terça-feira, 25 de abril de 2017

MK Bhadrakumar: Eleição presidencial no Irã toma rumo cauteloso


MK Bhadrakumar, Indian Punchline

Traduzido pelo coletivo da vila vudu

O ‘não sabido sabido’ na fatídica decisão tomada na 5ª-feira pelo Conselho dos Guardiões do Irã quanto à lista de candidatos aprovados para a próxima eleição presidencial que acontecerá dia 19 de maio era o que seria decidido quanto à candidatura do ex-presidente Mahmoud Ahmedinejad. Isso, por três razões principais. 
Primeiraporque é personalidade vistosa, que tem lugar cativo próprio no espectro político iraniano, suficiente para ser qualificado como ‘de esquerda’. A política do Irã muito precisa da plataforma de Ahmadinejad, dada a natureza dos problemas de desenvolvimento do país.
Uma disputa entre a Direita Conservadora e a Direita Moderada depõe contra a autenticidade da arena eleitoral. O paradoxo é que, embora haja no Irã uma facção conhecida como ‘os reformistas’, ela serve aos mesmos interesses de classe do establishment conservador religioso. A revolução de 1978 tinha amarrações que a ligavam à esquerda, dada sua gênese de movimento popular democrático; mas depois se alinhou ao lado do establishment do primeiro estado islâmico do mundo. E depois de luta amarga dentro da revolução, os progressistas foram eliminados. Tudo isso permanece como capítulo extremamente controverso da história moderna do Irã e volta e meia reaparece à tona, sempre reabrindo velhas feridas.

Segundaporque Ahmedinejad foi um raro presidente ‘não clérigo’. Intelectual de excelentes formação e educação superior, inteligente, articulado e autoconfiante considerado progressista, mostrou que um político pode chegar a ter forte apelo de massa no Irã, mesmo sem a cobertura do establishment religioso. Homem profundamente religioso no plano privado pessoal e de hábitos de vida espartanos, Ahmadinejad abriu uma via potencial dentro da evolução da democracia iraniana real que permanecia inexplorada. De fato, o avanço do Irã como estado moderno só tem a ganhar, se o establishment religioso tiver de prestar contas também aos cidadãos, não exclusivamente a Deus. Será que o establishment religioso sentiu-se ameaçado por Ahmadinejad? Parece que sim.

Terceirana política mundial hoje, faz falta um líder bolivariano; e sem Ahmedinejad, o mundo ficou mais pobre. Falta alguém que se levante e fale quando uma bomba-mãe-de-todas-as-bombas é disparada contra nação indefesa e já à morte, depois de anos de ocupação, saques e selvageria; ou quando mais uma revolução colorida está sendo criminosamente promovida na distante Venezuela. A multipolaridade na política mundial não pode ser mera folha de parreira que as grandes potências empreguem para proteger o traseiro.

Ahmedinejad foi internacionalista genuíno, que aceitou combates acima da própria categoria de peso e quase conseguiu quase tudo por que combateu. O mundo precisa dele, em tempos de Donald Trump. A alternativa é contentar-se com Kim Jong Un, o que parece bizarro e é bizarro.

Contudo, em toda sua alta sabedoria, o Conselho de Guardiões do Irã não aceitou o nome de Ahmedinejad como candidato às eleições do mês que vem. A lista aprovada inclui seis candidatos, sem qualquer explicação oficial. E tampouco há corte superior à qual recorrer.

Como explicar? Claro, não faltarão teorias de conspiração. Para mim, o Conselho de Guardiões tomou decisão de forte conteúdo político. Há algum tempo, leram-se notícias de que o Líder Supremo Aiatolá Ali Khamenei teria pedido a Ahmadinejad que não se apresentasse como pré-candidato às eleições desse ano, para evitar “polarizar” o país. Mas Ahmadinejad parece ter-se decidido pela estratégia do desafio. Se foi isso, foi decisão temerária. (...) Mas essa temeridade é parte do encanto tão sedutor de Ahmedinejad – prefere lutar e perder a encolher-se nas sombras.

A saída de Ahmedinejad faz aumentarem as chances de reeleição do presidente Hassan Rouhani, cujo desempenho no front econômico está sendo pífio, com alto desemprego (12,5%) apesar do notável crescimento de 6,6%. O principal adversário de Rouhani será provavelmente o clérigo conservador com serviços prestados ao Judiciário (e suspeito de ter prestado serviços também nas execuções extrajudiciais no país) que preside a prestigiosa e poderosa (e inacreditavelmente rica) fundação religiosa conhecida como Astan Quds Razavi, à qual compete a responsabilidade de supervisionar o mais sagrado dos santuários xiitas no país, na cidade de Mashhad — Ebrahim Raisi.

É assunto “interno” do Irã, em campo aplainado para duas figuras conformistas submetidas ao establishment religioso – uma da extrema direita, a outra reformista-moderada – fazerem seu teste de popularidade. Claro que não é o fim da carreira política para nenhum dos envolvidos.


Ahmedinejad teria dado dimensão existencial à eleição, e feito da campanha ocasião para relevante debate de ideias sobre caminhos tomados e caminhos fechados. Dito de outro modo, o establishment iraniano entendeu que é tempo de políticas mais cautelosas, que brilhantes.


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