quinta-feira, 1 de junho de 2017

Em produção: Jihad 2.0, o Próximo Pesadelo, por Pepe Escobar


Pepe Escobar, SputnikNews

Traduzido pelo coletivo da vila vudu

Você está na iminência de pôr os pés no derradeiro campo minado.

Comecemos com os 28 líderes da União Europeia, UE, a discutir os Bálcãs Ocidentais em recente reunião de cúpula, e jogando a culpa sobre – e sobre quem seria? – "a agressão russa" no quintal dos fundos da UE.

Dica para um Procurador de Montenegro pôr-se a vociferar que "corpos estatais russos" teriam encenado uma tentativa de golpe durante as eleições de outubro de 2016, para impedir o país de unir-se à OTAN.


E dica também para o presidente da Comissão Europeia Jean-Claude Juncker pôr-se a ameaçar que a retórica anti-UE de Donald Trump pode levar à guerra nos Bálcãs. Juncker, sempre condescendente, insiste que "Se nós deixarmos aqueles países entregues a eles mesmos – Bósnia e Herzegovina, República Srpska, Macedônia, Albânia, todos aqueles países – teremos guerra outra vez."

Os Bálcãs podem estar a ponto de explodir – tudo outra vez! Mas com pequeno toque novo: diferente de 1999, a OTAN não conseguirá bombardear uma Belgrado indefesa durante 78 dias, e safar-se como se nada tivesse acontecido. Uma nova geração de mísseis russos lá estará para impedir.

A tragédia de 1999 nos Bálcãs começou essencialmente com massacres no Kosovo, forjados pela inteligência alemã (o BND), usando albaneses locais e agentes provocadores da inteligência alemã, que atiravam contra os dois lados, para provocar uma guerra e quebrar a Iugoslávia.

O que fermenta hoje na atual conjuntura geopolítica é ainda mais sinistro.

Os suspeitos de sempre fazem o que sempre fazem: culpar a Rússia e atropelar quaisquer provas.

Deixemos pois que nos guie um especialista 'interno' reconhecido, Dr. Olsi Jazexhi, diretor do Instituto de Mídia Livre em Tirana, Albânia.

Em dezembro de 2016, John Brennan da CIA foi à Albânia e lançou uma fatwa ordenando "guerra contra a Rússia" – especialmente na Macedônia.

Como o Dr. Jazexhi explica, "depois que Brennan saiu, Edi Rama, primeiro-ministro da Albânia, amigo íntimo de George Soros, reuniu todos os partidos políticos albaneses na Macedônia e ordenou que apoiassem Zoran Zaev contra Nikola Gruevski. Gruevski é visto como pró-Rússia e anti-OTAN, e Zaev é cachorrinho de pelúcia de Soros. Resultado, Gruevski foi boicotado pelos albaneses e Zaev recebeu apoio para formar um governo. A promessa de Zaev aos albaneses é que a Macedônia adaptará o idioma albanês como língua oficial e criará um terceiro estado (meio albanês) nos Bálcãs. Os macedônios estão resistindo, mas Tirana e Edi Rama estão orquestrando os partidos políticos albaneses contra Gruevski. O objetivo da jogada é tornar a Macedônia membro da OTAN."

Enquanto isso, no Kosovo – que não passa de lixeira controlada por mafiosos fazendo pose de estado e hospedando o Camp Bondsteel, a maior base militar dos EUA de todo o planeta –, Hashim Thaci, presidente e bandido que foi membro do ex-KLA[ing.] (Exército de Libertação do Kosovo, ELK), está "construindo um exército para o Kosovo. O objetivo final é integrar o Kosovo à OTAN, ainda que a Sérvia rejeite o arranjo para sua ex-província autônoma."

Jazexhi também detalha como, "na Albânia, temos duas grandes organizações terroristas ambas protegidas pelos norte-americanos e pelos europeus."

A primeira é o que Ancara chama de Organização Terrorista Fetullah Gulen [ing. Fetullah Gulen Terror, FETO], que teria sido instrumentalizada pela inteligência alemã; "a Turquia está protestando porque a Albânia abriga o grupo FETO, mas os EUA os hospedam contra Erdogan."

A segunda daquelas organizações terroristas é Mojahedin-e Khalq (MKO), que luta contra Teerã; "a Albânia está sendo convertida em centro da MKO. John Bolton foi recentemente a Tirana, com outros apoiadores internacionais dos MKO, e agora atacam o Irã e clamam por 'mudança de regime'."

Marjam Rajavi, dos doidos MKO, também visitou Tirana, desenvolvendo planos para "derrubar os aiatolás" no Irã.

A questão chave, como Jazexhi enfatiza, é que

"depois de converter os Bálcãs em centro de recrutamento para o ISIS/Daech durante a guerra na Síria, agora os norte-americanos estão convertendo a Albânia num Estado de Jihad 2.0."

Assim, o que está em desenvolvimento é "o mesmo erro histórico cometido pelos albaneses do Kosovo, que associaram 100% do próprio futuro ao Camp Bondsteel e serão imediatamente reinvadidos pela Sérvia, caso a OTAN ou os EUA saiam de lá (o que acontecerá inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde).

Entrementes, a União Europeia e os norte-americanos que querem des-radicalizar os muçulmanos wahhabistas da Europa, não dão um pio sobre os jihadistas iranianos."

O Inimigo "Invisível"

Assim sendo, a peça chave do quebra-cabeça é a configuração da Albânia como centro de Jihad 2.0 – contra os eslavos na Macedônia, contra Teerã, e também contra Ancara. Não surpreende que, até há uns poucos meses, o principal conselheiro do governo albanês tenha sido um certo Tony Blair.

Mas há sobretudo o inimigo "invisível", o inimigo que realmente interessa compreender.

No final de março, o presidente sérvio Tomislav Nikolic foi a Pequim em sua última visita oficial antes das eleições de 2 de abril. O presidente Xi Jinping da China destacou que a cooperação econômica com a Sérvia – e, de modo geral, com os Bálcãs – é prioridade para a China.

Quanto a isso, nem se discute. Em 2014, Pequim criou um fundo que investirá 10 bilhões de euros na Europa Central e Ocidental. Ano passado, a empresa China Everbright comprou o aeroporto de Tirana na Albânia. O China Exim Bank está financiando a construção de autopistas na Macedônia e em Montenegro.

Na Sérvia, a empresa China Road & Bridge Corporation construiu a ponte Pupin de 170 milhões de euros sobre o rio Danúbio em Belgrado – chamada "Ponte da Amizade Sino-sérvia", inaugurada em 2014, 85% da qual foi financiada por um empréstimo do China Exim Bank.

E a cereja do bolo (do desenvolvimento da infraestrutura) é a ferrovia para trens de alta velocidade, de 350 km e que custou $2,89 bilhões, entre Atenas e Budapeste, via Macedônia e Belgrado.

A União Europeia disparou sinetas de alarma contra o trecho principal, de $1,8 bilhão, Budapest-Belgrado, com investigações sobre a possibilidade de o trecho pela Hungria violaria estritas leis da UE segundo as quais a licitação pública é obrigatória para grandes projetos de transporte.

Incluída vem a proverbial arrogância ocidental, que determina que nenhum chinês será jamais capaz de construir infraestrutura para ferrovias de alta velocidade que chegue sequer à mesma qualidade, imagine se chineses fariam melhor – e por menor custo – que a Europa.

Acontece que o trecho Budapest-Belgrado é absolutamente crucial na Rota Expressa Terra Mar que Pequim prometeu construir já há tempos, em 2014, com Hungria, Sérvia e Macedônia. É o centro do nodo crucial Sudeste da Europa do Projeto Novas Rotas da Seda, agora rebatizado como Iniciativa Cinturão e Estrada: um corredor comercial entre o porto de contêineres de Pireus, no Mediterrâneo – do qual a China Ocean Shipping Company é coproprietária desde 2010 –, diretamente até a Europa Central.

A 'ideia' central dos especialistas da OTAN é que a Aliança terá de estar plantada nos Bálcãs para combater a "ameaça do terrorismo". Segundo o secretário-geral da OTAN Jens Stoltenberg, "Visitei recentemente a Bósnia Herzegovina e o Kosovo, e estou muito encorajado, por ver como estão focados em dar combate à ameaça dos combatentes estrangeiros."

Ora essa! Os "combatentes estrangeiros" estão precisamente em casa, não só no Kosovo, mas logo também na Albânia, capital daJihad 2.0. A OTAN, na verdade, é especialista renomada em criar "ameaças" iminentes, indispensáveis para justificar sua própria existência.

A Jihad 2.0 pode ser dirigida contra os eslavos na Macedônia, contra o Irã e contra a Turquia. Para nem falar do que pode fazer contra o "baixo ventre" da Rússia. O ângulo invisível é que essa Jihad 2.0 sempre poderá ser usada para boicotar o movimento da China, de integrar o sudeste da Europa como nodo chave das Novas Rotas da Seda.

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