quinta-feira, 6 de julho de 2017

Washington e Berlin em rota de colisão, por Pepe Escobar


Pepe Escobar, SputnikNews

Traduzido pelo coletivo da vila vudu

O que se lê adiante, no artigo de Pepe Escobar, é jornalismo que tem a ver com o mundo real. Enquanto isso, o Brasil estará dedicado a fazer papel RI-DÍ-CU-LO, no G-20.

Alô-alô mundo, podem começar a rir do Brasil 2017 do golpe-com-STF-com-tudo. 
[Atenção especial à parte "única dúvida que persiste" :-)))))))) ]

"O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, e o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, participarão apenas dos dois últimos dias de reunião do G-20. Nos dias 15 e 16, Meirelles irá a um encontro (sic) Instituto de Finanças Internacionais em Frankfurt, também na Alemanha.

De acordo com representantes do governo ouvidos pela Agência Brasil, os sinais de que a recessão acabou e de que a inflação está convergindo para o centro da meta (4,5% em 2017) são inequívocos. A única dúvida persiste na velocidade da recuperação, que dependerá da aprovação de reformas, como a da Previdência e a do trabalho"
 (EBC, Agência Brasil) [NTs].


A nova lei de sanções contra a Rússia aprovada no Senado dos EUA por 98:2 dia 15/6 é uma bomba: demoniza diretamente o gasoduto Ramo Norte 2 (ing. Nord Stream 2), submarino, por baixo do Mar Báltico, previsto para duplicar a capacidade da Gazprom para fornecer gás para a Europa.
gasoduto, de 9,5 bilhões de euros, está sendo financiado por cinco empresas: as alemãs Uniper e Wintershall; a austríaca OMV; a francesa Engie; e a anglo-holandesa Shell. Todas essas gigantes operam na Rússia e já tem, ou logo terão, contratos com a Gazprom.

Material distribuído por Ramo Norte 2 mostra o que diz serem os primeiros grandes dutos para o projeto Ramo Norte 2 numa fábrica da OMK, uma das três fornecedoras desse tipo de tubulação selecionadas pela Nord Stream 2 AG, em Vyksa, Rússia, em foto não datada fornecida à Reuters dia 23/3/2017.

Numa declaração conjunta, o ministro de Relações Exteriores da Alemanha Sigmar Gabriel e o chanceler austríaco Christian Kern destacaram que "o fornecimento de energia à Europa é questão europeia, não dos EUA"; "instrumentos para sanções políticas não devem ser atados a interesses econômicos"; e a coisa toda anunca "um traço novo e muito negativo nas relações Europa-EUA".

Corretor de petróleo no Golfo disse-me, sem meias palavras, que "as novas sanções dos EUA contra a Rússia são simplesmente um 'recado' para que a União Europeia passe a comprar gás caro dos EUA, em vez de gás barato, da Rússia. Basicamente alemães e austríacos já disseram aos americanos que caiam fora."

Fonte importante na inteligência dos EUA, com base no Oriente Médio e dissidente do consenso da Av. Beltway, destaca o modo como "o Senado dos EUA, em votação quase unânime decidiu declarar guerra à Rússia (sanções são guerra) e a Alemanha já ameaçou retaliar contra os EUA se as sanções forem aplicadas.

A Alemanha acusou os EUA de tentar parar a construção do gasoduto Ramo Norte 2 da Rússia para a União Europeia, para que os EUA possam exportar seu gás natural para a UE, o que tornaria a União Europeia dependente dos EUA."

Problema é que há um efeito que pode modificar completamente todo o quadro: "Seria como decretar o fim da OTAN, se começar uma guerra comercial entre União Europeia e EUA."

Obviamente os Brexitistas suspeitos de sempre estão caindo como chuva de raios contra o "gasoduto Molotov-Ribbentrop 2" – mais uma expressão que serve como marca registrada da paranoia polonesa.

Já demonizam até a Alemanha por aceitar negócios com a Rússia, "minando a segurança e os interesses econômicos da Europa Oriental e Central" e – sim, sim, podem rolar de rir! – minando também o "apoio emocional que os EUA dão à OTAN."

É tanta "emoção" que já há inclusive uma sórdida acusação de traição: "Sabemos de que lado está a Polônia. E de que lado está a Alemanha?"

Realmente inesquecível nesse caso todo é que o gasoduto Ramo Norte 2, na prática, enterra em boa hora os $2 bilhões que o estado falhado da Ucrânia espera receber como taxa 'de passagem' do gasoduto.

Todos os velhos suspeitos de sempre são contra o gasoduto Ramo Norte 2: Polônia; estados do Báltico; Washington; mas também os estados nórdicos. O principal argumento oficial é que o gasoduto "fere a segurança energética da União Europeia". Só até aí já é piada-monstro, porque a União Europeia não faz outra coisa além de se autoameaçar e ferir-se em intermináveis discussões sobre "segurança energética" em Bruxelas, há mais de uma década.

Destruição criativa lucrativa, que tal?!

O analista Peter G. Spengler qualifica a lei do Senado como "ato de guerra declarado mas não executado ainda, um ato de guerra (sanções são atos de guerra) contra Alemanha e Áustria diretamente, e indiretamente contra estados que possivelmente receberão o gás russo dentro da UE."

Spengler chama atenção para o Acordo para Cooperação Econômica entre República Federal da Alemanha e a URSS de 1978, previsto para durar 25 anos: "Aquele acordo, com todos os tratados vigentes então entre Alemanha Ocidental e a União Soviética foi a base sobre a qual [Helmut] Kohl pode construir sua 'Haus Europa' [Europa nossa casa] com a União Soviética/Rússia a partir do verão de 1989 em Bonn."

Crucialmente, esse acordo também incluiu um triângulo de transporte de gás entre Moscou, Teerã e Bonn, e foi "combatido furiosamente, mas na mais completa clandestinidade, pelo governo Carter, mais uma dentre tantas guerras silenciosas dos EUA contra a República Federal da Alemanha, naqueles anos."

E adivinhem quem tentava sabotar, 24 horas/dia, de 2ª a 2ª, aquele acordo, naqueles anos? O recentemente falecido "xadrezista de Grande Tabuleiro" e polonês Zbigniew Brzezinski.

Assim sendo, nada mudou muito desde o final dos anos 1970s: é sempre Washington tentando demonizar Teerã e Moscou. A seção da lei do Senado dos EUA relacionada à Rússia é uma espécie de 'lembrei a tempo', acrescido a o que não passava de mais um pacotaço linha duríssima contra o Irã, a "Lei de 2017 Contra as Atividades de Desestabilização empreendidas pelo Irã" [ing. ‘‘Countering Iran’s Destabilizing Activities Act of 2017]" (ao qual se acrescentaram as sanções contra a Rússia).

Tampouco é acaso que as sanções do Senado dos EUA ataquem a energia: essa guerra é subproduto de uma feroz guerra de energia. Mas o que, de fato, o Senado dos EUA está tentando fazer? Podem chamar de "destruição criativa (lucrativa)".

O Senado dos EUA está convencido que o Ramo Norte 2 "fará concorrência às exportações de gás natural liquefeito dos EUA para a Europa". Assim sendo, o governo dos EUA "deve dar prioridade às exportações norte-americanas de recursos energéticos, para criar empregos nos EUA, ajudando aliados e parceiros e fortalecendo a política exterior dos EUA".

Mas nada aí tem qualquer coisa a ver com ajudar "aliados e parceiros": é caso claríssimo de as gigantes norte-americanas de energia se beneficiando de uma ajudinha de seus amigos/fantoches no. É fato de domínio público que as grandes empresas de energia dos EUA doaram mais de $50 milhões em 2015-2016, para eleger aquela gente.

Atenção àqueles fogos de artifício em Hamburgo

Comparado ao que fez o Senado dos EUA, ainda não se viu claramente qual o papel da Comissão Europeia nessa saga, até que tudo se esclareceu – a CE interferirá via um "mandado". Esse "mandado" terá de ser aprovado por "maioria qualificada reforçada" em votação da qual participarão os estados-membors, limiar acima dos usuais 72% dos estados da União Europeia que representam 65% da população.

Spengler observa que "as repetidas tentativas, pela Comissão Europeia, para conseguir meter ponta-pé legal, qualquer que seja ou pareça, nos contratos entre empresas europeias e a Gazprom seriam mais prejudiciais e potencialmente mais eficientes até que uma assinatura presidencial na lei de sanções do Senado (e da Câmara de Deputados."

Assim sendo, a que levará tudo isso? Pode-se dizer que levará a confronto extremamente complexo "entre a Comissão Europeia/Corte de Justiça e a jurisdição alemã/austríaca (plus russa)."

A lei do Senado terá de ser apoiada por maioria à prova de veto na Câmara de Deputados; a votação não acontecerá antes de concluída a reunião do G-20 em Hamburgo. Depois disso estará convertida em lei – assumindo-se que o presidente Trump não a destrua antes.

A questão chave, "de núcleo" é uma cláusula não cogente para que o Tesouro dos EUA aplique sanções àquelas cinco empresas ocidentais envolvidas na construção do Ramo Norte 2. Se a lei for aprovada, o melhor que a Casa Branca poderá fazer será ignorá-la. Se não for assim, Alemanha, Áustria e França interpretarão definitivamente toda a 'operação', como declaração de guerra.

Trump e a chanceler Angela Merkel estarão em muito evidente rota de colisão no G-20, com Merkel dando destaque a discussões sobre mudança climática, refugiados e nada de protecionismo no comércio – para profundo desgosto de Trump. A lei das sanções contra a Rússia apenas se somará a uma confusão infernal. Esperem muitos fogos de artifício, que "celebrarão" os encontros bilaterais em Hamburg.


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