terça-feira, 11 de abril de 2017

Síria: Tragédia e crime, por Salem Nasser


 
Mais uma vez sou interpelado pela cena em que Ivan Karamazov pergunta ao irmão, Aliocha, se aceitaria erigir o edifício da felicidade humana sobre o sofrimento de uma única criança.

Para falar de Síria hoje é preciso começar e também terminar por esse sofrimento. É preciso enfrentar cada criança que morreu pelo uso de armas químicas, cada criança que morreu no ataque americano mais recente, cada criança afogada, cada criança incapacitada para a vida, cada mulher violentada, cada homem torturado, cada pai que perdeu os filhos…
Diante de cada uma dessas imagens, impõe-se o julgamento: não há nada que possa justificar esse sofrimento.
Mas logo levantamos o olhar, afastando-o daquela tragédia sem tamanho, ainda que individual, particular, e vemos um campo de horror em que ao longo de anos as tragédias ocorreram centenas de milhares de vezes. E, por mais terrível que nos pareça o horror desse cenário, cada história trágica perde um pouco de sua força em nosso espírito.
Algo nos diz que o sofrimento é inevitável e que as tragédias são a matéria com que se fazem as guerras. E logo nos vemos procurando pelas razões da guerra e pelas razões na guerra. Buscamos as causas por que se luta e, de algum modo, pensamos essas causas como o contrapeso do horror inevitável.
O máximo que conseguimos fazer, como espécie – e é preciso dizer, para nosso crédito, que começamos a tentar já há muito tempo – foi pensar algumas regras sobre o que não fazer quando em guerra.
A experiência mostra, no entanto, que quando o prêmio que se espera obter é suficientemente importante, resvala-se no crime – quando não se é criminoso por natureza, por assim dizer – com relativa facilidade.
O prêmio a que me refiro é por vezes vivido pelas partes como algo vital. Trata-se por vezes da própria existência e por outras da sobrevida de projetos políticos que parecem justificar largamente o matar e o morrer.
Na Síria, desde o começo das chamadas primaveras árabes, todos os atores, locais, regionais e os que estão mais longe geograficamente, enxergaram um potencial ganho especialmente suculento e se dispuseram, por ele, a ir a extremos.
Isso explica por que todos os combatentes violaram com freqüência o direito humanitário, por que se permitiu que alguns dos piores grupos terroristas que o mundo já conheceu chegassem livremente e se instalassem ali, por que qualquer chance da paz negociada é sabotada.
É por essa mesma razão que a guerra da Síria é também uma feroz guerra de propaganda. Entre nós, com raros momentos em que o contraponto mostra a sua cara, essa guerra é sistematicamente vencida pela versão que nos apresentam as potências ocidentais, seus serviços de segurança e suas agências de notícias.
Nos últimos dois dias fomos constantemente submetidos às cenas terrivelmente dolorosas do último ataque com armas químicas. Elas servem a mostrar que um ataque de fato aconteceu. Mas de algum modo elas nos são apresentadas igualmente como a prova de que o responsável pelo ataque foi o governo sírio, ainda que nem sempre isto seja explicitado em linguagem. De algum modo elas servem a justificar o discurso que ocupa o centro do debate, que aponta o dedo acusador para o regime e, finalmente, justifica o ataque americano.
Nós naturalizamos essa “verdade” e, de repente, vemos razoabilidade no presidente americano que até agora considerávamos ridículo e acreditamos nos belos discursos de Reino Unido, França, Alemanha, consternados com o crime das armas químicas e aprovadores do ataque americano, que ninguém lembra de dizer que é absolutamente ilegal.
É um fato que os políticos são pouco mais do que atores. Os textos que recitam raramente contêm alguma dose de verdade. Nossa única esperança de entender alguma coisa está em ler nas entrelinhas e observar as ações que empreendem. De modo geral, no entanto, aceitamos por verdadeiro o que nos dizem alguns e sistematicamente julgamos mentirosos outros. Pense, por exemplo, numa reunião do Conselho de Segurança, imagine a representante americana mostrando as fotos das crianças mortas e o representante do Reino Unido expressando a sua revolta, e logo os discursos da China, da Rússia, da Síria, da Bolívia. Em quem você se sente inclinado a acreditar?
O Conselho de Segurança já viu cenas parecidas. Em 2002, a “verdade” das armas de destruição em massa do Iraque, que demandava uma intervenção armada, veio carregada por esse tipo de onda e dominou a maior parte das mentes. Quem se posicionava contrariamente a isso parecia ignorar algo de evidente e se posicionar do lado do mal.
Hoje, as cenas insuportáveis do pai que perdeu os filhos para o gás, que nos fazem querer fazer retroagir o tempo para que eles se salvassem, que nos fazem desejar, na impotência de fazer aquilo, a pior das vinganças, são mobilizadas para fazer avançar agendas políticas que vão da vontade de desempenhar um papel de John Wayne ao projeto de enfraquecimento e divisão da Síria.
É preciso fazer força para lembrar que a gravidade do crime não nos libera para escolher o culpado que nos interessa, não nos libera de reconhecer que não sabemos quem cometeu o crime, não nos libera para responder com ilegalidades ao ilegal.
Temos que manter o olhar elevado para tentar entender a natureza do jogo por que tanto sangue tem sido derramado.
Isso enquanto não vem o momento em que fecharemos os olhos, em que seremos novamente assombrados pela imagem daqueles pequenos inocentes, sentiremos o coração cair ao chão, incapazes de insuflar vida em quem não podia ser privado dela tão cedo, e nos perguntaremos que edifício é esse que erigimos sobre tanto sofrimento.
Salem Nasse é professor de Direito da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo.
Revista Brasileiros

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