quinta-feira, 20 de abril de 2017

NSA de Trump, só blefe: China e Rússia seguem mais unidas do que nunca! Por MK Bhadrakumar


MK Bhadrakumar, Indian Punchline

traduzido pelo coletivo da vila vudu

O Ministério de Relações Exteriores da China anunciou hoje cedo que o Secretário Geral de Administração do Partido Comunista da China Li Zhanshu visitará a Rússia nos dias 25-27 de abril, atendendo a convite de seu contraparte, chefe da Administração da Presidência no Kremlin Anton Vaino. 
O porta-voz do Ministério de Relações Exteriores chinês, Lu Kang disse em Pequim que os dois funcionários discutirão relações China-Rússia "como foi combinado entre os líderes dos dois países" e que o lado chinês confia que a visita aprofundará ainda mais as relações sino-russos. (TASS)
Li será a segunda alta autoridade chinesa a visitar Moscou nesse mês de abril. O presidente Vladimir Putin recebeu o 1º vice-premier da China Zhang Gaoli (que é também membro do Comitê Central do Politburo do Partido Comunista Chinês) no Kremlin dia 13 de abril, um dia depois, por falar em datas, da visita do secretário de Estado dos EUA Rex Tillerson a Moscou.

Zhang é um dos czares da economia no sistema chinês e a conversa com os russos focou-se nos investimentos chineses na Rússia e na cooperação no campo da energia. Mas parte de sua tarefa foi preparar a visita "de trabalho" que Putin fará a Pequim, no contexto daReunião de Cúpula do Projeto Um Cinturão Uma Estrada, dias 14-15 de maio, que será aberta pelo presidente Xi Jinping.

As futuras conversas de Li no Kremlin serão crucialmente importantes. O único país do mundo com o qual o órgão máximo do Comitê Central do Partido Comunista da China (sob comando direto do secretário-geral Xi) mantém esse tipo de relacionamento institucional, com consultas anuais, é a Rússia – que não é país comunista.

Li é um dos braços direitos de Xi; e seu contraparte, Vaino, reporta-se diretamente a Putin. O simbolismo é imediatamente evidente. Num nível operacional, esse arranjo único no mundo não deixa qualquer dúvida de que a dinâmica e a verve do relacionamento China-Rússia recebem integral e ininterrupta atenção pessoal dos presidentes Xi e Putin. Em duas palavras: significa e comprova que os dois países atribuem prioridade máxima ao relacionamento entre eles.

A oportunidade da visita de Li é particularmente significativa. O governo Donald Trump anda se pavoneando no terreiro, abertamente, contando que uma química extraordinária teria brotado entre Donald e Xi, quando se encontraram na Florida dias 7-8 de abril, e que a China estaria ajudando ativamente os EUA e administrar a questão da República Popular Democrática da Coreia ("Coreia do Norte"). Além disso, o próprio Trump e seu Conselheiro de Segurança Nacional HR McMaster andaram dizendo abertamente que a China ter-se abstido de votar no Conselho de Segurança sobre a Síria na 4ª-feira passada já seria efeito da inefável química pessoal que brotara entre os dois presidentes.

Por inacreditável que seja, McMaster praticamente se jactou, em entrevista à rede ABC no domingo, de que Trump teria conseguido 'afastar' China e Rússia, separando-as no que tenha a ver com a Síria. McMaster disse que a Rússia estaria terrivelmente isolada no Conselho de Segurança da ONU. (É perfeita sandice. Parece ter sido 'inspirado' no Comunicado Conjunto dos BRICS, de 12 de abril, adotado em Visakhapatnam sobre a Síria, e que, de fato, apoia a posição dos russos.)

McMaster é calouro em diplomacia internacional e a inexperiência ficou visível na entrevista à rede ABC. Mas fato é que é a Agência de Segurança Nacional de Trump e mesmo que não passe de tenente-general grosseirão e engatinhe na política mundial, o que ele diz tem peso e por ele fala o poder. Eis o que McMaster disse:

“O que sabemos é que na confusão de ter de responder ao assassinato em massa cometido pelo regime sírio, o presidente (Trump) e a primeira dama tiveram encontro, uma conferência, extraordinariamente bem-sucedida, com o presidente Xi e a equipe dele. E não apenas estabeleceram relação muito calorosa, mas também trabalharam juntos igualmente em conexão com a resposta ao assassinato em massa cometido pelo regime de Assad, em conexão com a votação na ONU. Achei que o presidente Xi foi muito corajoso ao se distanciar dos russos, deixando russos e bolivianos  [referência ao discurso do embaixador da Bolívia, contra os EUA, no Conselho de Segurança] completamente isolados... Acho que o mundo viu isso, e eles [Xi, os chineses] viram, ora... Em que clube você quer estar? No clube russo-boliviano? Ou no clube com os EUA, trabalhando juntos pelos nossos interesses comuns e os interesses da paz, da segurança (?).”

McMaster provavelmente pensou, na sua santa ingenuidade, que com essas palavras duríssimas, acertaria o queixo dos russos. Por mais que o plano de Trump seja meter uma cunha entre China e Rússia explorando o interesse de Xi em 'um novo tipo de relações das grandes potências' com os EUA, é perda de tempo supor que Pequim admitirá qualquer tipo de erosão contra a entente sino-russa. 

A questão é que, para ambas, China e Rússia, a prioridade número um em política mundial é deslocar e empurrar para trás a hegemonia dos EUA; e, em futuro próximo e médio, no mínimo, não há o que separe os dois países. Dito em poucas palavras, o relacionamento criou "profundidade estratégica" para os dois países que podem agora salvaguardar seus interesses vitais, ao mesmo tempo em que também os dois países podem permitir-se fazer avançar alguns temas específicos, em determinados pontos, com os EUA.


Jamais saberemos se a visita de Li foi simples rotina, ou se foi decidida considerando o rescaldo do golpe do governo Trump, tentando criar tropeços para os laços sino-russos. Seja como for, o que se vê é Pequim não medindo esforços para reafirmar a mais alta consideração que lhe merece a preservação da confiança mútua com a Rússia. A viagem de Li a Moscou e as consultas no Kremlin foram o que faltava para expor Trump e McMaster com cara de caipirões na metrópole, sem saber de que lado vieram e para que lado devem andar.


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