segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Por dentro do Governo Invisível: Guerra, Propaganda, Clinton & Trump, por John Pilger


John Pilger, Global Research

traduzido pelo coletivo da vila vudu

O jornalista norte-americano Edward Bernays é frequentemente apresentado como inventou da propaganda moderna. Sobrinho de Sigmund Freud, foi Bernays quem cunhou a expressão "relações públicas", eufemismo para o jornalismo de boatos e mentiras, para burlar eleitores e consumidores.

Em 1929, Bernays persuadiu as feministas a promover o consumo de cigarros pelas mulheres, com um carro que desfilou no Desfile da Páscoa em NY, naquele ano – comportamento então considerado avançadíssimo e de igualdade entre homens e mulheres. Uma militante feminista, Ruth Booth, declarou "Mulheres! Acendam outra tocha da liberdade! Derrubem mais um tabu sexista!" A influência de Bernays foi muito além da publicidade. Seu mais retumbante sucesso de publicidade foi ter convencido os norte-americanos a mergulhar no massacre que foi a "1ª Guerra Mundial".



O segredo, disse ele, estava em fazer "a engenharia do consenso" [ing. "engineering the consent"], construir o consenso dentro da opinião pública, de modo a "controlar e dirigir [a opinião pública] como você deseje, sem que homens e mulheres saibam que estão sendo dirigidos".

Para Bernays, esse é "o verdadeiro poder governante em nossa sociedade"; deu-lhe o nome de "governo invisível".

Jamais o governo invisível teve mais poder do que hoje, e jamais foi menos estudado e mais mal compreendido. Em minha carreira de jornalista e cineasta, jamais vivi momento ou circunstância em que a propaganda estivesse tão intrometida na vida de homens, mulheres e crianças como está hoje; e jamais vivi momento em que menos se trabalhasse a favor da verdade e contra a propaganda.

Imagine duas cidades. Ambas sitiadas pelas forças do governo daquele país. Ambas ocupadas por fanáticos que cometem atrocidades terríveis, como degolar gente, por exemplo. Mas há uma diferença vital. Num dos sítios, os soldados do governo são descritos como libertadores pelos jornalistas ocidentais que viajam com a tropa e que narram batalhas e ataques aéreos sempre gloriosos, como cenas de um filme arrasa-quarteirões. E lá estão as primeiras páginas dos jornais, com aqueles heróis fazendo o "V" da Vitória. Praticamente é como se nem houvesse mortos.

Na outra cidade – em país próximo – está acontecendo precisamente a mesma coisa. Forças do governo estão sitiando uma cidade controlada pela mesma ninhada de fanáticos. Uma diferença é que esses fanáticos são apoiados, financiados, alimentados e armados por "nós" (por EUA e Grã-Bretanha). Os terroristas mantêm até um centro 'de mídia' equipado e sustentado por britânicos e norte-americanos. Outra diferença é que os soldados do governo que sitiam essa outra cidade são "os bandidos", condenados por atacar e bombardear a cidade – exatamente o que fazem os soldados "mocinhos", os soldados "do bem", na primeira cidade.

Confuso? Menos do que parece. Esse é o duplo-padrão básico, a própria essência da propaganda. Falo, claro, do sítio à cidade de Mosul, pelas forças do Iraque, apoiadas e financiadas por EUA e Grã-Bretanha; e do sítio à cidade de Aleppo ocupada por terroristas, que está sob ataque de forças do governo sírio apoiadas pela Rússia. O sítio de Mosul é "do bem". O sítio de Aleppo, de resistência contra terroristas invasores... é "do mal".

Muito menos noticiado é que nenhuma dessas duas cidades estaria hoje ocupada por fanáticos nem estaria sendo devastada pela guerra, se Grã-Bretanha e EUA não tivessem invadido o Iraque em 2003. Essa empreitada criminosa foi construída sobre mentiras em tudo semelhantes à propaganda, a mesma propaganda que agora distorce nossa capacidade para compreender a guerra na Síria.

Sem os ensurdecedores tambores batidos pela propaganda travestida como se fosse jornalismo, os monstros do ISIS e da Al-Qaeda e Frente al-Nusra e o resto da gangue jihadista talvez nem existisse; e talvez o povo sírio não estivesse obrigado hoje a lutar para salvar a própria vida.

Alguns talvez lembrem uma série de matérias da BBC em 2003, em que os jornalistas viravam-se para as câmeras de 'informavam' que Blair afinal estaria "vingado" pelo que, na verdade, foi o maior crime do século. As redes de TV nos EUA produziram o mesmo truque para validar o que George W. Bush fazia. Fox News mostrou Henry Kissinger para reforçar as tolices que Colin Powell inventava e repetia. No mesmo ano, logo depois da invasão, filmei uma entrevista em Washington com Charles Lewis, renomado jornalista norte-americano de investigação. Perguntei a ele: "O que teria acontecido se a 'imprensa mais livre do mundo' tivesse realmente denunciado como propaganda o que, todos sabiam, não passava de propaganda pró-guerra?"

Lewis respondeu que, se os jornalistas tivessem cumprido o dever deles, "pode-se dizer, com boa chance de acertar, que os EUA não teriam invadido o Iraque e não haveria guerra naquele país".

Foi declaração chocante, mas apoiada por outros jornalistas famosos aos quais fiz a mesma pergunta – Dan Rather da CBS, David Rose do Observer e jornalistas e produtores na BBC, que pediram para não ser identificados. Em outras palavras, se os jornalistas tivessem feito jornalismo, se tivessem investigado o que não passava de propaganda, em vez de repetir e amplificar a propaganda sem qualquer investigação, centenas de milhares de homens, mulheres e crianças estariam vivos, e não haveria ISIS, nem Aleppo nem Mosul estariam sitiadas. Não teria havido o atentado no Metrô de Londres dia 7/7/2005. Não haveria tsunamis de refugiados; não haveria esses campos miseráveis, de concentração de refugiados.

Quando atrocidade terrorista aconteceu em Paris, novembro passado, o presidente François Hollande imediatamente mandou aviões para bombardearem a Síria! E daí brotou mais terrorismo, que gerou, como se previa que gerasse, efeito direito das bombas de Hollande, que a França também já estava "em guerra", "sem perdão". A violência de Estado e a violência jihadista alimentam uma a outra: eis a única verdade que nenhum líder nacional tem coragem de reconhecer.

"Quando a verdade é substituída pelo silêncio" – disse Yevtushenko, dissidente do governo soviético – "o silêncio é mentira."

O ataque contra o Iraque, o ataque contra a Líbia, o ataque contra a Síria aconteceram porque o governante, em cada um desses países, não era fantoche e vassalo do ocidente. A folha corrida de infrações aos direitos humanos, de um Saddam ou de um Gaddafi não teve importância alguma, para as potências atacantes. Grave, nos dois casos, foi que esses governantes resistiram contra obedecer ordens e entregar a empresas norte-americanas o controle dos destinos do país deles.

O mesmo destino teria Slobodan Milosevic, desde o momento em que se recusou a assinar um "acordo" pelo qual entregaria a Sérvia à ocupação, para ser convertida à economia de mercado. O povo da Sérvia foi bombardeado, Milosevic foi acusado e processado no Tribunal de Haia. Não se tolera independência nessa escala. Como WikiLeaks revelou, o presidente Bashar al-Assad da Síria só foi atacado depois que não aceitou, em 2009, que se construísse um oleoduto que atravessaria o país dele, do Qatar até a Europa.

A partir desse momento, a CIA planejou a destruição do governo da Síria, usando como arma seus fanáticos jihadistas – os mesmos que, hoje, estão cercando civis inocentes em Mosul e no leste de Aleppo. Por que nada disso jamais foi tema dos 'noticiários'? Um ex-funcionário do Ministério de Relações Exterior (Foreign Office) da Grã-Bretanha, Carne Ross, responsável por operar as sanções contra o Irã, respondeu-me: "Nós fornecíamos factoides inócuos aos jornalistas, depois de 'desinfetados' pela inteligência. Ou nada dizíamos. Funcionou assim." 

O cliente medieval do ocidente, a Arábia Saudita – a quem EUA e Grã-Bretanha vendem bilhões de dólares em armas – está hoje destruindo o Iêmen, país tão pobre que, nos melhores tempos, 50% das crianças sofrem de subnutrição. Procurem no YouTube e verão o tipo de bombas gigantes – "nossas bombas" – que os sauditas lançam contra vilas miseráveis e contra casamentos e funerais. As explosões são equivalentes à de pequenas bombas atômicas. Os operadores de canhões e armas trabalham lado a lado com especialistas britânicos. Nada disso jamais foi 'notícia', nos 'noticiários' noturnos.

A propaganda é mais efetiva quando o consenso é construído por gente de fina educação – Oxford, Cambridge, Harvard, Columbia – com carreira no 'jornalismo' da BBC, do Guardian, do New York Times, do Washington Post. Essas organizações são conhecidas como "a imprensa liberal". Se autoapresentam como tribunas progressistas, cheias de luzes 'críticas', a serviço da mais recomendável visão de mundo dos mais progressistas: são contra o racismo, a favor do feminismo e dos grupos LGBT. E belicistas ferozes.

Ao mesmo tempo em que falam na defesa de causas feministas, apoiam os grupos e guerras mais violentos, que negam todos os direitos a incontável número de mulheres, inclusive o direito à vida.

Em 2011, a Líbia, então um estado moderno, foi destruída até ser convertida num monte de ruínas, sob o pretexto de que Muammar Gaddafi estaria cometendo genocídio contra o próprio povo. A 'notícia' esteve em todos os 'noticiários' em todo o mundo, incansavelmente. Sempre sem prova alguma. Sempre foi mentira.

Na verdade, Grã-Bretanha, Europa e EUA queriam o que gostam de chamar de "mudança de regime" – codinome 'jornalístico' para "golpe para derrubar governo e estado não 'cordatos'" – na Líbia, o maior produtor de petróleo do continente africano. A influência de Gaddafi no continente e, sobretudo, a independência de um governo altamente popular no próprio país, eram forças que não podiam ser toleradas. Então Gaddafi foi assassinado por loucos fanáticos, apoiados e armados por EUA, Grã-Bretanha e França. Hillary Clinton festejou rindo, diante das câmeras a morte de Muamar Gaddafi, amado de seu povo: "Viemos, vimos, ele morreu!"

A destruição da Líbia foi um triunfo da 'mídia-empresa'. Com os tambores da guerra já soando no ar, Jonathan Freedland escreveu no Guardian: "Embora os riscos seja bem reais, há argumentos de muito peso a favor da intervenção". Intervenção é terminologia de salão de chá do Guardian, cujo significado real, para a Líbia, foi morte e destruição.

Segundo os próprios registros oficiais da organização, a OTAN disparou 9.700 "missões de ataque" contra a Líbia, das quais mais de 1/3 visaram alvos civis. Usaram mísseis com ogivas de urânio. Basta examinar as imagens das ruínas de Misurata e Sirte, e as covas coletivas encontradas pela Cruz Vermelha. O relatório da Unicef registra que "a maior parte das crianças mortas tinham idade inferior a 10 anos". Consequência direta dessa 'ação', Sirte tornou-se capital do ISIS.

A Ucrânia é outro triunfo da mídia-empresa. Jornais respeitáveis como liberais, como New York Times, Washington Post e o Guardian e emissoras líderes mundiais de TV e rádio, como BBC, NBC, CBS, CNN tiveram papel decisivo na operação de propaganda para condicionar o público telespectador e radioaudiente a aceitar uma nova e muito perigosa guerra fria. Todas essas empresas distorceram a verdade dos eventos na Ucrânia, apresentados como atos malignos cometidos pela Rússia. Só mentiras. O golpe na Ucrânia em 2014 foi trabalho dos EUA, auxiliados pela Alemanha e pela OTAN.

Essa inversão da realidade é tão pervasiva, que nada se vê-ouve-lê em veículos da mídia-empresa sobre as provocações militares dos EUA, contra a Rússia. Nada é notícia. Todos os fatos são suprimidos e ocultados por trás de uma campanha de implantar o medo como só vi no tempo de minha juventude, na primeira guerra fria. Mais uma vez, os 'vermelhos' estão chegando, os Ruskies vão pegar vocês, comandados por um neo-Stálin, que é como a revista The Economist mostra Putin, o monstro.

A ocultação da verdade sobre a Ucrânia é um dos mais impressionantes bloqueios de noticiário de que consigo lembrar. Os fascistas autores do golpe em Kiev são da mesma ninhada dos que apoiaram a invasão nazista contra a União Soviética em 1941. De todos os governantes que sabem do neocrescimento do neoantissemitismo neofascista na Europa, só o presidente Vladimir Putin tem dado repetidos sinais de alerta. Mas é Vladimir Putin, e Vladimir Putin não conta.

Muitos na mídia ocidental trabalharam muito para apresentar a população de russos étnicos falantes de russo da Ucrânia como se fossem 'estrangeiros' no próprio país, como agentes de Moscou, praticamente nunca como ucranianos desejando uma federação dentro da Ucrânia e como cidadãos ucranianos resistindo contra golpe orquestrado do exterior contra o governo que os próprios ucranianos elegeram.

Pode-se dizer que há quase uma joie d’esprit de reunião de escola de belicistas. Os batedores de tambor do Washington Post incitando à guerra com a Rússia são os mesmos redatores de editoriais que publicaram a mentira de que Saddam Hussein teria (não tinha) armas de destruição em massa.

Para a maioria de nós, a campanha presidencial nos EUA é show midiático freak, no qual Donald Trump é o arquivilão. Mas Trump é amaldiçoado por todos os poderosos nos EUA por motivos que pouco têm a ver com o comportamento e as opiniões esdrúxulas do candidato. Para o governo invisível em Washington, o imprevisível Trump é um obstáculo ao projeto dos EUA para o século 21: manter a hegemonia e a dominação pelos EUA no mundo e subjugar a Rússia e, se possível, também a China.

Para os militaristas em Washington, o real problema com Trump é que, em seus momentos de lucidez, ele não dá sinais de desejar guerra contra a Rússia; diz que quer conversar com o presidente russo, não fazer guerra contra ele; diz que quer conversar com o presidente da China. No primeiro debate com Hillary Clinton, Trump prometeu que não será o primeiro a usar armas atômicas em seja qual for o conflito. Disse que "Com certeza não dispararei o primeiro ataque. Se a alternativa nuclear acontece, acabou-se." Como se fosse novidade.

Estaria falando a sério? Quem sabe? Trump muito frequentemente se contradiz ele mesmo. Mas o que está bem claro é que Trump é considerado grave ameaça ao status quomantido pela vasta máquina da segurança nacional que governa os EUA, não importa quem esteja na Casa Branca. A CIA o quer derrotado. O Pentágono o quer derrotado. A mídia o quer derrotado. Até o próprio partido de Trump o quer derrotado. O homem é uma ameaça aos governantes do mundo – diferente de Clinton que não deixa dúvidas de que, sim, está pronta a declarar guerra a duas superpotências atômicas, Rússia e China.

Clinton conhece a receita, do que ela própria não se cansa de vangloriar-se. O currículo dela é assustadora prova do que ela é capaz. Como senadora, apoiou o banho de sangue no Iraque. Quando concorreu contra Obama em 2008, ela ameaçou "obliterar totalmente" o Irã. Como secretária de Estado, participou dos planos secretos e ilegais para destruir os governos da Líbia e de Honduras e pôs em andamento a possibilidade de confronto com a China. Agora, só fala de uma Zona Aérea de Exclusão que ela quer ver implantada sobre a Síria – provocação de guerra direta contra a Rússia. Clinton pode bem vir a ser a mais perigosa presidente dos EUA que vi chegar ao poder durante toda minha vida – título para o qual a competição é duríssima.

Sem um fiapo de prova, Clinton pôs-se a acusar a Rússia de apoiar Trump e de ter hackeado seus emails. Divulgados por WikiLeaks, esses emails revelam que tudo que Clinton diz no privado, em discursos e "palestras" compradas por ricos e poderosos é o exato oposto do que ela diz publicamente. Por isso é tão furiosamente importante silenciar e ameaçar Julian Assange. Como editor de WikiLeaks, Assange conhece a verdade. E deixem-me esclarecer desde já e tranquilizar os muitos que se preocupam: Assange está bem; e WikiLeaks está operando a pleno vapor.

Hoje, o maior corpo de guerra liderado pelos EUA desde a 2ª Guerra Mundial está em ação – no Cáucaso e no leste da Europa, na fronteira com a Rússia e na Ásia e no Pacífico, onde o alvo é a China. Tenham em mente essa informação, quando o circo eleitoral alcançar o clímax, dia 8 de novembro. Se Clinton vencer, um coro de comentaristas beócios celebrará a coroação dela como se fosse passo gigantesco na libertação das mulheres. Nenhum deles falará das vítimas de Hillary Clinton: mulheres sírias, mulheres iraquiana, mulheres líbias. Nenhum deles mencionará os exercícios de defesa civil em andamento na Rússia – para provocar a Rússia. Nenhum deles fará qualquer referência às "tochas da liberdade" de Edward Bernay. 

O porta-voz de George Bush chamou as mídia-empresas, certa vez, de "possibilitadores cúmplices".

Vindo de alto funcionário de governo cujas mentiras, possibilitadas pelas mídia-empresas, causaram todo aquele sofrimento, essa designação é como um aviso da história.

Em 1946, o acusador no Tribunal de Nuremberg disse, falando da mídia-empresa alemã: "Antes de qualquer grande agressão, eles iniciavam uma campanha pela mídia, planejada para enfraquecer as vítimas e preparar psicologicamente o povo alemão para o ataque que viria. No sistema de propaganda, os veículos diários das mídia-empresas, jornais e rádios, sempre foram as armas mais decisivas e mais mortais."

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