sábado, 1 de abril de 2017

EUA CHORAM ENQUANTO A RÚSSIA TESTA MÍSSIL DE CRUZEIRO 9M729, MAS QUEM FOI O PRIMEIRO A VIOLAR O TRATADO INF?


Uma das inúmeras histórias na habitual enxurrada de histeria de guerra anti-Rússia, diz respeito à divulgação de um novo sistema de armas cuja existência, se confirmada, representaria uma transgressão contra o Tratado das Forças Nucleares Intermediárias (INF).
Míssil 9М728 – Р-500.
O Tratado INF está em vigor desde o final da década de 1980 e proíbe missiles de cruzeiro e mísseis balísticos terrestres com faixas entre 500km e 5.500km. Desde então, tanto os EUA quanto a Rússia não só eliminaram os estoques de armas existentes nesta categoria, como também se abstiveram de testar ou implantar novos.

As brigadas Iskander recentemente equipadas, cujos veículos de lançamento podem usar tanto mísseis de cruzeiro como mísseis balísticos, é compatível com o Tratado INF, na medida em que o alcance dos mísseis que utiliza é de 500 km ou menos.
Sistema Europeu de Defesa de Mísseis. Uma alta tecnologia de escudo destinada a proteger a Europa da ameaça de mísseis balísticos está um passo mais perto de ser estabelecida. Esta é a forma como esse sistema irá funcionar:
1) Míssil hostil é lançado
2) Radares de alerta antecipado e satélites de vigilancia detectam e rastreiam o míssil.
3) Radar Banda-X rastreia o míssil e o atrai.
4) Um ou mais interceptores marítimos ou terrestres são lançados.
5) Interceptores bloqueiam a ogiva, a isolam a partir de chamarizes, e a eliminam.
De maneira dramática habitual, o Vice-Presidente do Estado-Maior Conjunto, General Paul Selva, numa audiência do Comitê de Serviços Armados da Câmara, realizada em Washington DC em 8 de março, acusou a Rússia de usar o novo míssil em violação do espírito e intenção do Tratado INF. Ele ainda explicou que:
    “Acreditamos que os russos deliberadamente o desdobraram para representar uma ameaça à OTAN e às instalações dentro da área de responsabilidade da OTAN … Temos de dar conta … do que isso significa”.
    “Eu não tenho informações suficientes sobre sua intenção de concluir a não ser que eles não tencionem voltar ao cumprimento. Falta alguma pressão da comunidade internacional e dos Estados Unidos como um co-signatário do mesmo acordo … “
O míssil de cruzeiro 9M729 parece ser uma modificação do já implantado míssil de cruzeiro 9M728 de 500 km atualmente utilizado pelas brigadas Iskander. O 9M729 difere de seu predecessor, que possui uma fuselagem mais longa. Seu tamanho maior permite que sua carga de combustível, e portanto alcance, seja muito expandida. O tamanho do 9M729 é bastante próximo ao do míssil Kalibr lançado de navios – Ship Launched Cruise Missile (SLCM), cuja faixa é estimada em 3.000 km ou mais. O desempenho do 9M729 é provável ser similar a seu equivalente naval.

Alguns relatos da mídia também afirmam que pelo menos um batalhão de quatro veículos de lançamento, cada um com seis mísseis prontos para serem lançados, já foi implantado no Distrito Militar Central. Enquanto até agora as histórias não foram confirmadas de qualquer forma, e não há imagens do suposto novo sistema disponível em qualquer lugar, a implantação de tais armas é facilmente dentro das capacidades técnicas da Rússia. Qual seria a finalidade de implementar tal sistema, particularmente considerando que o Kalibr SLCM, que agora está implantado em navios da Frota do Mar Negro, a Flotilha do Cáspio e com a Frota do Báltico e a Frota do Norte, previsto para receber navios equipados com Kalibr nos próximos anos, tem abrangido a entrega de míssil de médio a longo alcance muito eficazmente ao lado dos mísseis de cruzeiro convencionais Kh-101 das unidades de Aviação de Longo Alcance?

Se os relatórios de um sistema terrestre de mísseis de cruzeiro forem confirmados, existem várias explicações possíveis que não são necessariamente mutuamente exclusivas. A primeira explicação é que o míssil é compatível com o INF, porque seu alcance é superior a 5.500 km. O Tratado INF foi, afinal, negociado na década de 1980, e naquela época um míssil de cruzeiro capaz de tal desempenho teria tido o tamanho de pelo menos um avião de caça. Trinta anos mais tarde, no entanto, considerando os avanços na tecnologia de propulsão a jato, esse desempenho pode ser construído em uma pequena arma. Se for esse o caso, é igualmente provável que os outros sistemas de mísseis de cruzeiro russos contemporâneos, nomeadamente o Kalibr e o Kh-101, sejam capazes de um alcance semelhante.
A segunda explicação é que a implantação é uma resposta às próprias violações dos EUA do Tratado INF. Eles incluem a colocação de sistemas de defesa balísticos Aegis Ashore na Polônia e na Romênia que usam as células de lançamento vertical Mk 41 que, quando instaladas a bordo de cruzadores e destróieres da Marinha dos EUA, podem transportar mísseis de cruzeiro Tomahawk, cuja faixa cai dentro dos parâmetros INF. Os testes ABM dos EUA usaram veículos-alvo de mísseis balísticos que são de fato mísseis balísticos de alcance intermediário. Por fim, até mesmo os aviões Predator e Reaper existentes, para não falar dos drones supersônicos e furtivos UCAV, também violam as restrições INF.

Em terceiro lugar, e coerente com os avanços tecnológicos que tornaram obsoleto o Tratado INF e muitos outros tratados, parece provável que Moscow deseja a retomada de discussões abrangentes sobre o controle de armas, bem como medidas de segurança coletiva mais amplas no continente euro-asiático. Uma vez que os Estados Unidos não podem se opor à implantação do 9M729 sem invocar o Tratado INF, essa implantação provavelmente terá o efeito desejado de reiniciar uma conversa genuína sobre segurança européia.

A implantação do 9M729 é provavelmente uma resposta por parte de Moscow, ao desdobramento dos Estados Unidos da primeira estação Aegis Ashore de Defesa de Mísseis Antibalísticos/Mísseis Balísticos (ABM / BMD) em Deveselu, Romênia, como um componente da Abordagem Adaptada de Fases da Europa – European Phased Adapted Approach (EPAA). O governo dos Estados Unidos afirmou repetidamente que a estação Aegis Ashore na Romênia e a estação que está sendo construída na Polônia são de natureza defensiva. As estações Aegis Ashore são ditas ser armadas com o míssil SMD-3 mais atrasado de BMD que não carrega uma ogiva, confiando no impacto cinético para destruir mísseis balísticos. O site da 6ª frota dos EUA, responsável pela cobertura da Europa e da África, faz a seguinte afirmação:
    “A defesa de mísseis e os ativos da EPAA são estritamente defensivos por natureza. Os interceptores dos EUA não estão armados com uma ogiva explosiva de qualquer tipo. Em vez disso, o interceptador colide com a ameaça de ogiva e confia na energia derivada da colisão de dois objetos movendo-se a velocidades incríveis para neutralizar a ameaça. Os interceptores não têm capacidade como uma arma ofensiva.”
Embora esta afirmação seja verdadeira, ela não ilumina o leitor sobre o sistema de lançamento utilizado pelo SM-3. O sistema de lançamento vertical Mk-41 (VLS) vem em uma série de variantes, qualquer um dos quais pode ser montado no sistema Aegis Ashore. O Mk-41 é produzido em 13 configurações diferentes, e três tamanhos específicos da missão: Ataque, Tático e Autodefesa. O módulo Strike carrega o míssil de cruzeiro de ataque terrestre Tomahawk (LACM). Outros desenvolvimentos do módulo Tático podem levar os mísseis Tomahawk LACM, ASROC, Evolved Sea Sparrow, SM-1, SM-2, SM-3 ou SM-6. A estação Aegis Ashore, equipada com o VLS Mk-41, na Romênia, é muito mais uma arma ofensiva, pois utiliza um sistema de mísseis de uso duplo (ofensivo/defensivo).

O Presidente da Federação Russa deixou bem claro que Moscow entende a natureza de dupla utilização das estações Aegis Ashore na Europa. Putin expressou isto sucintamente no Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo em julho de 2016 ao se dirigir a jornalistas ocidentais.

Não só o desdobramento de uma faixa intermediária 9M729 ajudará a contrariar o estabelecimento de estações Aegis Ashore na Romênia e Polônia, mas também politicamente contra a hipocrisia dos EUA e falsas afirmações de que a EPAA é apenas de natureza defensiva, trazendo todo o conceito e a validade do Tratado INF. O Tratado INF chegou ao ponto de obsolescência? Quando uma série de tecnologias modernas são consideradas, é óbvio que novas negociações são necessárias, se o espírito do Tratado INF tem alguma esperança de uma extensão mais adiante no século XXI.
O ato russo de levar essencialmente um LACM usado em seus navios navais e colocá-lo em um lançador terrestre para testar sua viabilidade, não deve ser mais controverso do que os militares dos EUA permanentemente baseando sistemas de lançamento de mísseis em terra na Europa, que são essencialmente sistemas usados para lançar LACMs de seus próprios navios de guerra navais. A decisão da Rússia deve ser vista como uma medida reacionária, seguindo o exemplo dos Estados Unidos.


De acordo com o Tratado INF, a implantação de sistemas de mísseis de cruzeiro idênticos no mar é permitida, enquanto a sua implantação em terra não é permitida. Isso claramente favorece os EUA, cujas únicas fronteiras terrestres são compartilhadas com nações amigas, uma das quais é membra da OTAN.

Traduzido para publicação em dinamicaglobal.wordpress.com


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