segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Estratégia Confusa de Trump leva a mais uma reviravolta de Erdogan na Síria


Moon of Alabama

tradução de btpsilveira


No front sírio, há dois novos desenvolvimentos. O Estado Islâmico mudou de tática subitamente e o presidente turco Erdogan inverteu seu curso político mais uma vez.
Nas últimas 24 horas novos anúncios de vitórias contra o Estado Islâmico aconteceram em sequência:

  • As forças curdas que lutam pelos EUA por procuração no leste do país anunciaram que alcançaram a margem norte do Rio Eufrates entre Raqqa e Deir Azzor. Isso corta as linhas de comunicação do Estado Islâmico entre as duas cidades.
  • As forças da Turquia e seus mercenários autodenominados “rebeldes sírios” estavam atacando a cidade de Al-Bab a leste de Alepo por quase quatro meses. Fizeram pouco progresso e sofreram perdas pesadas. Na tarde de ontem, eles subitamente adentraram a cidade e hoje tomaram seu controle. Várias fontes afirmam que um acordo foi feito entre as forças turcas e o Estado Islâmico para que o último evacuasse a cidade de Al-Bab levando apenas armas pessoais. Ainda não se sabe o preço pago pela Turquia para alcançar esse acordo.
  • Ao sul de Al-Bab o exército sírio está se movendo mais para leste do Eufrates e conquistaram várias aldeias que estavam nas mãos dos militantes do EI. O movimento sírio está claramente destinado a cortar as estradas entre as forças turcas em volta de Al-Bab e as forças do Estado Islâmico em Raqqa (isso parece estar se tornando uma corrida).
  • Ainda mais ao sul outro grupo do exército sírio está se movendo para leste em direção a Palmira.
  • Na cidade oriental de Deir Azzor a guarnição do exército sírio está sob cerco pelas forças do Estado Islâmico. Algumas semanas atrás a situação parecia desesperadora. Mas com reforços trazidos de helicóptero e o apoio massivo da força aérea russa a posição aguentou bastante bem. Mais recentemente, várias colinas foram tomadas do Estado Islâmico em retirada.
  • No Iraque, o exército, a polícia e milícias do governo estão avançando para o sul de Mosul. Hoje, o aeroporto ao sul da cidade foi recapturado com relativamente pouca luta. Como em todos os lugares, o Estado Islâmico parou de resistir e recuou. Apenas algumas guarnições de retaguarda ofereceram uma resistência débil.
Mesmo com o Estado Islâmico sob pressão por todo lado, o recuo súbito em todos os fronts durante as últimas 24 horas é espantoso e sugere sincronização. Uma ordem superior deve ter sido dada para recuar para áreas de concentração em Raqqa na Síria e ao sul de Mosul no Iraque.

Acontece que o Estado Islâmico não tem para onde ir. Mosul está completamente cercada e Raqqa está quase totalmente isolada. Depois dos massacres que cometeram em todos os lugares, os lutadores do Estado Islâmico não devem esperar quartel de seus adversários. Eles fizeram inimigos por todo lado e fora alguns poucos clérigos radicais (sauditas) não há amigos que possam ajudá-los. Os recuos recentes, portanto, não significam que se renderão. O Estado Islâmico continuará a lutar até que seja completamente destruído. Mas por enquanto seus líderes decidiram preservar suas forças. Imagina-se o que planejam como um último ato “glorioso”. Uma atrocidade em massa contra os civis nas cidades que ocupam?

No final de 2016, quando a derrota dos “rebeldes sírios” em Alepo era já previsível, o presidente turco Erdogan deixou de apoiar os radicais do norte da Síria e passou a ter uma atitude mais amigável com a Síria e seus aliados, Rússia e Irã. O movimento aconteceu depois de um mês de estímulo russo e depois de várias tentativas infrutíferas de Erdogan de obter mais ajuda dos EUA. Nas conversações de paz que tiveram lugar em dezembro passado entre Síria, Rússia, Turquia e Irã, os Estados Unidos e a União Europeia foram excluídos.

Porém, depois que a administração Trump assumiu o poder, a posição turca mudou novamente. Erdogan está apostando em uma intervenção forte dos Estados Unidos na Síria que favoreceria seus planos originais de instalar naquele país um governo islâmico controlado pela Turquia:

Ancara entendeu que Trump deu sua bênção à Arábia Saudita e tem uma atitude mais agressiva contra o Irã. Consequentemente, Erdogan está assumindo uma nova posição: esconder-se atrás da Arábia Saudita, imitar a hostilidade dos EUA contra o Irã e, por consequência, declarar-se mais uma vez contra o presidente sírio Bashar Assad.

A nova posição turca foi confirmada pela visita feita pelo senador John McCain ao YPG curdo e às Forças Especiais dos Estados Unidos em Kobani. McCain veio via Turquia. Uma visita anterior ao YPK pelo enviado especial dos EUA Brett McGurk havia sido condenada por Ancara. Essas palhaçadas de McCain não seriam permitidas se não houvesse um acordo amplo já em curso.

Na Síria, os Estados Unidos são aliados do YPK curdo, o qual, por sua vez, é irmão de sangue do grupo PKK na Turquia, contra o qual o governo turco vem lutando por décadas. Como infantaria ligeira, os membros do YPG são lutadores bons e confiáveis. Eles trabalham junto com as forças especiais dos EUA e são muito apreciados.

A Turquia se ofereceu para mandar tropas junto com as forças sauditas para libertar Raqqa, que está em mãos do Estado Islâmico. As incríveis “habilidades” demonstradas pelos sauditas no Iêmen combinadas com a “proficiência” dos turcos em sua operação “Escudo do Eufrates” na Síria com certeza fará com que sejam muito bem vindos pelos militares (norte)americanos

Mas há assuntos estratégicos de grande porte em jogo e algum acordo entre Estados Unidos, Turquia e os sauditas deve ter sido costurado (os dois próximos parágrafos foram traduzidos por máquina, do árabe):

(A) súbita mudança das posições turcas ocorreu depois de um longa conversa conduzida pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e da visita do presidente da agência de inteligência (norte)americana CIA. As cartas foram mais uma vez embaralhadas, induzindo uma nova reviravolta de Ancara na questão síria.
...
As novas posições EUA/Turquia estabeleceram uma ponte entre o presidente Erdogan e o antigo aliado dos Estados Unidos e foi baseada na escalação das hostilidades contra o Irã e o (re)estabelecimento de um “eixo sunita” a ser liderado pelo presidente turco. Inclui o estabelecimento de uma zona de segurança na Síria como uma antecipação de um cenário onde a Síria seria dividida.

Trata-se em essência de uma volta às políticas tomadas pela administração Obama em 2011/12. Os ensinamentos colhidos desde então terão que ser reaprendidos. Os sinais que vêm do exército (norte)americano sugerem neste instante a introdução de uma tropa regular adicional em apoio às forças por procuração mantidas pelos EUA e eventualmente um enclave protegido pelos Estados Unidos no leste da Síria. O YPK é a única força confiável disponível para os EUA e precisam de forte apoio armado para conquistar Raqqa. Ocorre que “botas no solo” dos Estados Unidos no Oriente Médio nunca foi uma boa solução. É a garantia de que a luta será longa e redundará em eventual fracasso no futuro.

Esta visão estratégica é altamente contraditória. Os Estados Unidos precisam lutar contra as forças sunitas radicais que a Arábia Saudita promove e sustenta; mesmo agora que o Estado Islâmico está sendo enfraquecido, novas forças radicais já estão surgindo no Iraque. Qualquer estratégia contra o radicalismo islâmico feita em conjunto com a Arábia Saudita fracassará.

É simplesmente impossível fazer curdos (YPK/PKK/YPG) e turcos (Erdogan) lutarem do mesmo lado – com ou sem visitas de McCain. Os Estados Unidos correm o risco de perder a única força por procuração confiável na Síria caso faça causa comum com Erdogan na luta para conquistar Raqqa. Qualquer “zona de segurança” anti curda e controlada por Turquia/EUA no norte da Síria se verá imediatamente sob fogo de vários outros lados no terreno. Qualquer base dos EUA na Síria será alvo de várias forças regulares e irregulares. No longo prazo, os novos planos fracassarão e a última reviravolta de Erdogan também.

Mas até que tudo isso venha à tona podemos esperar mais derramamento de sangue e mais luta na Síria. Como Eljah Magnier explica:

As políticas dos Estados Unidos na Síria parecem frenéticas e absurdas, pois sem o auxílio de aliados poderosos no terreno, parece incapaz de retomar território do Estado Islâmico apenas com a ajuda de seus curdos, que lutam por procuração. A atual “lua de mel” dos Estados Unidos com a Arábia Saudita com certeza causará efeitos negativos na guerra da Síria. Vai fazer com que Irã e Rússia se aproximem ainda mais, e com certeza também aumentará as tensões entre Rússia e EUA: um lado (EUA) quer a partição da Síria e outro (Rússia) quer uma Síria unificada e sem Al Qaeda ou Estado Islâmico, e sem que a Turquia ocupe o Norte da Síria, com a Arábia Saudita retornando ao Bilad al-Sham. Nesta altura, é difícil especular que tipo de conflito estes objetivos incompatíveis produzirão no terreno sírio.

blogdoalok

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