quinta-feira, 22 de junho de 2017

Grandes avanços do Exército Árabe Sírio transformam a guerra na Síria


Alexander Mercouris, The Duran

Traduzido pelo coletivo da vila vudu

Um furacão de avanços do Exército Árabe Sírio desorientou completamente o ISIS e posicionou os sírios para recuperarem toda a Síria central e de leste, do Mediterrâneo até a fronteira do Iraque.
Embora a mídia-empresa ocidental nada noticie, as últimas semanas marcaram total transformação na guerra na Síria.

Até a libertação do leste de Aleppo em dezembro, a guerra síria estava sendo combatida principalmente no oeste da Síria, numa estreita faixa do litoral sírio mediterrâneo, guerra de atrito entre o Exército Sírio e vários turcos apoiados por grupos Jihadistas, todos, de fato, comandados pela Al-Qaeda.
A pressão intensa dessa guerra obrigou o Exército Sírio a deixar quase todas as regiões do leste da Síria, para proteger os principais centros populacionais do país e de poder ao longo da costa. O vácuo resultante no leste da Síria foi preenchido inicialmente por grupos Jihadistas, mas depois pelo ISIS, cujos terroristas ganharam em 2015 o importante controle dessa área, exceto a cidade isolada de Deir Ezzor.

A derrota da Al-Qaeda em dezembro em Aleppo, e o fracasso de sua ofensiva da província de Idlib para a província de Hama em abril, deixaram o governo sírio no controle de todas as grandes cidades sírias – Damascos, Aleppo, Hama e Homs –, com a província de Latakia e respectiva capital já então firmemente sob controle das forças oficiais. Embora ainda haja presença de Al-Qaeda em algumas áreas do país próximas de Damasco, e permaneça no controle da província de Idlib, são áreas para as quais Rússia e Turquia já construíram acordos em dezembro, suplementados por outros acordos firmados por Rússia, Irã e Turquia em maio, que implantaram as chamadas "áreas de desconflitação" nesses territórios.

Essa combinação de derrotas da Al-Qaeda e acordos de paz significa que a guerra de atrito na Síria ocidental está com as horas contadas, e que o Exército Sírio naquelas áreas, pelo menos por enquanto, venceu.

Ao dizer isso, é importante lembrar que os combates entre o Exército Sírio e a Al-Qaeda no oeste da síria não estão completamente encerrados. Ainda há luta violenta entre o Exército Sírio e a Al-Qaeda no sul da Síria, especialmente na cidade duramente disputada de Dara’a, onde começou o 'levante' contra o governo sírio em 2011. Al-Qaeda, de tempos em tempos, ainda faz raids sobre a área ocidental de Aleppo. E em toda a Síria, mesmo nas regiões mais seguras, sob pleno controle do governo sírio, há a ameaça diária de ataques terroristas.

Mesmo assim, os acordos firmados entre turcos e russos em dezembro, e entre turcos e iranianos em maio, ainda se mantêm vigentes.

Com isso, o Exército Sírios, grupamentos do qual foram extensivamente e seriamente retreinados e reequipados pelos russos, para os combates contra o ISIS no leste, pela primeira vez desde que os terroristas assumiram o controle de áreas no centro e a leste da Síria em 2014 e 2015. Analistas ocidentais disseram certa vez que o exército sírio e os russos estariam deixando o ISISoperar como quisesse. Jamais foi verdade, mas se se observam os recentes avanços do Exército Sírio na direção do leste da Síria, aquela alegação tornou-se absolutamente insustentável.

O primeiro fruto da estabilização no setor ocidental foi a segunda libertação de Palmyra, em março de 2017. Mas desde os eventos que aceleraram a taxa de sucessos, com grande avanço pelo Exército Árabe rumo leste a partir de Aleppo para Rusafa no norte, e avanço igualmente dramático no sul, o Exército Sírio, pela primeira vez em anos chega à fronteira do Iraque.

A velocidade desses avanços é perfeita novidade, sem nenhum caso anterior, na guerra síria. Em 2014-2015, o ISIS conseguiu avanços igualmente rápidos em distâncias comparáveis. Mas depois que o Exército Sírio deixou a Síria ocidental, aqueles avanços dos terroristas praticamente não encontraram qualquer oposição. Em contraste, os avanços do Exército Sírio nas semanas recentes foram bem sustentados, mesmo diante de resistência fanática do ISIS.

Não se trata aí de algum tipo de colapso geral do ISIS na Síria central e do leste. Enquanto o Exército Sírio avançava em velocidade impressionante, as forças curdas apoiadas pelos EUA obtiveram progresso muito lento na sua guerra contra o ISIS –, o qual provavelmente acabará com a captura de Raqqa.

Comparem-se por exemplo, de um lado o fracasso continuado dos esforços da milícia curda pra tomar Raqqa apesar de já ter iniciado a ofensiva que os EUA planejaram e financiaram para capturar Raqqa há meses, em novembro de 2016 (“Operação Ira do Eufrates”); e de outro lado os recentes rápidos avanços na província de Raqqa do Exército Sírio.

O Exército Árabe Sírio (EAS), com os soldados de elite das Forças Tigre à frente, já recuperaram mais de 1.400 quilômetros quadrados de território que estava sob controle do ISIS na província de Raqqah. Além disso, foram libertados vários pontos chaves de extração e refinaria de petróleo e gás. Mais recentemente, o Exército Árabe Sírio também expandiu a zona sob seu controle na estrada Ethriyah-Raqqah, incluindo dois entroncamentos chaves na área de Tabaqah; esse movimento abre as portas a novos avanços rumo à Síria Central, das forças pró-governo que vêm do norte do país.

A própria ofensiva, e a rapidez com que foi desencadeada foi completa surpresa para todos os observadores da Guerra na Síria. Especificamente, a ofensiva não serviu apenas para acelerar o já rápido declínio do ISIS que se vê ao longo de 2017, mas serve também para bloquear operações que as Forças Democráticas Sírias lideradas pelos EUA possam ter planejado para se expandir pela Síria central via Tabaqah e tomar infraestruturas chaves de petróleo e gás que alimentam áreas centrais do país.

Esses avanços fulminantes refletem uma realidade subjacente da Guerra na Síria, que só muito raramente se vê discutida.

As duas forças militares mais poderosas na Síria durante a maior parte da guerra (até a chegada dos russos) foram o Exército Sírio e a Al-Qaeda. O ISIS e a milícia curda não são inimigos à altura dessas duas forças de combate, e o ISIS só conseguiu expandir-se tão rapidamente em 2014 e 2015, porque o Exército Sírio e a Al-Qaeda estavam ocupados demais combatendo entre eles, para poder oferecer resistência ao ISIS.

Agora que o Exército Sírio já não precisa combater contra a Al-Qaeda nas áreas centrais do oeste da Síria – pelo menos por enquanto –, está encontrando pouca ou nenhuma dificuldade para derrotar o ISIS, onde o encontre.

Esses avanços do Exército Sírio estão transformando o mapa político da Síria. Há apenas alguns meses, o governo sírio perdera o controle sobre grande parte do território sírio; agora, essa situação está mudando rapidamente.

Com duas poderosas colunas de tropas sírias convergindo para a cidade de Deir Ezzor no leste – uma que vem do norte, de Rusafa, outra de Palmyra no centro – há agora real possibilidade de que toda a Síria central, do Mediterrâneo à fronteira do Iraque, volte ao controle do governo sírio.

Quando isso acontecer, os opositores do governo sírio, longe de representarem qualquer ameaça real para o poder democrático na Síria, estarão confinados em enclaves em várias partes do país: um enclave controlado pelos EUA em torno da guarnição isolada de al-Tanf no sul; uma 'zona segura' controlada por turcos no noroeste; a província de Idlib a oeste; e uma larga área curda junto à Turquia no nordeste.

Com o governo sírio já controlando novamente a maior parte do território sírio, área correspondente também à maior concentração populacional, será cada vez mais difícil para os EUA negarem sua legitimidade, e se esse tipo de situação se configurar, os sírios logo estarão em posição muito reforçada para as negociações em curso em Astana e Genebra.

A situação na Síria ainda não é estável. As duas pinças de militares sírios que convergem sobre Deir Ezzor têm nos flancos inimigos poderosos: os EUA no sul, e potencialmente os curdos no norte. Qualquer intervenção deles gera risco de confronto com a Rússia, cujas Forças Especiais e conselheiros acompanham os militares, e cuja Força Aérea garante cobertura aérea às forças em marcha. Sinceramente, não creio que esse confronto chegue a acontecer.

Risco muito maior é que a paz precária e instável no oeste da Síria não suporte a pressão, e que a Al-Qaeda seja reativada e tente tirar vantagem da avançada dos militares sírios rumo leste, para capturar território no oeste.

Mas não poderão fazer isso sem apoio da Turquia, a qual está gravemente escaldada por causa do envolvimento na guerra na Síria, e vai-se tornando cada dia mais preocupada com o apoio dos EUA aos curdos, no norte.

Feitas as contas, por mais que ninguém possa garantir o sucesso de nenhuma política que dependa de o presidente Erdogan da Turquia cumprir os acordos que assinou, mesmo assim creio que predominará o interesse com a autopreservação, o que reforçará a precária paz que há hoje na Síria ocidental.

Se tudo isso se confirmar, é razoável supor que a guerra na Síria esteja caminhando rapidamente para terminar.

O presidente Assad disse repetidas vezes, até em momentos que para ele foram os mais difíceis, que sua intenção sempre foi devolver todo o território sírio de volta ao controle do povo e do governo sírios.


O ocidente reagiu com desconfiança e incredulidade. De repente, o sucesso da determinação do presidente Assad já não parece tão impossível nem tão improvável... 


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