sábado, 1 de abril de 2017

Quando Corrupção é Estratégia de Estado no Exterior-Próximo da Rússia


EUA Lideram e Russia Corre em Segundo


28/3/2017, John Helmer, Dances with Bears


"Corrupção não é em si problema político. Pode ser problema policial, mas não é problema político. Problema político, só quando há pouco dinheiro para conter e calar oposições políticas. Porque onde a corrupção falha na vida política e as oposições sobrevivem como tais, inevitavelmente vêm os canhões militares para cumprir a mesma função na qual as propinas falharam."

Traduzido pelo coletivo da vila vudu


Pagar propina aos inimigos para que mudem de lado e virem amigos é tão velho como haver macacos e homens. Como as estratégias de gangues e de guerra evoluíram, corromper com dinheiro sempre foi opção preferida à força das armas, porque corrupção é muito mais barata e tem resultados mais previsíveis, pelo menos no curto prazo.


Um novo livro sobre corrupção nos estados ex-soviéticos da Ásia Central ajuda a não esquecer as quantias colossais de dinheiro que foram trocadas para sustentar os regimes governantes, ou para 'mudá-los'. De Alexander Cooley e John Heathershaw, Dictators Without Borders, Power and Money  in Central Asia [lit. Ditadores sem fronteiras: Poder e dinheiro na Ásia Central], que acaba de ser publicado pela editora Yale University Press, é também uma enciclopédia de palácios no Reino Unido, França e EUA cujos proprietários são governantes de estados da Ásia Central e respectivas gangues; dos nomes e destinos dos principais líderes de oposição no exílio, saídos desses países; um dossiê de 'entregas especiais' [de prisioneiros para serem interrogados em outros países], prisões e assassinatos cujos autores são os serviços de segurança uzbeque e tadjique em outros países; e estudos de caso das fraudes que chegam a bilhões de dólares praticadas pelos banqueiros do Cazaquistão e do Quirguistão, Mukhtar Ablyazov e Maxim Bakiyev; pela herdeira uzbeque Gulnara Karimova; e pela Talco (Tadjikistan Aluminium Company), controlada pelo presidente Emomali Rahmon do Tadjiquistão.

O novo livro é também valioso contrapeso a favor da pesquisa independente e antídoto contra a propaganda distribuída como 'pensamento' por think-tanks mantidos pelos governos de EUA e Grã-Bretanha, como Carnegie Endowment, Brookings Institution, Freedom House e Chatham House.

Embora seja indispensável uma dolorosa exposição de detalhes, para que o leitor compreenda as fronteiras interpenetráveis entre força, fraude e subversão na Ásia Central, as fontes bem informadas só muito raramente se dispõem a falar – pelo menos para dizer a verdade –, mas há violência e corrupção bem documentadas em quantidade suficiente para encher 300 páginas.

Cooley (imagem, esquerda) e Heathershaw (direita) optaram por começar pela política doméstica dos estados da Ásia Central e como seus abusos de poder respingaram para o resto do mundo. Heathershaw viveu e trabalhou no Quirguistão e no Tadjiquistão; há pois informação de fonte direta nesses estudos, que são mais escassas na análise do Cazaquistão, Uzbequistão e Turcomenistão.


Cooley e Heathershaw não desestimulam que se façam as contas, mas dá menos atenção direta ao total do que EUA e Rússia gastaram naqueles países. Concentram-se mais em demonstrar que o sucesso político de quem tinha menos dinheiro foi menor que o de quem tinha mais dinheiro (EUA gastaram muito mais que Moscou, com o correspondente maior sucesso político). E isso logo se converteu em más notícias. Porque aonde a corrupção falha na vida política, sempre vêm as medidas militares. 

Por isso há paz atualmente, falando em termos relativos, no Cazaquistão, Tadjiquistão, Quirguistão, Uzbequistão e Turcomenistão. O fracasso da corrupção explica por que houve a guerra na Geórgia em 2008; e por que há a guerra na Ucrânia desde 2014. (Esses dois conflitos não passam de notas de rodapé no novo livro.)

O fracasso da corrupção como estratégia de estado praticada pelos governos Clinton, Bush e Obama também explica por que a perseguição seletiva contra lavagem de dinheiro também é tática dos EUA contra a Rússia, e porque também essa estratégia está fracassando em seus objetivos de mudança de regime. Para exemplo detalhado, leiam a história da proteção incansável que os EUA dedicam à corrupção praticada pela ex-ministra ucraniana Yulia Tymoshenko e o processo judicial em andamento contra o oligarca ucraniano Dmitri Firtash.

O fracasso relativo da Rússia no emprego da corrupção como ferramenta de política externa é perfeitamente claro. Menos de 20 anos depois da ruptura da União Soviética e da independência de seus estados-membros, e menos de uma década depois de a Rússia estar já em virtual bancarrota, sem poder pagar pelos papéis de seu próprio Tesouro, vários oligarcas russos já haviam dado jeito para se estabelecer nos postos mais altos do governo e controle da economia do que, na Rússia, chama-se Exterior-Próximo [ing. Near-Abroad (ru. ближнее зарубежье) [mapa]. Esse é termo político, na Rússia, não só geopolítico. Tem significado mais abrangente que a palavra Ucrânia, que há mil anos significava "terra da fronteira", e significa até hoje.


O Exterior-Próximo também inclui os estados ex-soviéticos do Cáucaso (Armênia, Azerbaijão, Geórgia), e Belarus. Em russo, "Ásia Central" designa apenas uma fração do termo mais amplo: refere-se ao Tadjiquistão, Quirguistão, Turcomenistão e Uzbequistão, mas não ao Cazaquistão. Fora da Rússia, "Ásia Central" inclui o Cazaquistão, mas exclui o Cáucaso. "Turquestão" é termo do século 19 que incluía o Império Otomano já colapsando, hoje "Turquia". "Bálcãs Eurasianos" foi outro termo que os norte-americanos usaram para abrangência estratégica de modo a incluir tudo que a Rússia identifica como Exterior-Próximo, exceto Belarus. Zbigniew Bzezinski, ancestral assessor de segurança nacional no governo Carter e dedicado exterminador tentativo da Rússia, também incluiu o Afeganistão em seu mapa do Exterior-Próximo da Rússia, enquanto pensava em métodos para encolher o mapa pelo lado russo.

O Exterior-Próximo da Rússia equivale à zona de influência de Washington traçada pela primeira vez pelo presidente James Monroe em 1823. Territorialmente, a tal zona era muito, muito maior, tinha de fato dimensões hemisféricas. Mas no início, a Doutrina Monroe foi acertada com Rússia e Grã-Bretanha, que já tinham colônias acima da fronteira norte dos EUA e toda a disposição para mantê-las. Os alvos de Monroe concentraram-se mesmo ao sul da fronteira norte-americana.

Quando a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, URSS, colapsou em 1991, todos os recursos administrativos com que o Kremlin contava para preservar o Exterior-Próximo evaporaram. Preocupado com se salvar, portanto com enriquecer seus apoiadores, o presidente Boris Yeltsin foi obrigado a aceitar o que lhe ordenava um grupo de boyars, como eram conhecidos os asseclas, financistas e rivais potenciais dos czares medievais.


Presidente Yeltsin com seus três boyars (da esquerda para a direita): Vladimir Gusinsky, Boris Berezovsky, Mikhail Khodorkovsky.

Tão logo o presidente Vladimir Putin sentiu-se suficientemente seguro domesticamente, os boyars foram convertidos num sistema oligárquico. Os boyarsforam apeados dos cavalos e desarmados, depois institucionalizados à volta da mesa palaciana no Kremlin para uma celebração anual natalina.

Putin mandou-os cuidar da estratégia russa de segurança no exterior. Tentaram, mas fracassaram nas Américas e na Europa. Foram bem-sucedidos no Exterior-Próximo.

À altura de 2010, os oligarcas russos eram proprietários das maiores jazidas e empresas de extração de minérios do Tadjiquistão e Geórgia; pilotavam os cadeados dos cofres da família Karimov que governava o Uzbequistão com concessões no campo das telecomunicações e outras. E faziam o que faziam apesar da furiosa concorrência que lhes faziam os adversários ocidentais da Rússia, muito mais ricos – EUA, OTAN, União Europeia. Mas os russos, sozinhos, não conseguiram gerir tudo. Sem preços recordes de petróleo, minérios e ouro, as propinas que a Rússia pagava aos seus próprios oligarcas russos não passavam de migalhas, comparadas ao que lhes ofereciam Washington, Londres e Bruxelas. Como se vê documentado no livro de Cooley e Heathershaw, os oligarcas russos também careciam de ajuda das cortes judiciais, dos bancos, dos organismos de regulação financeira e das empresas de Relações Públicas (em SP, chama-se 'marketing político') naquelas capitais. E também ficaram ricos.



Um dos palácios cazaques que Cooley e Heathershaw não listaram: Praça St.James n. 15, Londres, residência de Alexander Mashkevich. Detalhes aqui

Em lugar do sistema de controles militares, administrativos e financeiros da era soviética, o Kremlin usou os oligarcas para restaurar parte considerável da influência que tivera. Nada tão direta nem tão obviamente potente como Partido Comunista, a segurança da KGB, o rublo do Gosbank e os comandos do Exército Vermelho haviam sido antes de 1991. Mesmo assim, os oligarcas foram eficientes no serviço de restaurar vias de influência pessoal dentro das elites governantes na Ásia Central, obtendo assim meios para antecipar e neutralizar muitas das ameaças aos interesses do estado russo que já estavam em ruminação pelos norte-americanos. Os russos conseguiram o que conseguiram pagando em dinheiro – ao custo de uma minúscula fração do velho preço soviético.

Nos centros anglo-norte-americanos de poder, qualquer movimento com vistas a estabelecer os próprios pés nos estados da Ásia Central – na forma de pagamento que os russos fizessem ou façam – eram e continuam a ser expostos e denunciados regularmente como corrupção, fraude ou outro tipo de crime. Do ponto de vista do Kremlin foi e ainda é simples recurso de negociação (...).

A estratégia dos EUA é a mesma. Mas a longa sucessão de canalhas, um após o outro, no Exterior-Próximo não está funcionando como Washington esperava. Sequer a mais cara operação de corrupção pelos EUA – a Ucrânia – está dando o resultado esperado.

Servindo-se como fontes sobre operações do governo dos EUA na Ásia Central dos relativamente anódinos telegramas do Departamento de Estado, das embaixadas para o comando, publicados por WikiLeaks, Cooley e Heathershaw reproduzem um telegrama secreto da Embaixadora dos EUA Tatiana Gfoeller no Quirguistão, em setembro de 2009. Gfoeller (imagem à esquerda) informava:

"Maxim Bakiyev (à direita, filho do então presidente quirquiz Kurmanbek Bakiyev) é esperto, corrupto, bom aliado a cultivar."


No esquema de Putin para construir influência, os oligarcas russos foram autorizados a construir lucrativos negócios transfronteiras: fazer o que já faziam dentro da Rússia nos anos Yeltsin. Foi movimento estratégico: distribuir propinas individuais, corromper mecanismos administrativos nos processos de privatização de propriedades dos Estados, e com esquemas de comércio e transferências de dinheiro para centros offshore, aqueles russos assumiram o controle de fluxos de dinheiro que eram estratégicos para os países atacados. Os fluxos de dinheiro eram transferidos para longe e partilhados com as elites locais, caso a caso. Aquelas elites locais tornaram-se proprietárias bilionárias à custa dos próprios países – e importantes ativos a serem mantidos no comando político, como agentes da influência russa.

Cooley e Heathershaw mostram como o sistema aparece hoje. Não investigam como foi modelado na sempre ativa competição entre governos de EUA e Rússia, poucas palavras sobre chineses e nenhuma sobre turcos, União Europeia, Fundo Monetário internacional, Banco Mundial e Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento.

Comparado aos métodos, quantidade de dinheiro envolvida e resultado, no caso da Justiça norte-americana contra James Giffen (imagem) acusado de subornar altos funcionários do Cazaquistão, o esquema russo para construir influência foi muitíssimo mais lucrativo para as elites da Ásia Central; mais duradouro; mais bem-sucedido com vistas aos interesses do estado russo. Até o governo dos EUA, depois de sete anos de idas e vindas jurídicas no processo contra Giffen, viu-se obrigado a reconhecer a validade do argumento da defesa de Giffen contra as acusações de corrupção: Giffen alegou em sua defesa que fora contratado e pago pelos serviços secretos dos EUA para ser "seus olhos e ouvidos" no Cazaquistão.

O juiz federal William Pauley, que julgou o caso, até elogiou a importância estratégica do valioso serviço de corrupção que Giffen prestara ao seu país: "Deve-se reconhecer que Mr. Giffen foi importante fonte de informação para o governo dos EUA e um conduíte de informação secreta sore a União Soviética durante a Guerra Fria. Prestou esse serviço como voluntário, e como um dos poucos norte-americanos com acesso sustentado e confiável aos mais altos funcionários soviéticos (...) Aquelas relações, construídas ao longo de uma vida inteira, perderam-se no dia em que foi preso. Esse calvário tem de ter fim. Como Mr. Giffen recuperará a própria reputação. Esse julgador começa por reconhecer o serviço prestado."

No tempo devido, como Putin já disse tantas vezes, ele planeja coligar numa união aduaneira e espaço econômico comum a maior quantidade possível de estados ex-soviéticos que consiga convencer que é do interesse deles aderir. Por enquanto, a União Aduaneira Eurasiana compreende Rússia, Cazaquistão, Belarus, Armênia e Quirguistão. A Ucrânia era candidata a membro, até que o presidente Victor Yanukovich foi derrubado por golpe dos EUA em fevereiro de 2014.

O papel dos oligarcas russos estará completado e terá servido à estratégia do Kremlin quando ou se – um grande se – aquela União, e seu braço executivo, a Comissão Econômica Eurasiana, se tiver convertido em baluarte do sistema comercial da Rússia com outros países e escudo contra movimentos, pela União Europeia, contra a Rússia. Até lá – e pode demorar muito mais do que se espera, e o curto prazo é especialmente imprevisível – o papel dos oligarcas russos reforça os objetivos do estado russo. Além disso, os oligarcas russos são também um 'seguro' estratégico na grande variedade de disputas pela sucessão política na Ásia Central nos casos em que – como na Ucrânia hoje – há guerra feroz entre interesses "orientais" e "ocidentais", entre Rússia, EUA e União Europeia.

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