quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

ISIS derrotado na Síria e no Iraque, e al-Qaeda nas cordas: Política exterior dos EUA reincendiará o extremismo



Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu

O "Estado Islâmico" (ing. ISIS) foi derrotado no Iraque e na Síria, apesar de ainda restarem uns poucos bolsões táticos. Mais importante, depois da decisão da comunidade internacional e dos outros países na região de pôr fim à guerra na Síria, al-Qaeda enfrenta lutas internas, tendo de, ao mesmo tempo reconhecer a derrota e aceita a impossibilidade de mudar o regime na Síria e dividir o território do Iraque. 
Significa que o extremismo sangrento que atingiu o Oriente Médio estaria superado e nunca mais voltará? Será que organizações terroristas sabem se auto-reformatar, inventar novas griffesou recuperar o controle que um dia tiveram?
Al-Qaeda encontrou terreno fértil no Afeganistão depois do fim da ocupação pelos soviéticos nos anos 80s. Viveu "resplandecente era de ouro" até os anos 2000s, atacando vários objetivos dos EUA e bases no Oriente Médio. A invasão do Iraque em 2003 pelos EUA e a presença de dezenas de milhares de soldados norte-americanos em solo na Mesopotâmia ofereceu cenário perfeito, depois do Afeganistão, para a proliferação de extremistas jihadistas no Oriente Médio.

Al-Qaeda no Iraque metamorfoseou-se nessa organização mais letal e sedenta de sangue, o ISIS, depois da guerra imposta à Síria, ocupando metade do país e um terço do Iraque. Tornou-se conhecida como ISIS, comandado por Abu Bakr al-Baghdadi, um dos muitos graduados (presos e adiante libertados) da "Jihadist University" norte-americana, instalada no campo Buca de prisioneiros.

Baghdadi passou a trabalhar como mestre de Ijtihad, legalizando o saque, o massacre de outros muçulmanos e de não muçulmanos, o estupro, e reintroduzindo o mercado de escravos. Servindo-se de sistema altamente sofisticado de comunicação e especialistas em mídias sociais, o grupo de Baghdadi conseguiu atrair recrutas da Palestina, Líbano, Jordânia, Egito, Iraque, Síria, Kuwait, Bahrein, Arábia Saudita, Líbia, Tunísia, Argélia, Mauritânia, Iêmen, de toda a África, muitos europeus e outros, dos mais diferentes ponto do planeta. Os recrutas chegavam atraídos pelo dinheiro, pela aventura, procurando onde viver, em busca de casamento fácil, acompanhando um parente ou um amigo; outros foram convencidos pela causa e chegaram ansiosos para viver num "próspero Califato Islâmico".

Baghdadi misturou com seu chamado, e com avançadas ferramentas de comunicação, lado a lado, intelectuais e não intelectuais. Todos responderam positivamente a ele, criando a maior união de pessoas dispostas a abraçar a Jihad jamais vista em tempos modernos. As fronteiras eram abertas para oISIS via Turquia, Jordânia, Arábia Saudita e Líbano para todos quantos quisessem unir-se àquele grupo de "Jihad", para negócios comerciais, de petróleo e de armas. Todos os tabus foram suspensos, a favor de uma só causa: mudar o regime sírio.

Qual foi o plano? Substituir o governo secular do presidente sírio por Emirados ou Estado Islâmico? Ou instalar algum "Estado Islâmico" de-facto com mínima experiência de governo e nenhum aliado de peso e fácil de derrotar, para expulsar a Rússia da base naval de Tartus (nos termos de um acordo de 1971 com a Síria, a Rússia fez um contrato de leasing para as instalações de Tartus, como parte do cancelamento de uma dívida multibilionária) e proteger Israel contra ataques vindos do "Eixo da Resistência"? Pois é. 

Essa parece ser a única possibilidade, dado que assistimos hoje à decisão dos EUA de ocupar ¼ do território sírio e de considerar unilateralmente Jerusalém como "Capital de Israel", ameaçando todos que se interponham. Essa ideia explica também por que a Arábia Saudita desejava tão ansiosamente ver Irã e Assad derrotados, para benefício daqueles extremistas mandados pelos sauditas e financiados com bilhões de dólares para vencer e, na sequência, acampar para sempre nas fronteiras de Israel.

O plano de EUA-UE-sauditas-Qatar-Turquia-Israel falhou. E Síria, Irã, Rússia e o Hezbollah venceram. Mas significa que os jihadistas Takfiridesaparecerão? A resposta é, simples e infelizmente, "não!"

Baghdadi não inventou qualquer novo Islã. Sua fonte de inspiração são livros que se encontram à venda em praticamente todas as livrarias islâmicas em todo o mundo, conclamando leitores a se pôr a matar outros muçulmanos e não muçulmanos conforme uma muito específica interpretação do livro santo, o Corão, e dos Hadith. De fato, como poderiam esses Takfiri desaparecer, quando livros que pregam o discurso de ódio, a matança e a intolerância continuam tão amplamente acessíveis?! Listo apenas uns poucos: Millat Ibrahim, de Abu Mohammad al-Maqdisi; Gestão da selvageria de Abu Bakr Naji; Ma’alim fi al-tariq de Sayyid Qutb; Kitab al-tawhid de Muhammad bin Abdel-Wahab; Fusul fil-Imama wal-Bay’a de Abu Munser al-Sharqiqi; Masael fi Fikh al-Jihad de Abu Abdallah al-Muhajer; Maalem al-taifa al-Mansura de Maysara al-Ghareeb; Rafa’ al-Iltibas de Mohamad Al-Atibi; Fatawi Ibyn TaymiyahKitab al-Tawhid e Kitab al-kabaer de Mohamad bin Abdel Wahhab; e muitos e muitos mais...

É verdade que os Jihadistas estão mesmo perdendo o Levante e a Mesopotâmia. Mas também operam no Sinai (Egito), Afeganistão, Iêmen, Somália, Nigéria e na Ásia. Matar jihadistas não é difícil. Mas a ideologia permanece viva e pode causar dano em cada uma e em todas as cidades: as ferramentas e ideias são amplamente acessíveis, para converter um ser humano normal e pacífico em besta fera à caça de outros para assassinar. 

Além do mais, a política exterior dos EUA é um dos mais poderosos incentivos para que essa ideologia permaneça viva. Parece que os EUA realmente nunca aprendem com os próprios erros; ocupar terra de outros sempre significa que, mais cedo ou mais tarde, haverá armas dedicadas a defender interesses violentados e contra um ou outro estado associado de um ou de outro lado, em todo o mundo.

A política exterior dos EUA em anos recentes foi um impressionante total fracasso:


·         O fracasso da partição do Iraque por artes do referendum curdo enfraqueceu EUA e Israel.
·         A luta entre Arábia Saudita e Qatar fortaleceu o Irã e enfraqueceu a Arábia Saudita, cega aliada dos EUA.
·         O crescimento do ISIS no Iraque criou as al-Hashd al-Sha’bi (Unidades de Mobilização Popular) e deu mais poder ao Irã e ao Hezbollah na Síria.
·         Hezbollah tornou-se força regional que ameaça agora diretamente Israel e também interesses de EUA e parceiros no Oriente Médio.
·         A política exterior dos EUA na Ucrânia que visava a ampliar a OTAN e o desinteresse e negligência dos EUA que não se esforçaram para eliminar o ISIS na Síria e no Iraque permitiram que a Rússia avançasse e abocanhasse pedaço enorme da área de controle e influência dos EUA no Oriente Médio.
·         O presidente Assad é hoje muito mais forte do que em qualquer momento antes da guerra, disposto a encarar perdas e a confrontar Israel se for necessário.
·         O fracassado golpe de Estado contra Erdogan empurrou a Turquia para longe dos EUA e para mais perto de Rússia e Irã: Erdogan já está novamente querendo reunir-se com o presidente Assad, disposto a deixar para trás as diferenças que havia.
·         O sequestro do primeiro-ministro Saad Hariri do Líbano, pelos sauditas, feriu gravemente as relações do reino com muitos dos sunitas no Líbano e empurrou Hariri, que sempre foi pró-sauditas, para mais perto do Hezbollah.
·         No Iêmen, Ali Abdallah Saleh será lembrado como alguém que traiu os Houthis e morreu nas mãos de aliados do Irã, quando tentava fugir.
·         E, por fim, os EUA tornaram-se ex-parceiros hoje rejeitados no processo de paz palestino, depois da decisão de Trump de declarar capital de Israel, a capital da Palestina. Trump caiu como maná para o Irã e o Hezbollah, quando trouxe de volta a causa palestina para o centro do palco, depois do grave dano que o ISIS infligiu a ela em anos recentes. Embora Israel já estivesse ocupando Jerusalém e escavando o subsolo da cidade e seus locais sagrados, a aberta decisão dos EUA inverteu a bússola de todos os jihadistas, que hoje se voltam contra Israel; e uniu a maioria dos árabes, todos na luta pela mesma causa, ainda que nem todos creiam nela integralmente.

Desde que o presidente Trump assumiu o poder, sua estranha aliança com a Arábia Saudita fez substituir o "inimigo israelense" pelo "inimigo iraniano". Ainda assim, sua tentativa fracassada criou um contraefeito, pelo qual o prestígio dos sauditas já chega ao fundo do poço, ao mesmo tempo em que a influência do Irã no Oriente Médio cresce à velocidade da luz – o país guiado há 29 anos por Said Ali Khamenei de 78 anos de idade.

Khamenei dispara medo pânico no coração de seus inimigos e goza do apoio de seu próprio povo cada vez que fala. O Líder Supremo – com qualquer simples gesto ou ao assumir uma posição político – é sempre obedecido pelos iranianos e ocupa hoje o topo de uma sólida estrutura de poder e governo, indiferente aos ferventes anseios do ocidente que insiste em sonhar com derrubar sua República Islâmica. Khamenei fez seu país andar na direção de novos horizontes, com sólidas ramificações no Líbano, Síria, Iraque, Iêmen e Afeganistão: muito do crédito por esses sucessos de Khamenei cabe à trôpega política externa dos EUA.


Parece que os EUA viraram especialistas em arrancar a derrota, das garras da vitória.



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