sábado, 26 de novembro de 2016

Todos a bordo do mundo pós-Parceria Trans-Pacífico, por Pepe Escobar


Pepe Escobar, Strategic Culture Foundation

Traduzido pelo coletivo da vila vudu 

Os apertos de mãos pode-se dizer 'de indiferença' que trocaram os presidentes Barack Obama dos EUA e Vladimir Putin da Rússia, um antes e outro depois de terem conversado "por cerca de quatro minutos", em pé, nos corredores da cúpula de Cooperação Econômica do Pacífico Asiático (CEPA) [ing. Asia-Pacific Economic Cooperation (APEC)] em Lima, Peru, capturou à perfeição o ocaso melancólico da era Obama. 

Qualquer flashback mesmo que superficial das sempre precárias relações entre Obama e as duas "ameaças existenciais" Rússia e China incluiria de tudo, desde Maidan patrocinado por Washington em Kiev, até o "Assad tem de sair" de Obama na Síria, com menção especial à guerra pelo preço do petróleo, sanções, o ataque contra o rublo, a demonização extremada de Putin e de tudo que tenha a ver com a Rússia, provocações no Mar do Sul da China – até a reviravolta final: a morte do tão almejado Tratado da Parceria Trans-Pacífico (PTP) [ing. Trans-Pacific Partnership (TPP)], morte que foi reconfirmada na CEPA em Lima, imediatamente depois da eleição de Donald Trump.


É quase insuportavelmente doloroso assistir a Obama defender seu nada espetacular legado ao final da conferência com a imprensa internacional – ironicamente com a costa do Pacífico Sul como pano de fundo – bem quando o presidente Xi Jinping da China reverberava em toda a sua reiterada glória geopolítica, a qual ele já partilha de pleno direito com Putin. Quanto a Trump, embora invisível, ele lá esteve, em Lima, em toda parte.

O sepultamento ritual em águas do Pacífico peruano, da OTAN comercial, braço do pivô para a Ásia (anunciado pela primeira vez em outubro de 2011 por Hillary Clinton) ofereceu a Xi a plataforma perfeita para expor os méritos da Parceria Econômica Regional Compreensiva (PERC) [ing. Regional Comprehensive Economic Partnership (RCEP), que a China apoia amplamente. 

A PERC é ideia ambiciosa que visa a converter-se no maior acordo de livre comércio do mundo: 46% da população global, com PIB combinado de $17 trilhões e 40% do comércio mundial. A PERC inclui 10 nações da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ANSA) [ing. ASEAN], mais China, Japão, Coreia do Sul, Índia, Austrália e Nova Zelândia.

A ideia da PERC nasceu há quatro anos, numa cúpula da ANSA no Cambodia – e até agora já teve nove rodadas de negociações. Curiosamente, a ideia inicial veio do Japão – como um mecanismo para combinar a imensidade de acordos bilaterais que a ANSA mantinha com seus parceiros. Mas agora a China assumiu a liderança.

A PERC é também o núcleo duro da Área de Livre Comércio do Pacífico Asiático (ALCPA) [ing. Free Trade Area of the Asia-Pacific, FTAAP], – conceito que foi introduzido na reunião da CEPA em Pequim pela China, evidentemente, com o objetivo de seduzir nações cujo principal parceiro comercial seja a China, afastando-as de qualquer ideia semelhante às da Parceria Trans-Pacífico.

A parceria PERC – e até a ALCPA – nada têm a ver com algum novo conjunto de regras de comércio ultra amplas (concebidas pelas multinacionais norte-americanas), mas é a extensão de acordos já existentes à ANSA e a nações chaves do Nordeste da Ásia, do Sul da Ásia e da Oceania.

Não é preciso ser meteorologista pós-graduado para ver de que lado sopram agora os ventos do Pacífico. Peru e Chile já estão a bordo, para unirem-se à PERC. E o Japão – que negociava a Parceria Trans-Pacífico até o último alento – já mudou de rumo e se encaminhou para a PERC.

O Sultão entra em cena

Enquanto isso, Putin e Xi reuniram-se mais uma vez – quando Putin revelou que visitará a China na próxima primavera, para aprofundar o envolvimento russo nas Novas Rotas da Seda, também chamadas "Um Cinturão, Uma Estrada" [ing. One Belt, One Road (OBOR)]. O objetivo final é fundir a projeto OBOR puxado pela China, com o desenvolvimento da União Econômica Eurasiana (UEE) [ing. Eurasia Economic Union (EEU), puxada pela Rússia.

Esse é o espírito por trás de 25 acordos intergovernamentais em economia, investimento e indústria nuclear assinados pelo primeiro-ministro russo Dmitry Medvedev e o premiê chinês Li Keqiang em Petersburgo no início de novembro, e do estabelecimento do Russia-China Venture Fund.

Paralelamente, quase que sem mais nem menos, e num único golpe, o presidente Tayyip Erdogan da Turquia, na volta de uma visita ao Paquistão e Uzbequistão, confirmou o que já era absolutamente evidente nos últimos meses: "Por que a Turquia não seria parte dos 'Cinco de Xangai' [ing. Shanghai Five? Foi o que eu disse ao presidente Putin, a (presidente do Cazaquistão) Nazarbayev, aos que são agora os Cinco de Xangai... Acho que se a Turquia for integrada aos Cinco de Xangai, o grupo agirá com muito mais facilidade".

A bomba refere-se, claro, à Organização de Cooperação de Xangai (OCX) [ing. Shanghai Cooperation Organization (SCO)], iniciada em 2001 como "Os Cinco de Xangai" – China, Rússia e três nações da Ásia Central, Cazaquistão, Quirguistão e Tadjiquistão (o Uzbequistão integrou-se posteriormente) – como bloco de segurança para combater o jihadismo salafista e o tráfico de drogas a partir do Afeganistão.

Ao longo dos anos, a OCX evoluiu muito – até se converter num mecanismo de integração/cooperação para toda a Ásia. Índia, Paquistão, Irã, Afeganistão e Mongólia são observadores, com Índia e Paquistão a serem admitidos como membros plenos talvez já em 2017, seguidos pelo Irã. A Turquia (desde 2013) e Belarus são "parceiros de diálogo" da OCX.

O esperto Erdogan fez sua aparição inaugural na direção da OCX no mesmo momento em que reiterava que a Turquia não precisa unir-se à União Europeia "a qualquer custo". Já era mais que evidente, desde que Erdogan sobreviveu ao golpe de julho e lançou revide de linha duríssima recebido com gritinhos de horror em Bruxelas – onde os quase onze anos (até aqui) de negociações para a integração da Turquia estão engripadas. E a França, segunda potência da UE, abaixo só da Alemanha, inevitavelmente bloqueará a entrada da Turquia, e seja quem for o presidente a ser eleito ano que vem.

A Turquia integrada à OCX, no longo prazo com Irã, Índia e Paquistão, representará mais um nodo chave da integração da Eurásia, com a OCX cada vez mais interconectada ao Projeto "Um Cinturão, Uma Estrada (UCUE), à União Econômica Eurasiana, ao Fundo Rota da Seda chinês, ao Banco Asiático de Investimento e Infraestrutura e até ao Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS, que começará a financiar projetos para membros do grupo e depois se expandirá para outras nações no Sul Global, Moscou e Pequim receberiam Ancara com os braços abertos.

Sejam quais forem os contornos da política de Trump para China/Ásia, a integração eurasiana prosseguirá sem interrupção. A China está fazendo avançar seu pivô simultaneamente interno e externo envolvendo ajustes das políticas financeira, fiscal e tributária na direção de aumentar o consumo no varejo, na saúde, em viagens e esportes, paralelo ao impulso do UCUE por toda a Eurásia, sempre na direção de ir dando corpo e solidez a uma superpotência econômica.

A Parceria Trans-Pacífico – ou a OTAN comercial, versão asiática – é apenas um escalpo recolhido numa estrada longa e sinuosa. E no Mar do Sul da China, o diálogo vai aos poucos se livrando da relação de confronto tão empenhadamente fomentada pelo governo Obama.

Na reunião da CEPA, Xi também se encontrou com o presidente da Filipinas Rodrigo Duterte – e falou de China e Filipinas estreitarem a cooperação marítima. Resultado prático é que os pescadores filipinos continuarão a ter acesso ao Scarborough Shoal, ricas águas piscosas localizadas dentro da Zona Exclusiva de Comércio (ZEC) [ing. exclusive economic zone, EEZ] das Filipinas que estava sob controle chinês desde 2012. Pequim também prometeu ajudar os pescadores filipinos que trabalham em indústrias alternativas – como a aquacultura.

Podem chamar de Parceria Trans-Mar-do-Sul-da-China.

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