sábado, 27 de maio de 2017

Pepe Escobar: Daech, o Ocidente e o impassível fedor de morte


Pepe Escobar, Sputnik News

Traduzido pelo coletivo da vila vudu

Cada vez que o Daech acrescenta mais um, na litania trágica de seus ataques de "lobo solitário" e/ou de "redes" – em Manchester, Paris, Londres, Nice, Berlim – o Ocidente volta às cenas de fúria contra aqueles "desgraçados perdedores" (copyright Donald Trump).
Cada vez que a formidável máquina militar do Ocidente acrescenta mais um, na trágica litania de "danos colaterais" – na Líbia, Iêmen, Somália, nas áreas tribais do Paquistão – reina o silêncio. Nenhuma manchete de primeira página com nomes muçulmanos completos.
Cada vez que representantes do CCG-OTAN acrescentam mais um, na sua própria trágica litania de massacres premeditados – em toda a Síria, em todo o Iraque – os perpetradores são desculpados porque são "nossos" rebeldes "moderados" e combatentes da liberdade.

Essa lógica inexorável, perversa, não será alterada. Agora com um toque extra, porque o presidente Trump explicou a um mundo assustado, via seu redator islamófobo de discursos Stephen Miller, a culpa é toda do Irã.

Trump já fez sua profissão de fé jurando sobre uma esfera brilhante aninhada em Riad, a alma mater de todas as modalidades do terror wahhabista ou jihadista-salafista.

E professou sua fé na sequência, tão logo acabou de vender carregamento novinho de multibilhões de dólares em armas aos teocratas doidos totalitários da Casa de Saud.

Essas armas serão usadas pela Casa de Saud para varrer o Iêmen da face da Terra; para aprofundar uma guerra fratricida entre sunitas e xiitas em todos os fronts e facilitar o caminho na Síria, para seus "combatentes da liberdade" selecionados a dedo.

Nunca é demais repetir, outra e outra vez, que o Daech e a Casa de Saud são duas faces cadavéricas da mesma Medusa estampada na mesma moeda: teocracia totalitária implantável mediante jihad.

establishment ou estado profundo dos EUA, como o da Grã-Bretanha, jamais admitirá. Tantos negócios de venda de armas, tão pouco tempo.

E quem, no ocidente, paga, em sangue, por esse ciclo vicioso, depravado?

Meninas adolescentes em Manchester. Para citar Morrissey, fúnebre, lutuoso e Marr no auge dos Smiths"Fresh lilaced moorland fields / Cannot hide the stolid stench of death" [lit. Campos alagados floridos de lilases frescos / Não conseguem esconder o impassível fedor de morte]

O Califato desterritorial 

Os estrategistas do Daech absolutamente não ligam a mínima para a esfera brilhante – o centro de contrainformação – em Riad (nem a Casa de Saud, por falar dela). Enterrados no salão de espera de um deserto no "Siriaque", loucos para capturar o mais depressa possível as armas norte-americanas novas em folha – podem chamar de a Linha de Rato saudita – apareceram com planos alternativos.

Nas duas cidades, em Mosul e Raqqa, Daech não está sentado à espera de ser exterminado. Protegidos por tribos locais, leais, engenheiros e técnicos muito experientes em combate foram enviados para o meio do nada, no deserto acima do "Siriaque".

A estratégia foi finamente calibrada em Sirte, na Líbia, nas montanhas do Sinai e agora por todo o "Siriaque". Porque o campo de combate preferencial, de agora em diante, são as terras europeias infiéis.

No front ocidental, o Daech pode contar com milhares de jihadistas instantâneos residentes na União Europeia, radicalizados na internet, mais uma seleta rede de mesquitas e madrassas financiadas por proverbiais ricos doadores reunidos no CCG.


O suicida-bomba de Manchester encaixa-se em perfil sumarento: descendente de líbios, nascido na Grã-Bretanha, com uma conexão indireta (ditas viagens secretas à Síria) com a linha de rato Líbia-Síria-'Takfiristão' aprovada por Hillary Clinton. A conexão implica um fluxo da al-Qaeda para o Daech, porque a linha de rato original já mostrou o Grupo Islâmico de Combate da Líbia [ing. Libya Islamic Fighting Group (LIFG)], afiliado à al-Qaeda e integralmente apoiado por Washington e Londres.

E além disso, o Daech pode contar com os especialistas que lideram pela retaguarda.

Todas as agências de inteligência ocidentais assumiram que já haveria hoje mais de 6.000 jihadistas mortos na Líbia. Nada disso: apenas umas poucas centenas. É a consequência de uma retirada planejada – que deixou o Daech livre para se engajar em missões pontuais de busca e destruição (guerra de guerrilhas no deserto). Como a guerra civil de fato na Líbia continua a se desdobrar, o Daech encontrará meios seguros para contrabandear novas ondas de jihadistas experientes naquele cenário de combates, através do Mediterrâneo.


Os poucos deixados para morrer pela causa em Mosul são problema diferente. Documentos encontrados na Mosul University detalham um programa cru de armas químicas, desenvolvido in loco, incluindo experimentos em prisioneiros, com gás de ação neurológia. Para esses experimentos é indispensável contar com especialistas – e muitos deles podem ser ocidentais. Onde estão? Foram contrabandeados para dentro, bem fundo no fim de mundo do deserto do "Siriaque", entre Deir Ezzor e al-Qaim.

A propaganda avança, incansável. O vídeo mais recente do Daech, distribuído semana passada, mostra jihadistas ocidentais, inclusive um norte-americano, Abu Hamza al-Amriki. Clamam por vingança, depois que "mulheres e crianças foram mortos em bombardeios selvagens, pelos norte-americanos." Assim, segundo a lógica deles, é "justo" matar civis ocidentais – inclusive meninas em Manchester.

O vídeo também mostra novos equipamentos do Daech pré-fabricados, para montar, na província de Mosul – de drones s lançadores de foguetes feitos em casa.


Assim sendo, o Daech, em termos estratégicos, está-se adaptando rapidamente ao novo campo de combate; trata-se de combater os mísseis e bombas de fósforo dos "cruzados" com ondas sempre crescentes de lobos suicidas-bomba solitários.

O Daech pode ter sido expulso, ou estar em vias de ser expulso de Fallujah, Sirte, Mosul e Raqqa. Entra em cena o Califato Desterritorial: nodos fantasmas em áreas de deserto ao longo do Eufrates, no deserto líbio, nas montanhas do Sinai.

Vai muito além de uma Batalha de Mosul ou uma Batalha de Raqqa.

Vai muito além da política Armas-por-Dólares do governo Trump, posta em ação para beneficiar um complexo industrial-militar-de-segurança faminto por dinheiro.

Vai muito além de um Trump letalmente sem-noção, ainda acreditando numa "OTAN Árabe Sunita" composta de déspotas dos petrodólares dedicados a tentar esmagar o Irã xiita – e seus aliados –, para assim liderar o caminho rumo à "paz" entre árabes e Israel.


O Daech absolutamente não dá importância alguma a essas nuanças geopolíticas. Os filhos pródigos do jihadismo wahhabista salafista são agora Mortos Vivos desterritoriais. Pense numa esperta divisão do trabalho: enquanto os pais fundadores lambuzam-se com as armas norte-americanas, a missão do Daech – espalhar "o impassível fedor da morte" pelo ocidente – expande-se sempre.


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