualidade na provisão de educação e saúde públicas, eventuais aumentos na receita com impostos devem ter uma parcela mínima destinada à provisão destes serviços.

Embora haja sempre alguma margem para aumento na qualidade dos serviços pela maior eficiência - sem elevação de despesas -, a evidência é que houve melhora nos indicadores de resultado de ambas as áreas com a destinação maior de recursos na última década.

Ainda assim, os gastos em educação e saúde per capita no Brasil se mantém em níveis muito abaixo da média dos países da OCDE. Com o crescimento populacional nos próximos 20 anos, o congelamento implicará em uma queda vertiginosa nesses indicadores. O envelhecimento da população, em particular, reduzirá muito as despesas com saúde por idoso, com consequências dramáticas sobre os mais vulneráveis.

Na contramão de países como Chile e EUA, que hoje caminham na direção de uma ampliação da gratuidade na provisão desses serviços, a proposta disfarça a desistência de levar o Brasil aos níveis de qualidade de ensino e atendimento em saúde públicos das economias mais avançadas. Em um país com níveis altíssimos de desigualdade social, não é difícil perceber as implicações.

altamiro borges

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