terça-feira, 27 de dezembro de 2016

De volta ao futuro: da URSS ao Século Eurasiano, por Pepe Escobar


Pepe Escobar, SputnikNews

Traduzido pelo coletivo da vila vudu

Um quarto de século atrás, na noite de 25/12/1991, a bandeira vermelha foi retirada do mastro na cúpula do Kremlin – e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, URSS, deixou de existir. Pode-se dizer que o evento que o presidente Putin descreveria adiante, em 2005, como "a maior catástrofe geopolítica do século 20" seria também a mais ampla queda de império de toda a história moderna.

Muito além dos arquivos históricos do marxismo-leninismo repentinamente sitiados pelos signos do consumo os mais claros e reluzentes, o que aconteceu no plano pessoal humano foi o "drama real" (outra vez, palavras de Putin) de milhões de russos repentinamente despejados da Federação, dispersos entre 12 novas repúblicas espalhadas pela Eurásia. 


Num flash o mundo ficou unipolar; sumiu uma modalidade do autoritarismo para beneficiar outra, apoiada em dois pilares: a OTAN, impulsionada para o papel de Robocop global; e o exorbitante privilégio de imprimir o dólar norte-americano, como moeda fiat. 


Ofegantes funcionários neo-Hegelianos do Império correram a anunciar o fim da História. Para euforia incontida dos neoconservadores, aquele momento parecia apagar para sempre o veredito de Paul Kennedy, historiador de Yale, em Ascensão e Queda das Grandes Potências, que disse, em 1997, que o império global norte-americano, como todos os impérios antes dele, estava já em declínio. Todos lembram o dia 25/12/1991. Permitam um rápido interlúdio pessoal. 

Naquela fatídica noite de inverno, eu estava em Varanasi, junto ao rio Ganges, imerso em assuntos muito mais espirituais. Com o pé na estrada sem pouso certo, por todo o Sudeste Asiático, dali para a Índia, Nepal e a florescente China, muito antes da era da conexão instantânea 24 horas/dia, sete dias por semana, só percebi a enormidade do que havia acontecido depois que, viajando de Pequim pela Trans-Siberiana, cheguei afinal à Moscou já privada da URSS, mais de dois meses depois do fato. Foi aquela viagem que me fez deixar o Ocidente, para conhecer e aprender a Ásia por dentro, para acompanhar o que adiante eu chamaria de O Século Eurasiano. 

Os anos 1990s à go-go foram tempos inebriantes. Bill Clinton implantou saltitante a doutrina neoconservadora de Wolfowitz. A Rússia foi estuprada por uma gangue de oligarcas operados pelo Ocidente por controle remoto. A OTAN revelou progressivamente seu papel profundo, criada, como Lord Ismay formulara, para "manter os americanos dentro, os russos fora e os alemães por baixo."

Afinal, desde que o Dr. Zbigniew "Grande Tabuleiro de Xadrez" Brzezinski levou David Rockefeller a instalar a Comissão Trilateral em 1973, o Grande Quadro sempre foi dar cobertura ao poder dos EUA para continuar a mandar em todos os demais estados nacionais, dando forma, assim, ao que se chamava "governança global". Adiante, tudo isso foi expandido, logo nos primeiros anos do novo milênio, mediante a Teoria da Dominação de Pleno Espectro do Pentágono. 

Vladimir Putin já estreara, em 2000, no palco geopolítico. Há três anos, Mikhail Gorbachev declarou e destacou que Putin "salvou a Rússia de ser desintegrada". Na verdade, fez também muitas outras coisas, todas engenharia dele. 25 anos depois da queda da URSS, Putin é o rei geopolítico fazedor de reis, primeiro e único; é o grande desconstrutor do mito de cercava a tal "democracia" liberal ocidental – seja a variedade neoconservadora, ou a neoliberal conservadora, ou a variedade "imperialista humanitária"; e é de pleno direito o esmagador-em-chefe do Mito Mãe de Todos os Mitos Geopolíticos: o mito de que a dominação por uma superpotência unipolar teria sido dádiva divina aos EUA, que seriam perenemente excepcionais. 

Pentágono vs. Pentágono

A crise financeira de 2008 provocada pelo capitalismo de cassino plus a "firmeza" norte-americana no intuito de refazer o chamado Oriente Médio Expandido mediante guerras escolhidas, mudança de regime e operações clandestinas e/ou sob falsa bandeira fracassaram miseravelmente. Enquanto esperamos pelo raiar da era Trump – e fica aqui um ponto de interrogação geopolítico de dimensões quase intergalácticas –, só há, de certo, que o Partido da Guerra do estado profundo dos EUA não admitirá derrota. E o quebra-cabeça geopolítico chave a ser resolvido é como as estridentes tensões internas norte-americanas lidarão com a questão da progressiva integração da Eurásia: Rússia, China e Irã. Ponto chave a observar será o papel chave do Chefe do Estado-maior das Forças Norte-americanas Joseph "Joe, o Brigador" [ing. Fighting Joe"] Dunford, e como interpretará a Estratégia Militar Nacional dos EUA [ing. US National Military Strategy]. A parte crucial da estratégia é um anexo de cinco partes, em que se detalham as ameaças existenciais mais altas contra os EUA. Em pentagonês, são "quatro 'mais' uma": Rússia, China, Irã, Coreia do Norte e (a "'mais' uma"), as OEVs (Organizações Extremistas Violentas [ing. "VEOs" —violent extremist organizations]. 

O próprio Pentágono está dividido. Para a Estratégia Militar Nacional e para o "Joe Brigador", a maior e mais alta ameaça é a Rússia. Para Mattis "Cachorro Louco", novo comandante do Pentágono, é o Irã. Para muitos oficiais do Comando do Estado-maior, a maior e mais grave ameaça contra os EUA vem hoje das OEVs, especialmente do ISIS/ISIL/Daech. Assim sendo, a questão crucial é quem Trump realmente ouvirá. 

Putin acertou o olho do alvo, quando falou no Quartel-general do Ministério da Defesa da Rússia em Moscou, antes dos feriados de fim de ano: "Podemos dizer com perfeita certeza: hoje, somos mais fortes que qualquer potencial agressor". E repetiu: "Qualquer um." Isso, depois que o ministro da Defesa Sergei Shoigu ter destacado que a Rússia "pela primeira vez em nossa história" completou a proteção de toda a extensa fronteira russa, com sistemas antimísseis de alerta rápido. Deve-se esperar que o Pentágono processe com extrema seriedade essa informação. Significa, na essência, que antes de os S-500s estarem plenamente desenvolvidos e montados, Moscou era obrigada a exercitar prudência extrema. Agora, o espaço aéreo russo parece estar efetivamente vedado. Putin nunca pôde admitir publicamente que a Rússia é hoje a mais forte potência militar do mundo, antes de a instalação dos S-500s estar completada. 

Todos os mísseis ofensivos dos EUA e aeronaves stealth são hoje perfeitamente inúteis. E até aí nem falamos dos silenciosos submarinos russos armados com armas nucleares.

A frase de Putin, de admissão explícita, é muito surpreendente, porque ocultar a própria força é traço inscrito, pode-se dizer, na natureza da estratégia dos russos. Mas na nova configuração geopolítica, talvez como um preâmbulo à pós-Guerra Fria 2.0, o fator mais importante passou a ser enviar "mensagem" preventiva, a mais clara possível, ao Pentágono.

Na conferência com a imprensa de final de ano, Putin também disse que "o que temos, entre Rússia e China é mais que apenas uma parceria estratégica." Outra mensagem sutil, mas claríssima, dirigida a muitos atores, dentro ou em torno do estado profundo dos EUA,Brzezinski incluído, ou internos ou laterais em relação ao governo Trump – dedicado às táticas de sempre, de Dividir para Governar, para jogar Rússia contra a China. O que realmente importa é que os três atores cruciais na Eurásia, Rússia, China e Irã, já estão coligados numa política de defesa mútua. Assim sendo, delírios que o Pentágono acalente de atacar o Irã dão instantaneamente em setor absolutamente protegido. 

Talvez estejamos nos aproximando de uma possível configuração geopolítica na qual não seria descabido esperar alguma espécie de Grande Barganha que envolva os EUA e os três nodos chaves da integração da Eurásia: uma espécie de Interregnum Détente antes que extensa Guerra Fria 2.0, instigada pelo estado profundo dos EUA, novamente se alastre pelo mundo. 

Passaram-se apenas 25 anos. Não foi o fim da história. Foi, mais, o preâmbulo de um novo drama histórico. Preparem-se, porque o grosso da ação começa agora.

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