quinta-feira, 8 de março de 2018

Em Goutha: Guerra "Fria" dos EUA contra a Rússia para dividir a Síria, por Elijah J. Magnier



Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu

Está em curso na Síria uma guerra global entre EUA e Rússia, que atende pelo nome de "Situação humanitária em Ghouta", leste da capital síria, Damasco. É guerra suja, na qual se permitem todos os golpes baixos, os mais violentos, o que implica dizer que nenhuma das grandes potências aceitará a derrota.

Sim, há uma crise humanitária em Ghouta leste, e também em Kfariya e Al-Fo’a, que estão sob sítio desde o início da guerra, como aconteceu em Aleppo e na cidade de Al-Raqqah. A guerra cobra antes e sobretudo a vida de civis que não têm refúgio e estão à mercê das forças insurgentes: são as vítimas desse conflito internacional cujo campo de combate é a Síria, e assim tem sido já há sete longos anos.

Há dezenas de milhares de habitantes em Ghouta leste, cuja população foi estimada pela ONU em 400 mil pessoas. Vale observar que todas as estatísticas distribuídas pela comunidade internacional – inclusive pela ONU – sobre todas as cidades sírias nas quais a mídia-empresa dominante lançou sua tal campanha de "resgate" foram exageradas. É o caso de Quseyr, Madaya, Aleppo e muitas outras cidades nas quais a tal "campanha humanitária" é movida pelo conflito central entre as superpotências, suas políticas e seus conflitos de interesse.

Panfletos lançados sobre al-Ghouta pelo Exército Árabe Sírio, indicam corredores seguros para saída de civis.
O governo sírio anunciou que abriu – como os governos de EUA e Iraque também fizeram nas cidades de Mosul, Tikrit, Ramadi, Hawija e outras – corredores seguros para a saída de civis, antes do início do grande assalto por terra contra os terroristas. Também é preciso registrar a diferença entre as batalhas que se travam hoje, e a guerra moral na Síria e no Iraque.

Nesses dois países, Iraque e Síria, o 'Estado Islâmico' (ISIS) passou a ser organização órfã, mas abriu caminho para que os EUA atacassem por ar a antiga cidade de Mosul e cercasse a cidade síria de Raqqah, matando grande número de civis cujos corpos permanecem até hoje entre os escombros. 

Ao que se pode ver ali claramente, as forças dos EUA têm total liberdade para prosseguir com assassinatos em massa ou destruição total de cidades, sem que o mundo seja perturbado por campanhas jornalísticas de condenação universal contra os soldados do Tio Sam – sequer por alguma leve indignação cenográfica, que fosse. 

Ao longo da história, o mundo sempre assistiu ao envolvimento dos EUA em suas incontáveis guerras, que deixaram centenas de milhares de cadáveres (exemplos recentes são o Afeganistão e o Iraque). E vale a pena notar também que se estabeleceram corredores seguros em Anbar e Salahoddine (Iraque) e em Raqqah, onde nem os terroristas do ISIS impediram que os civis saíssem da cidade.

Em Ghouta porém, os corredores seguros que o governo sírio abriu e ofereceu à população civil não ajudaram na saída dos moradores de Ghouta leste, impedidos pelos jihadistas dos grupos "Faylaq al-Rahman"(FAR), Ahrar al-Sham (AAS) e "Al-Qaeda" (AQ), na linha de demarcação frente ao Exército Sírio; e o "Exército do Islã" controla de Duma no norte, até Salhia no sul. Harasta, Zamalek e Ein Tarma estão sob controle de jihadistas (FAR, AAS e AQ) que impedem os civis de buscar abrigo longe de al-Ghouta, não raras vezes a tiros, para impedir que deixem a área. 

É 'natural' nessas áreas que os civis sejam considerados escudos humanos: Al Qaeda e aliados confiam muitíssimo na campanha dos EUA e no apoio que recebem das empresas jornalísticas e dos jornalistas que parecem ter todos o mesmo objetivo (impedir que civis deixem a cidade; e manter al-Ghouta sob controle dos jihadistas).

O Conselho de Segurança da ONU, 15 membros, aprovou a Resolução n. 2.401 que exige que todos os lados "cessem as hostilidades por no mínimo 30 dias e permitam a chegada de comboios de ajuda humanitária até as localidades sitiadas, com evacuação médica para os mais gravemente doentes e feridos". Mas "ficam excluídos [do cessar-fogo]"a al-Qaeda (e o ISIS) e todos os grupos terroristas" que controlam parte de al-Ghouta e a cidade e área rural de Idlib. 

Essa 'resolução para cessação de hostilidade' é fantasiosa e com absoluta certeza não durará.

Documento do Conselho de Segurança da ONU

O objetivo dos EUA é manter a capital Damasco sob ameaça constante – motivo pelo qual a cidade é atacada diretamente por foguetes e mísseis. A cada ataque, jornais e jornalistas a serviços dos EUA enviam um 'sinal' à opinião pública mundial de que o governo sírio não estaria protegendo a própria população no coração da capital. A partir desse noticiário, incansavelmente repetido, jornais e jornalistas 'informam' que a Síria não teria como assegurar proteção a nenhum pessoal diplomático ou organizações internacionais que estejam cogitando de permanecer ou planejando estabelecer relações com o Estado sírio. Esse é o primeiro objetivo da atual campanha militar dos EUA contra as populações locais e a correspondente campanha jornalística para influenciar a opinião pública.

O segundo objetivo é manter Damasco sempre ameaçada, para assim mostrar o fracasso de todos os esforços dos russos para pôr fim à guerra na Síria usando suas zonas de desescalada e desconflitação. Funcionários do governo Trump falam das conversações de paz de "Sochi" e "Astana" como se fossem fracasso já consumado, para minar todos e quaisquer esforços de paz e todas as iniciativas dos russos, para pacificar a região. É uma tática para manter a pressão sobre Moscou, muito interessada em esfriar o conflito e eliminar a al-Qaeda na Síria – principal objetivo declarado dos russos esse ano, como funcionários do Kremlin repetiram várias vezes.

O terceiro objetivo é proteger a al-Qaeda, para manter vivo o espectro do terrorismo e da guerra na Síria, para assim 'justificar' a ocupação do nordeste da Síria por forças dos EUA, porque, persistindo a ameaça terrorista, a presença dos EUA seria indispensável para dar combate à al-Qaeda e aoISIS (que estão na mesma região que os EUA ocupam, no campo de Yarmouk ao sul de Damasco, e no sul da Síria, sob o patrocínio e com pleno apoio de Israel).

Os EUA não sairão do nordeste da Síria – ao contrário do que disse o presidente Donald Trump, que já perdeu qualquer credibilidade que talvez tenha tido): Trump conseguiu a marca de 2.000 promessas não cumpridas só no primeiro ano de atuação na Casa Branca. Há aeroportos e bases militares das quais ninguém no mundo pode forçar os EUA a sair, nem pode impor regras para a presença desses exércitos de ocupação 'disfarçados' (o que também é verdade em áreas próximas à Turquia e ao Iraque).

Além disso, há informações de que jatos israelenses pousaram várias vezes nessas bases aéreas norte-americanas na área da Síria que os EUA hoje ocupam – território equivalente aproximadamente a quatro vezes a área do Líbano, vizinho próximo. Israel tem a melhor força aérea do Oriente Médio, mas essa força está concentrada em área muito pequena, o que a torna alvo fácil para os mísseis do Irã e do Hezbollah, no caso de guerra. Assim, as bases dos EUA entre sírios curdos são uma espécie de proteção, uma garantia e um ponto de partida estratégico para Israel, da qual sua força aérea poderia atingir qualquer alvo na Síria, Líbano e Iraque, ou conduzir qualquer operação de inteligência que deseje contra países próximos.

No Iraque, as "Unidades de Mobilização Popular" [ing. "Popular Mobilisation Units" (PMUs)] rejeitam a presença dos EUA em várias bases no país. Essas unidades – segundo fontes de alto escalão dentro das PMUs – têm mísseis terra-ar que podem derrubar qualquer avião militar dos EUA no momento da decolagem ou do pouso, o que será feito no caso de os EUA permanecerem por muito mais tempo na Mesopotâmia.

Nessas circunstâncias, o Iraque pode não ser o melhor lugar para que forças dos EUA fixem suas bases, se comparado com o nordeste da Síria, onde nenhuma regra pode conter os movimentos de Washington e onde tudo é permitido em "território ocupado". A mesma aparente imunidade dos EUA valeria contra a Turquia, um dos principais estados-membro da OTAN, que vê no apoio dos EUA aos curdos de Kobani, al-Hasakah e Deir al-Zour uma ameaça à própria segurança nacional.

O quarto objetivo é a presença de petróleo e gás em grandes quantidades (quase 11%-12% de todas as reservas de energia da Síria) no território ocupado no nordeste da Síria (47% em al-Badiya, 38% no litoral sírio, 2% em Aleppo e 2% na área do Golan não ocupado por Israel). Essa área é extremamente rica; aí vivem menos de 10% dos árabes sírios e curdos; mas o território equivale a cerca de 24% da área geográfica da Síria.

Os EUA não precisam de altos orçamentos para revitalizar a região. A única coisa que lhes interessa é construir bases militares e aeroportos e garantir meios para que as petroleiras dos EUA assaltem e explorem o petróleo e o gás dessa parte da Síria. Sob a fantasia de "exigências locais" (de tribos curdas e árabes que vivem na área) para reconstruir a infraestrutura local e melhorar as condições de vida da região, os EUA arranjarão fonte interessante de riqueza a ser saqueada, o que atende bem à sempre ativa obsessão financeira de Donald Trump.

Aos EUA interessa aquecer a Guerra Fria contra a Rússia, o que está sendo feito a partir de Ghouta leste. Pouco preocupam aos norte-americanos os clamores da ONU para que os EUA parem de destruir Raqqah, e já atropelaram resoluções internacionais que não serviam aos interesses norte-americanos, incontáveis vezes, desde a criação da ONU. Não se trata de "salvar al-Ghouta", EUA estão declarando uma "guerra fria" contra a Rússia.

Forças dos EUA controlam hoje uma vasta porção de território sírio que não podem sonhar que consigam controlar por mais de 50 anos. De início, Washington usou, como pretexto para sua presença, a "necessidade de bloquear o corredor Teerã-Bagdá-Damasco-Beirute". Esse corredor continua aberto, inobstante a presença dos EUA em al-Tanf, Hasaka e Deir al-Zour. 

Hoje, EUA e aliados dizem – jogando cinzas nos nossos olhos – que o Irã seria "o maior e único perigo no Oriente Médio e talvez no mundo". Nada disso. O único objetivo real dos norte-americanos é fazer-não-ver o crime que é a ocupação norte-americana de território sírio.

Washington diz que "Irã contribui para aumentar a população de migrantes internos, todos sírios, em Al-Ghouta", mas a verdade é que só o exército sírio participa dos combates e mais de 1.700 famílias já retornaram a Zabadani (5 mil famílias devem voltar em menos de um mês, quando se espera que estejam concluídas as operações de reconstrução das moradias) – como parte do programa de reconciliação nacional.

Em Ghouta leste, dezenas de milhares ou mesmo várias centenas de milhares de civis sitiados estão sob bombardeio e cerco. Por outro lado, alguns milhões de sírios em Damasco são atacados diariamente por jihadistas vindos de al-Ghouta. A Rússia exigiu cessar-fogo na guerra na Síria, condicionado à retirada de todas as tropas estrangeiras cuja ajuda não tenha sido legalmente requerida pelo governo sírio, para assim pôr fim à guerra em Ghouta e na Síria em geral. 

A paz, mesmo precária é impossível, enquanto EUA e Turquia estiverem como forças ocupantes na Síria. E nada sugere que pensem em sair no futuro próximo. Mais provavelmente, farão rachar o país.

Diz-se que Al-Ghouta é a última batalha que a 'oposição' consegue lutar. Daí que esse último bastião da 'oposição' está convertido em uma das cartas derradeiras e por isso muito importantes, que os EUA podem ainda jogar e atingir a Rússia, caso os russos cedam às pressões internacionais e dos jornais e jornalistas pró-EUA.

Fato é que a Rússia pôs a perder o principal plano que o Ocidente conseguiu conceber, com Arábia Saudita e Qatar na Síria. Os russos impediram que osTakfiris ocupassem Damasco e, também, que chegassem a Beirute, no Líbano.

Assim se explica por que, para os EUA, tornou-se impossível desistir, mesmo depois do completo fracasso de seu objetivo inicial, de derrubar o governo do presidente Bashar al-Assad. A vitória dos russos naquela região trouxe de volta a "atmosfera de guerra fria". Os EUA tentam manter essa atmosfera pelo tempo mais longo possível, sobre todo o Oriente Médio, pelo menos até o fim do próximo verão – que será quente.


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