domingo, 9 de abril de 2017

Mike Whitney: O conflito iminente entre EUA e Rússia


Mike Whitney, The Unz Review

tradução de btpsilveira


O ataque de mísseis ordenado pelo presidente Donald Trump contra o Aeroporto Shayrat no oeste da Síria não passou de uma exibição dos músculos imperiais que teve efeito exatamente contrário ao que se pretendia. Mesmo que o ataque com certeza tenha levantado o moral dos jihadistas que assolam o país há seis anos, não teve qualquer valor estratégico ou militar. O dano causado ao aeroporto foi muito superficial e não há razão para acreditar que tenha qualquer impacto no progresso do exército sírio no campo de luta.

No entanto, o ataque matou quatro soldados sírios em atividade, o que significa que as tropas dos Estados Unidos na Síria não podem mais ser consideradas como parte de uma coalizão internacional para combater o terrorismo. Agora, os Estados Unidos são uma força hostil que representa uma ameaça existencial para o governo soberano do país.
Era esta a mudança que Trump queria?

A partir da sexta feira, a Rússia interrompeu qualquer cooperação militar com os Estados Unidos. Conforme o jornal New York Times:

 “Além de suspender o pacto para a coordenação de operações aéreas na Síria, um acordo que pretendia prevenir encontros acidentais entre forças aéreas das duas potências militares, a Rússia também afirmou que pretende reforçar os sistemas de defesa aérea da Síria e supostamente planejaria mandar uma fragata (notícia já confirmada, veja AQUI – NT) para o Mar Mediterrâneo para visitar as bases logísticas do Porto de Tartus, na Síria...”

 “O porta voz do presidente russo, Dmitri S. Peskov, afirmou que o ataque de mísseis significa um ‘golpe duro’ nos laços entre Rússia e EUA, e que o presidente Putin considerou o ataque uma violação da Lei Internacional, efetuado sob falsos pretextos. O exército sírio não tem armas químicas à sua disposição’ disse Peskov”. (New York Times)
O ataque de mísseis colocou um fim abrupto nas conversações de “normalização” de relações com a Rússia. Seja qual for a razão, Trump fez questão de marcar a si mesmo e aos EUA como inimigos de Moscou e Damasco com a sua forma de conduzir a coisa toda. Esta, claro, é a sua prerrogativa, mas ele está sendo imbecil se pensa que não haverá consequências.

O Ministro da Defesa da Rússia, Major General Igor Konashenkov declarou:

“São falsas todas as acusações de que Damasco teria violado a Convenção sobre Armas Químicas de 2013 feitas pelos Estados Unidos como razões para o ataque. O Ministério da Defesa russo tem explicado repetidamente que as tropas sírias não fazem uso de armas químicas... Fazemos questão de enfatizar que entre 2013 e 2016 o governo sírio tomou todas as medidas para eliminar armas químicas, seus sistemas de uso, as instalações de produção. Todos os estoques de armas químicas foram eliminados. Os componentes necessários para a sua produção foram transportados da República Árabe da Síria para empresas nos Estados Unidos, Finlândia, Inglaterra e Alemanha, onde foram destruídos”.

Este assunto, porque é contestado duramente, precisa ser explicado melhor. A atitude mais racional seria o envio de uma equipe da ONU especializada em armamento químico e especialistas forenses para o lugar onde aconteceram os ataques químicos para tentar entender o que realmente aconteceu. Trump resolveu que não seria impedido nem se importaria com tais trivialidades como uma investigação formal. Estava muito mais interessado em projetar uma imagem de durão e de líder decidido ao qual cabe atirar primeiro para perguntar depois. Sua ação foi aplaudida por vários líderes pelo mundo afora, entre as quais Angela Merkel, François Hollande, Recep Erdogan, da Arábia Saudita, e Israel nenhum dos quais acredita que os Estados Unidos deveria ter obtido a aprovação do Conselho de Segurança da ONU antes de bombardear um país soberano.

Não sei quem é o responsável pelo ataque químico em Khan Shaikhoun, mas existe uma entrevista interessante feita no Show de Scott Horton, na quinta feira, que sugere que as coisas podem muito bem não ser o que parecem. Em uma entrevista de 14 minutos, o antigo funcionário e diretor do Conselho para os Interesses Nacionais, Philip Giraldi, explica o que está acontecendo nos bastidores do Oriente Médio, onde “pessoal do exército e da inteligência, intimamente próximos”, dizem que a narrativa de que Assad ou a Rússia tem culpa no ataque é “uma farsa”.

Transcrevi um segmento de cinco minutos da entrevista – não porque contenha evidência conclusivas de uma maneira ou de outra – mas porque os leitores mais curiosos podem achar a coisa intrigante (quaisquer erros de transcrição ficam por minha conta).

Philip Giraldi – Tenho ouvido de fontes no terreno, no Oriente Médio, de pessoas que são intimamente familiares com a inteligência à disposição, e que dizem que a narrativa principal que estão ouvindo é a de que a acusação de uso de armas químicas pelo governo sírio ou pelos russos não passa de uma farsa. A inteligência praticamente confirma a versão que os russos estão fornecendo desde a última noite de que o bombardeio de um armazém onde a Al Qaeda estocava armas químicas de sua propriedade causou a explosão que resultou nas mortes por armas químicas. Parece que os serviços de inteligência quanto ao assunto são claros, e pessoas tanto da inteligência quanto entre os militares que têm conhecimento do assunto estão espantados, porque Trump deturpou completamente o que realmente teria acontecido – mas talvez não, na realidade – e eles estão temerosos de que esse movimento da administração Trump possa facilmente detonar um conflito armado.

Scott Horton – Você pode me dizer tudo o que for possível sobre o assunto e que você soube através de suas fontes?

Philip Giraldi – Está bem. Na essência são fontes que estão bem inseridas nos assuntos relacionados ao Oriente Médio. São pessoas que estão no Oriente Médio junto com os militares e com as agências de inteligência e que sabem o que as agências informaram e, como eu disse, eles estão fornecendo as informações para seus contatos aqui nos Estados Unidos. Em princípio, estão boquiabertos com a forma com que a administração e a mídia estão usando essas informações e chegam a considerar se não deveriam, em alguns casos, vir a público tentar parar tudo isso. Estão preocupados com o rumo dos acontecimentos, com tudo o que está acontecendo.

Scott Horton – Quer dizer que há funcionários da CIA que pensam em vir a público com essas informações?

Philip Giraldi – Há, porque estão preocupados com onde isso vai parar. São ativos do exército e da inteligência que foram destacados para o Oriente Médio, estão em atividade e sabem quais informações foram fornecidas para o governo dos Estados Unidos sobre o que aconteceu na Síria. Ora, essas informações indicam que o governo sírio não usou armas químicas... que realmente houve um ataque, mas este foi feito com armas convencionais – uma bomba – e que a bomba teria disparado as armas químicas que já estavam no local e que foram colocadas ali pelos grupos terroristas afiliadas à Al Qaeda.

Scott Horton – Você disse que esta coisa toda está acontecendo muito rápido. Quão rápido?

Philip Giraldi – E está mesmo. Aparentemente, a preocupação entre as pessoas que estão em serviço no Oriente Médio é que a Casa Branca está se precipitando ao tomar atitudes contra o governo sírio. O que isso significa na realidade ninguém sabe. Mas Trump lançou um sinal bem claro ontem, bem como a embaixadora dos EUA para a ONU. Sobre a atrocidade destes atos. Trump falou sobre a ultrapassagem de várias “linhas vermelhas” e o pessoal em princípio está temeroso de que a coisa toda vai sair do controle. Agora, pense sobre o seguinte: Assad não tinha motivo nenhum para usar armas químicas. Aliás, muito pelo contrário. Trump havia acabado de afirmar que não havia motivo para apeá-lo do poder, o que para Assad foi uma grande vitória. Deixar isso pra lá e usar armas químicas 48 horas depois não é um cenário racional, mesmo que se tenha ouvido coisas como essas, que beiram o ridículo.  (the Scott Horton Show – áudio em inglês – NT)

As observações de Giraldi são convincentes, mas não conclusivas. Está mais que provado que é necessária uma investigação (o show foi gravado antes do ataque de mísseis, o que prova que Giraldi estava correto ao afirmar “quão rápido” as coisas estão acontecendo).

Os analistas da mídia parecem surpresos de que a Rússia não tenha respondido militarmente ao ataque de quinta feira. Alguns chegam a ver isto como um sinal de fraqueza. Mas as atitudes de Moscou contra a impulsividade de Washington têm sido bem consistentes pela última década ou mais. Com o menor estardalhaço possível, Moscou vai adiante com seus negócios e trabalha discretamente para proteger seus interesses. Ao contrário de Trump, Putin não é um homem que goste de atrair muita atenção. Opera referencialmente fora do radar. Mesmo assim, a Rússia mantém uma política coerente na Síria (lutando contra o terrorismo e preservando a soberania do governo) e não vais e desviar dessa política por nada. Os (norte)americanos parecem incapazes de entender isso. A Rússia não cederá, e é por isso que cortou a cooperação com Washington, reforçou seus mísseis defensivos na Síria e moveu uma fragata para o Mediterrâneo. Moscou não quer um conflito mais amplo, mas estará preparada se ele acontecer.

Os russos estão preocupados com a súbita escalação de Trump, mas não surpresos. Eles perceberam um padrão nas guerras promovidas pelos EUA e são capazes de comentar tranquilamente sobre o assunto, apesar de suas terríveis implicações. Olhe as declarações do Ministro da Defesa da Rússia:

 “As administrações dos EUA mudam, mas seus métodos para desencadear guerras continuam os mesmos desde os bombardeios na Iugoslávia, Iraque e Líbia. Alegações, falsificações, declarações altissonantes com exibição de fotos e tubos de ensaio com supostos resultados de dadas organizações internacionais se tornam a razão para iniciar agressões, em vez de uma investigação efetiva”.  
Mentira, bombardeio, matança – repete tudo. Konashenkov não está surpreso de forma alguma, é ou não é? É um padrão, um padrão aterrador e mortal. As únicas coisas que mudam são os nomes das vítimas.

Mais uma coisa que os leitores podem achar interessante: os russos têm uma compreensão impressionante da estratégia global de Washington. Na realidade, a sua análise é superior a qualquer outra que você possa encontrar nos jornais ocidentais e na mídia corporativa. Vou exibir uma pequena amostra, tirada de um discurso recente do Ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov:

“O conceito de caos controlado parece ser de longa data um método para reforçar a influência dos Estados Unidos. Sua premissa básica é que o caos manejado pode ser desencadeado pelos EUA em regiões que são cruciais para a economia global e desenvolvimento financeiro. O Oriente Médio tem estado desde sempre no foco de políticos e desenvolvedores da política externa em Washington. A prática tem demonstrado que esse conceito é perigoso e destrutivo, como se vê em países nos quais o experimento foi lançado: Líbia, Iraque, Síria, Iêmen e Afeganistão... No Iraque, Síria e Líbia, o caos foi criado intencionalmente.

… Políticos responsáveis começam a ver que a teoria do caos controlado está destruindo a vida em muitas regiões. Alguns poucos podem se beneficiar no curto prazo por causa das flutuações dos preços da matéria prima em mercados, provocadas pelas revoluções levadas a efeito por forças externas, mas na realidade esses acontecimentos acabam se voltando contra seus executores e desenvolvedores, na forma de fluxo maciço de refugiados, usados pelos terroristas para se infiltrar nestes países. Podemos ver isso na Europa. Os ataques terroristas estão acontecendo até mesmo nos Estados Unidos. O Oceano Atlântico não o protege mais da ameaça terrorista. É o efeito bumerangue”. (Lavrov)

Brilhante. “Caos controlado”. É toda a política externa dos EUA dentro de uma casca de noz. É por isso que não se faz nenhum esforço para criar governos fortes, estáveis e seculares que possam dar segurança para seu povo nos países que os EUA destruíram nos últimos 16 anos, porque a longa cadeia de estados falidos que agora se espalham desde o Norte da África através do Oriente Médio até a Ásia Central (o “arco de instabilidade”), fornece uma justificação permanente para as intervenções militares dos Estados Unidos, bem como acesso estratégico a recursos vitais. Assim, por que gastar dinheiro e tempo na construção de uma nação quando nações em construção vão contra os objetivos estratégicos de Washington? Em vez disso, dizime qualquer nação onde quer que você vá, deixe o povo arrasado vivendo suas vidas agora miseráveis enquanto tenta resistir à violência inaudita e à perseguição de dirigentes tribais e senhores de guerra locais.

São afirmativas justas quanto à política externa dos EUA?

São. E a liderança russa entende as implicações dessa política a longo prazo. Eles sabem que as ambições de Washington podem resultar em uma guerra entre dois adversários que são potências nucleares. Entendem perfeitamente.

Ainda assim, não recuarão. Não permitirão que a Síria se transforme em um novo Iraque. Não deixarão que isso aconteça.

Dessa forma, tudo se encaminha para uma resolução. A força imparável está se aproximando rapidamente no objeto inamovível. Estamos a um passo de uma colisão.


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