terça-feira, 16 de maio de 2017

História de como os neoconservadores tomaram os EUA (Parte 1)


Paul Fitzgerald e Elizabeth Gould, Thruthdig in The Vineyard of the Saker


Parte 1/4 – Imperialismo norte-americano empurra o mundo para um inferno dantesco[1]

"Abandonai, ó vós que entrais, toda a esperança!"

("Inferno", Parte 1, canto 3, linha 9, trad. [port.] José Pedro Xavier Pinheiro)

Traduzido pelo coletivo da vila vudu


Ver também


Parte 2/4 – Como os neoconservadores promoveram a guerra, maquiando as contas (Blog do Alok)
Parte 3/4 – Como a CIA inventou uma falsa realidade ocidental para sua "Guerra não convencional" (Blog do Alok)
Parte 4/4 – Estágio final da tomada dos EUA pelas elites maquiavelian à Burnham. De Trotsky a Burnham, de Burnham e Maquiavel ao neoconservadorismo: fecha-se o ciclo do imperialismo britânico(Blog do Alok) 




Antes de os mísseis Tomahawk começarem a voar entre Moscou e New York, os norte-americanos sabiam mais e melhor, autoeducados eles mesmos, sobre as forças agentes da Rússia, que estaria dando cobertura a um ataque do governo sírio, com gás, contra o próprio povo, como continuam a dizer. Hoje, ninguém parece dar qualquer atenção à necessidade de provar, na ânsia de converter o mundo numa visão dantesca de Inferno. Absolutamente não faltam acusações partidas de fontes jamais identificadas, fontes espúrias e fraudes absolutas indisfarçáveis. A paranoia e a confusão de Washington são hoje impressionantemente semelhantes ao que se viu nos últimos dias do 3º Reich, quando a liderança em Berlin desconjuntou-se e todos os órgãos e unidades de governo entraram em falência. 

A partir do outono, nos EUA, as tensões só aumentaram, com acusações de que meios russos interferiram nas eleições presidenciais nos EUA e seriam hoje grave ameaça à segurança nacional dos EUA.

O mais recente grande conjunto de documentos vazados por WikiLeaks sugere fortemente que os agentes ativos por trás dos vazamentos de e-mails de Hillary Clinton seriam hackers contratados pela própria CIAnão os 'russos'. Os EUA têm longa reputação de acusar outros, em altos brados, de coisas que não fizeram e de plantar noticiário falso ("fake news") na mídia, como 'prova' de algum tipo de ataque contra os EUA, 'prova' que imediatamente é convertida em causa para atacar outros países e iniciar guerras. O trabalho dos serviços secretos de contrainteligência é desinformar a opinião pública, para assim modelar o pensamento dos cidadãos e eleitores, o que eles realmente conseguem fazer. 

Hoje, a campanha em à qual todo o governo dos EUA está dedicado é destruir a Rússia, e por absolutamente qualquer coisa, e toda essa campanha mostra todas as marcas de uma campanha clássica de desinformação, mas, hoje, ainda mais ensandecida do que nunca antes.

Considerando que Washington pôs Rússia, China e Irã na sua lista de atores antiglobalização a serem destruídos – lista da qual depois de entrar, só se sai morto –, o ribombar alucinado de 'acusações' contra aqueles mesmos atores nem chega a surpreender. Mas acusar os russos de minarem a democracia norte-americana e de interferir em eleições nacionais equivale já a um ato de guerra e não é movimento que se possa autoesvaziar facilmente, ou por inércia. Dessa vez, os EUA não estão demonizando algum inimigo ideológico (URSS) ou religioso (al-Qaeda, ISIS, Daech etc.). Agora, os EUA constroem sua mais recente 'ação belicosa' como a mais obscura das disputas de propaganda de guerra, exatamente como fizeram os nazistas quando planejavam invadir a Rússia, em 1941. – Mas a guerra do século 21 não é guerra que os EUA possam nem justificar, nem vencer.

O nível dessa recente espantosa campanha de desinformação vem subindo já há algum tempo. Mas os norte-americanos vivem há tanto tempo imersos numa cultura de noticiário inventado (que antigamente se conhecia como "propaganda"), que muitos já aceitam o noticiário falso como se fosse a realidade. 

George Orwell anteviu o que viria. Agora, aí está. Como grande apoiador da intervenção militar dos EUA em Cuba e militante confesso do que então se chamava "jornalismo marrom" [ing. yellow journalism]", em 1897 William Randolph Hearst instruiu um ilustrador que mandara a Cuba para produzir ilustrações realistas: "Você me fornece as imagens, que eu fornecerei a guerra."Hearst acabou por conseguir a guerra que tanto desejava. E ali começou, a todo o vapor, aquele experimento imperialista dos EUA.

Hoje os norte-americanos já deveriam ter aprendido que as guerras que eles próprios espalham pelo mundo são campo fértil para noticiário violentamente falsificado, caolho, xenofóbico, inventado do começo ao fim; e que os EUA estão em permanente estado de guerra desde 1941. Embora os alvos tenham mudado ao longo dos anos, o objetivo da propaganda jamais variou. Incontáveis culturas foram coagidas, subornadas ou simplesmente ameaçadas e chantageadas para que aceitassem como verdades quaisquer falsidades que demonizassem os inimigos dos EUA em tempo de guerra – e o processo nunca mudou, por mais que as guerras se repetissem, e repetissem, e também as mentiras, não raras vezes ardilosamente construídas. Mas não há mentira que nunca seja revelada, se a guerra prossegue sempre, como se fosse sem fim. O legendário Guerreiro da Guerra Fria, Henry Luce [1898-1967], da revista Time and Life, via sua luta pessoal contra o comunismo como uma "declaração de guerra privada". 

Luce chegou a perguntar a um de seus executivos se a ideia não seria "ilegal e talvez louca?" Fosse como fosse, por mais que duvidasse até da própria sanidade, Luce permitiu que a CIA usasse a revista Time/Life como cobertura para operações da agência e para garantir credenciais ao pessoal da CIA, pelo mundo.[2]

Luce não estava sozinho no serviço que prestou às guerras de propaganda da CIADocumentos que recentemente foram divulgados depois de cumprido o período de sigilo obrigatório revelam que a propaganda feita pela CIA envolvia todos os veículos da chamada 'grande mídia'. Dúzias dos mais respeitados jornalistas e formadores de opinião durante a Guerra Fria consideravam um privilégio ser recrutado para o serviço de manter a opinião pública hipnotizada, controlada, subjugada pelaCIA.

Hoje, quando a nova Guerra Fria volta a esquentar muito, somos levados a crer que os russos invadiram e furaram essa muralha de jornalismo e jornalistas nada confiáveis, e já começam a abalar as fundações da máquina de produzir informação quase sempre falsa sobre a pureza do processo eleitoral nos EUA e a "liberdade de imprensa" nos EUA.

Propaganda marrom é sempre operação de mentiras. Governos autoritários mentem regularmente e com tal frequência que já ninguém acredita no que dizem. Espera-se que governo baseado em princípios democráticos como o dos EUA fale a verdade, mas quando documentos do próprio governo dos EUA revelam mentiras sucessivas e repetidas ao longo de décadas, é sinal de que todo o quadro está gravemente pervertido.

Os impérios infalivelmente seguiram essa via e ela não termina bem. Os norte-americanos estão ouvindo agora que todos, ininterruptamente devem considerar mentira qualquer coisa que qualquer russo diga, e ignorar qualquer informação que não coincida com o que a grande mídia-empresa e o governo dos EUA declarem que seja ou verdade ou mentira. Mas pela primeira vez na história os norte-americanos compreendem claramente que gente que o secretário de Estado Colin Powell chamou certa vez de "os doidos" arrastaram o país para a beira do penhasco.

Os pistoleiros e pistoleiras mercenários e mercenárias que vivem em Washington têm longa lista de alvos, que eles e elas transmitem de geração em geração. A influência do governo norte-americano sempre foi catastrófica, mas nem por isso muda ou chega a algum fim. O senador J. William Fulbright identificou o sistema irracional daquela gente para criar guerra sem fim no Vietnã há 45 anos, em artigo para a revista New Yorker intitulado (lit.) "Reflexões sobre o feitiço do medo" [ing. Reflections in Thrall to Fear].



"O aspecto mais notável da psicologia dessa Guerra Fria é a transferência absolutamente sem lógica, do ônus da prova: a prova deixa de ser obrigação de quem acusa e passa a ser de quem questiona as acusações (…) 

Os Guerreiros da Guerra Fria, em vez de serem obrigados por lei a dizer como sabiam que o Vietnã fosse parte de um plano para implantar o comunismo em todo o mundo, manipularam de tal modo a discussão pública a ponto de terem conseguido que passasse a ser dever dos céticos provar que o Vietnã jamais cogitara de implantar comunismo em lugar algum. Se os que questionassem as acusações mais alucinadas não conseguissem provar a 'inocência' do Vietnã... então a guerra teria de continuar e continuar – até que toda a segurança nacional dos EUA já estivesse gravemente ameaçada."



Fulbright deu-se conta de que os doidos instalados em Washington haviam posto o mundo às avessas, e concluiu:



"Chegamos à lógica zero, ao absurdo absoluto: a guerra seria a via recomendável de sobriedade e prudência, até que alguém prove que a paz tenha qualquer utilidade por regras de evidência impossíveis de alcançar [ou jamais prove...] – ou até que o inimigo renda-se sem condições. Homens racionais não podem conviver entre si a partir desse tipo de 'fundamento'."



Sim, mas aqueles homens não eram racionais, e o imperativo da irracionalidade deles só aumentou e firmou-se cada vez mais depois que os EUA foram derrotados no Vietnã.

Já há muito tempo esquecidos das lições do Vietnã e depois de outra trágica derrota no Iraque, que o muito respeitado general William Odom definiu como "equivalente à derrota dos alemães em Stalingrado," os doidos estão outra vez na ativa. 

Sem quem os detenha, já lançaram e atualizaram nova versão da Guerra Fria contra a Rússia, como se nada no mundo tivesse mudado desde 1992. A Guerra Fria original foi imensamente custosa para os EUA e foi guerreada quando os EUA estavam no auge do poder militar e financeiro. Hoje, os EUA já não são aquele país. A Guerra Fria teria sido motivada por uma suposta ameaça ideológica chamada comunismo. Hoje, os norte-americanos devem-se perguntar, antes que seja tarde demais, exatamente que tipo de ameaça seria, contra o país líder do "Mundo Livre", hoje, uma Rússia cristã e capitalista. Qual?!

Agitando o lodo para turvar as águas com empenho jamais visto desde os anos do senador Joe McCarthy e do "Medo Vermelho" [ing. Red Scare] nos anos 1950s, a "Lei de Combate à Desinformação e à Propaganda" [ing. "Countering Disinformation and Propaganda Act"] assinada e convertida em lei quase clandestinamente por Obama em dezembro de 2016 autoriza oficialmente a ação de uma burocracia de censores só comparável ao Ministério da Verdade que George Orwell nos mostra em seu romance1984. 

Referido como Centro de Engajamento Global (ing. "The Global Engagement Center") o objetivo oficial da nova burocracia será "reconhecer, compreender, expor e trabalhar contra propaganda e desinformação promovida por estados e entidades não estatais estrangeiras que visem a agredir interesses da segurança nacional dos EUA." Mas o objetivo real desse centro absolutamente orwelliano será gerir, eliminar ou censurar qualquer visão que desafie a versão recentemente produzida em Washington da sua neoverdade, e intimidar, abusar ou encarcerar qualquer um que tente. 

Criminalizar a opinião divergente não é novidade em tempos de guerra, mas depois de 16 anos de guerra sem fim no Afeganistão; depois de derrota no Iraque comparável à dos alemães em Stalingrado; e com Henry Kissinger como conselheiro do presidente Trump em política externa, o Centro de Engajamento Global já assumiu todas as características de perigosa fraude.

O brilhante compositor satírico norte-americano dos anos 1950s e 60s Tom Lehrer atribuía sua precoce aposentadoria a Henry Kissinger: dizia que "a sátira política tornou-se obsoleta [em 1973] quando Henry Kissinger recebeu o Prêmio Nobel da Paz". 

As tentativas enganosas de Kissinger, dizendo que visava com elas a assegurar uma "paz honrosa" para os EUA na guerra do Vietnã mereciam, no mínimo vaia e ridículo. Aquelas longas, infindáveis negociações promovidas por Kissinger conseguiram estender a guerra por mais quatro anos, ao custo de 22 mil norte-americanos e incontáveis vietnamitas mortos. Segundo o pesquisador Larry Berman da University of California, autor de Nem Paz, Nem Honra [ing. No Peace, No Honor]: Nixon, Kissinger e Traição no Vietnã de 2001, os acordos de paz de Paris negociados por Kissinger não foram negociados para funcionar, mas exclusivamente para servir como cobertura para uma guerra aérea brutal e ininterrupta, a partir do primeiro momento em que foram violados. Berman escreve que "Nixon reconheceu que a vitória e a paz eram objetivos inalcançáveis (a vitória era impossível); e que ele planejou um impasse sem fim, para o qual usou os bombardeiros B 52s para segurar no cargo o governo do Vietnã do Sul até o final de seu mandato em Washington (...). Poderia talvez ter dado certo, não fosse o 'evento' Watergate."

A Guerra do Vietnã [que os vietnameses chamam de "A Grande Guerra Americana" (NTs)] já rompera o controle que oestablishment ocidental tinha sobre a política exterior, muito antes de Nixon e Kissinger entrassem em cena. A détente com a União Soviética começara no governo Johnson, num esforço para pôr alguma ordem naquele caos, e Kissinger estendeu o caos pelos governos Nixon e Ford. Mas se por um lado 'continha' uma crise, por outro lado a mesma détente criava outra, ainda pior, ao expor a já antiga e feroz luta interna, dentro do Estado Profundo, pelo controle da política dos EUA contra a União Soviética. O Vietnã representou mais que simples derrota estratégica: marcou um fracasso conceitual na batalha de meio século para 'conter' o comunismo de estilo soviético. 

Os Pentagon Papers expuseram a extensão das mentiras e da incompetência em que naufragava o governo dos EUA. Mas, em vez de aceitar a derrota inegável e traçar nova rota, os proponentes da velha política fracassada voltaram a se reagrupar e atacar, com uma campanha ideológica maquiavélica, que seria conhecida como "experimento em análise competitiva" ou, abreviada, "Team B" [algo como "segunda equipe, para uma segunda leitura" (adiante o conceito explica-se melhor) (NTs)].

Em artigo para o Los Angeles Times em agosto de 2004, intitulado It's Time to Bench "Team B", Lawrence J. Korb, Senior Fellow no Center for American Progress e secretário-assistente da Defesa de 1981 a 1985 expôs claramente o que, para ele, havia sido a tragédia real de que o 11 de setembro fora a manifestação.



"Os relatórios da Comissão do 11/9 e da Comissão Especial de Inteligência do Senado deixaram passar sem registrar o verdadeiro problema que a comunidade de inteligência teria de enfrentar, que não é nem organização nem 'cultura', mas um conceito conhecido como "Team B". Os verdadeiros vilões são os 'linha-dura' que criaram o conceito porque não tinham interesse nem vontade de aceitar o veredito técnico e isento, dos profissionais da inteligência."


[Continua]


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