domingo, 19 de março de 2017

O sumiço dos leitores nos jornais gaúchos


Por Elstor Hanzen, no site Sul-21:

A circulação dos dez jornais gaúchos auditados pelo Instituto Verificador de Comunicação (IVC) chegou à queda mediana de 20,37% em 2016. Nos números levantados entre dezembro de 2015 e dezembro de 2016, teve diário que reduziu a impressão em mais de 30%. Pior do que os dados ruins foi a postura dos veículos de sonegar as informações ao público, e o maior deles no estado – Zero Hora – publicou que foi o único entre os cinco maiores jornais do país a aumentar em 7% sua circulação total – digital e impresso –, sendo que o IVC verificou para esta soma pouco mais de 2%. Ademais, o diário sequer mencionou ou contextualizou a redução de mais de 15% na sua tiragem no período.



Os jornais aferidos pelo IVC pertencem a cinco grupos de comunicação do Rio Grande do Sul e grande parte tem concentração de circulação na Região Metropolitana de Porto Alegre. Conforme o Instituto, o Jornal do Povo, de Cachoeira do Sul, registrou a menor queda, com 2,39%. O maior percentual foi do Diário de Canoas, do grupo Sinos, que caiu 31,82%. Do mesmo grupo, o Jornal VS apresentou diminuição de 21,72%, enquanto oABC Domingo caiu 21,04% e o Jornal NH 20,82%. Já dos impressos do grupo RBS, o Pioneiro, de Caxias do Sul, foi o que mais caiu, registrando um percentual de -19,92%. O Diário Gaúcho caiu 16,38% e Zero Hora, 15,14%. O Diário de Santa Maria, que pertence a um grupo de empresários locais, registrou queda de 22,37% no período em questão e o Correio do Povo diminuiu 13,64%.

Diante dos dados, alguém poderia concluir de imediato – inclusive, assim o fazem corriqueiramente os diretores dos veículos – que isso é consequência da crise econômica, do jornalismo online e das redes sociais. Infelizmente, não se resume a isso. As causas vão bem além e são mais profundas, embora algumas estejam bem aparentes.

Primeiro, a atitude dos impressos de esconder sua própria realidade aos leitores e aos anunciantes e de forjar dados positivos sem contextualizar as informações não é mais compatível com a transparência exigida para a mídia do século 21. Tal postura editorial perversa de mostrar os fatos quando convêm a determinados interesses e ocultá-los quando desfavoráveis é intolerável e uma das causas que corroem a credibilidade da imprensa, tendo como consequência o afastamento do público.

Outra medida contraditória e duvidosa quanto à eficiência é o enxugamento das redações, sob o argumento único da crise econômica. Os jornais do grupo Sinos, por exemplo, vêm demitindo os profissionais mais experientes e apelando para o sensacionalismo. Uma publicação que construiu sua reputação com base numa linha editorial sóbria e jornalismo propositivo nos últimos anos deu uma guinada para assuntos de violência, insegurança, fatos chocantes, usando excesso de linguagem apelativa na apresentação das notícias, no afã de conseguir alguma audiência momentânea a mais. Mas, à medida que esse expediente vem sendo empregado, a tiragem dos jornais e o prestígio deles vêm decaindo na mesma proporção. Enfim, não imprime mais inteligência, interesse público nem fornece material que represente seu público no sentido mais amplo.

Equilíbrio, senso ético e a verdade

O comprometimento incondicional de grande parte desses veículos na propagação das manifestações de 2016 foi visível, sem considerar as verdadeiras intenções e a eficiência no combate à corrupção de forma mais ampla desse movimento, acabou se mostrando um tiro no pé da imprensa. No calor dos acontecimentos, a cobertura massiva e acrítica se apresentou promissora, atraindo alguns novos leitores e aumentando o faturamento publicitário em meio à crise. Entretanto, com o passar do tempo, quando a causa do movimento foi se revelando um projeto de poder, o enfrentamento da corrupção seletiva e os resultados efêmeros, a imprensa saiu enfraquecida como referência informativa à população.

A atuação da mídia como multiplicador e canalizador da opinião de um grupo tal como se fosse vontade de todos e o caráter cada vez mais padronizado e elementar nas formas pelas quais as notícias são apresentadas ao público também não agregam valor e credibilidade às publicações. Tudo isso cria uma desconfiança ainda maior quando os fatos submetem a euforia e as opiniões como no fenômeno do ano passado.

Evidente que os veículos batem pé nas suas versões e convicções dos fatos até o momento em que for possível, usam elementos de persuasão da própria propaganda para canalizar e manter a opinião pública ao seu lado. Afirmação, repetição e prestígio são algumas das técnicas às quais se lança mão. Por exemplo, uma repetição no jornal de que A é velhaco e B um homem honrado acaba convencendo muitas pessoas se não tiverem acesso a outra fonte que diga o contrário. Mas como atualmente o público tem acesso a fontes alternativas de informações, a estratégia da mídia para respaldar sua visão dos fatos se vê exposta e, em muitos casos, até contraditória com a realidade após algum tempo. Logo, o baque na credibilidade é certeiro, mal essa lógica vier à tona.

Mesmo assim, é normal que o meio de comunicação exerça seu poder por meio da política editorial do noticiário. Momento em que os acontecimentos recebem supressão, boicote ou distorção conforme os interesses políticos, econômicos do veículo e do público a quem se dirige a notícia. Esses arranjos são comuns nas redações, porém, precisam ser feitos cada vez com mais responsabilidade e pluralismo, caso a publicação informativa não queira ser apenas porta-voz de uma parcela cada vez menor da população, como os jornais partidários antes da imprensa empresarial.

Contanto que o jornalismo for focado em excluir certos interesses da cena pública e pregar para convertidos, a que abrir espaço à diversidade social e ao debate das opiniões, então é melhor cada organização social criar sua própria publicação e mostrar a realidade conforme lhe convier. Senão, é preciso melhorar a qualidade editorial e ter como essência o equilíbrio, o senso ético e a verdade na impressão da notícia.

Por isso, não convém esconder a realidade dos números ruins, ocupar espaço redacional com material sem verdadeiro interesse jornalístico, ver o público apenas como clientela e fazer propaganda em prol de determinados movimentos, como se tudo fosse puramente interesse coletivo, caso o jornalismo queira ser de fato referência informativa relevante e resgatar seu prestígio com a sociedade. Sem vigor, pluralismo, transparência e independência editorial, não há enxugamento de redação nem dinheiro de órgãos governamentais que salvem os jornais de qualquer crise.

* Elstor Hanzen é jornalista e especialista em convergência de mídias. Artigo publicado originalmente no Observatório da Imprensa.

altamiroborges

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