sexta-feira, 9 de março de 2018

Mais uma guerra perdida: Ameaças dos EUA já não abalam o Paquistão, por MK Bhadrakumar


MK Bhadrakumar, RediffNews
Se o plano dos EUA é usar a plataforma Força Tarefa de Ação Financeira, FTAF, para isolar o Paquistão e impor-lhe sanções, não funcionará, agora que países influentes como Turquia, Irã, Arábia Saudita, China e Rússia não apoiarão a campanha dos EUA'.
Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu

Entreouvido na Vila Vudu:

Tudo isso ajuda a compreender o desespero com que CIA-FBI e Wall Street atiram-se hoje sobre a carniça-Brasil que o governo dos escroques, amparado no STF-com-tudo, rastejantes, lhes entregaram.
Movimento concertado entre EUA e aliados ocidentais para pôr novamente o Paquistão na lista de países 'em observação' da chamada Força Tarefa de Ação Financeira, FTAF [ing. Financial Action Task Force, FATF] parece tirado de um auto medieval – drama alegórico no qual Washington apareceria como exemplo de moralidade.

Para os não iniciados, essa FTAF é cria do G-7, concebida em 1989 para, supostamente, estudar e monitorar métodos de lavagem de dinheiro e aferir a conformidade.

Em décadas mais recentes, a tal 'força tarefa' converteu-se em observatório do terrorismo internacional e instrumento do Ocidente para ter jurisdição sobre algum suposto 'financiamento do terrorismo'.

O Paquistão, como muitos países, viveu entrando e saindo da lista de 'observação' da FTAF desde 2008. Até, curiosamente, recebeu um prêmio em 2013, por ter feito 'progresso suficiente' e desde 2014 foi tirado da lista 'negra'.

O movimento para reinserir o Paquistão na lista de 'observação' tem natureza política no atual contexto, quando os EUA estão montando instrumentos coercitivos para pressionar Islamabad a cooperar com a estratégia do governo Trump para forçar uma solução militar para a guerra do Afeganistão.

Dito de outro modo, trata-se de mais uma instância dos padrões dúbios que o Ocidente adota para questões de terrorismo internacional.

Há portanto sangue nas mãos dos EUA por conta do apoio clandestino que os norte-americanos dão a grupos extremistas na Síria, inclusive ao Estado Islâmico. Mas a dita força tarefa, FTAF, não moveu uma palha.

Especificamente, a Rússia acusou abertamente que os EUA sustentam financeiramente a Frente al-Nusra, afiliada da al-Qaeda na Síria, grupo que está listado pelo Conselho de Segurança da ONU como organização terrorista, no norte da Síria e é usado pelos combatentes do ISIS para arrancar para os EUA uma 'zona de influência' ao longo do rio Eufrates.

Turquia, aliada da OTAN, diz que a milícia curda na Síria seria franqueada do PKK (que os EUA também classificam como organização terrorista) e, mesmo assim, o Pentágono a usa como seu 'representante' local nos campos de morticínio no norte da Síria tentando derrubar o governo sírio e seus aliados.

Ainda recentemente na 3ª-feira, 20 de fevereiro, o ministro de Relações Exteriores da Rússia Sergey Lavrov repetiu a acusação de Moscou e Teerã de que os EUA estão secretamente transferindo os combatentes do ISIS de Síria e Iraque para norte e leste do Afeganistão, nas regiões de fronteira de frente para a Ásia Central.

Claramente, os padrões dúbios do Ocidente estão infligindo dano colossal à luta contra o terrorismo internacional.

Não é só que os EUA sirvam-se de padrões variáveis conforme o caso, mas também usam cinicamente o terrorismo, como instrumento para promover suas estratégias globais e regionais.

Dito em poucas palavras, o terrorismo está sendo usada como uma segunda ferramenta, como os direitos humanos, para a consolidação da hegemonia dos EUA na política mundial. Observem o tom de profundíssima indignação do Departamento de Estado, falando sobre a situação nas Maldivas na sua mais recente declaração, de 20 de fevereiro passado:



"Os EUA manifestam seu desapontamento ante notícias de que o presidente Yamin da Maldivas prorrogou o estado de emergência naquele país por mais 30 dias.

Os EUA continuamos a insistir para que o presidente Yamin ponha fim ao estado de emergência, restabeleça o estado de direito, permita o pleno funcionamento do Parlamento e do Judiciário, restaure as garantias constitucionais do povo das Maldivas, e respeite as obrigações e compromissos internacionais das Ilhas Maldivas no campo dos direitos humanos."



Por que diabos o governo Trump não mostra o mesmo empenho em relação aos direitos humanos do povo da Palestina, e manifestam o mesmo 'desapontamento' ante as ações bestiais do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu?!

Claro que nunca acontecerá, porque a classe política dos EUA respira movida pelo dinheiro dos judeus ricos, que lhes garantem patrocínio e apoio nas eleições.

Estando o jogo nesse ponto, à beira do mais repugnante cinismo, a comunidade internacional fez bem ao denunciar o blefe que os EUA tentaram aplicar contra o Paquistão, na reunião da FTAF em Paris, nos dias 22-23 de fevereiro.

O xis da questão é que não se pode 'politizar' a luta contra o terrorismo, porque a politização cria terroristas 'do bem'. É indispensável condenar uniformemente todos os terrorismos e terroristas –, seja na Palestina, na Síria, no Afeganistão, em Xinjiang ou na Cachemira.

Em segundo lugar, a luta contra o terrorismo a nada levará enquanto não se enfrentarem as causas que estão nas raízes do terrorismo.

Em terceiro lugar, essa luta tem de ser item da governança global – o que equivale a dizer que é luta a ser feita a partir da plataforma da ONU.

A FTAF é coisa do passado, do tempo em que o G-7 mandava e desmandava na ordem mundial. Hoje, o G-7 é triste relíquia do passado.

De fato, as próprias credenciais da França para hospedar a FTAF são muito suspeitas, dado o currículo sanguinolento da 'metrópole' nos países francófonos e na Líbia. Interessante acrescentar que há hoje forças especiais francesas operantes dentro da Síria, com a missão explícita de incendiar os conflitos.

Assim sendo, não chega a ser surpresa que o Paquistão tenha-se apressado a se alistar ao lado das forças que trabalham para cortar o movimento dos EUA contra o país, na reunião da FTAF em Paris.

Até a Turquia, aliada dos EUA na OTAN, e a Arábia Saudita, parceira chave dos EUA no Oriente Médio, opuseram-se ao movimento dos norte-americanos. Para nem falar de China e Rússia.

O que emerge desse sórdido drama que se desenrolou em Paris é que o movimento dos EUA tentando isolar o Paquistão está-se tornando contraproducente.

Por outro lado, o movimento de propaganda na FTAF deixou ver que a capacidade dos EUA para manobrar as políticas paquistanesas está chegando ao extremo fundo rochoso mais impenetrável. Interessante: análise publicada no início da semana pelo prestigioso think-tank britânico de inteligência Royal United Services também chegou à mesma conclusão:



"Os militares paquistaneses estão perfeitamente preparados para enfrentar quaisquer cortes na ajuda militar que recebem dos EUA e possíveis ameaças de que forças dos EUA cruzem a fronteira, e sentem que o reconhecimento global e a reputação de seus próprios esforços antiterrorismo, e o papel dos militares paquistaneses nessa luta, são muito diferentes do que foram em 2001.

Agora, no início de 2018, são os norte-americanos que precisam do Paquistão, não o contrário. O secretário de Defesa dos EUA Jim Mattis já disse que está em contato com militares paquistaneses, uma vez que sem eles as forças dos EUA não conseguem movimentar o equipamento nem sobreviver no Afeganistão sem saída para o mar.

Se para alguma coisa serviu o tuíto de Trump, mostrou ao Paquistão o quanto errou ao confiar nos EUA durante 70 anos. Os paquistaneses garantiram apoio logístico e em combate, numa guerra da qual os EUA não sabem o que fazer."[1]



Por outro lado, se o plano dos EUA é usar a plataforma Força Tarefa de Ação Financeira, FTAF, para isolar o Paquistão e impor-lhe sanções, também não funcionará, dado que países influentes como Turquia, Irã, Arábia Saudita, China e Rússia não apoiarão os norte-americanos.

E, por fim, se a intenção dos EUA é inventar alguma nova iniciativa regional contra o Afeganistão, semeando a discórdia entre estados regionais, nesse ponto de inflexão nessa guerra que se arrasta há 17 anos... é ideia que não passa de delírio desejante, porque a opinião regional dominante é que um processo de reconciliação nacional no Afeganistão é imperiosa necessidade e absoluta prioridade no interesse da segurança regional.

A visita de trabalho que fez essa semana a Moscou o ministro de Relações Exteriores do Paquistão Khwaja Asif indica que começam a ganhar impulso os esforços na direção de construir uma iniciativa de conversações internas no Afeganistão.

Paradoxalmente, o drama da "Iniciativa Financeira" – o fracasso do governo Trump, que não conseguiu mobilizar a opinião da comunidade internacional contra o Paquistão – pode acabar por servir a objetivo produtivo, ao chamar a atenção para a nova realidade geopolítica, com os EUA completamente isolados no projeto de reincendiar a ação militar e a guerra no Afeganistão.*****




[1] "O relatório diz que, no que tenha a ver com ajuda militar que os EUA dão ao país, da qual o Paquistão é dependente, as palavras do porta-voz do Exército Paquistanês, major-general Asif Ghafoor resume a posição do Paquistão: 'o Paquistão jamais combateu por dinheiro, mas pela paz.'



Como aliado militar, o Paquistão mostrou-se mais útil e produtivo que qualquer dos aliados dos EUA na OTAN, e nada indica que o Paquistão venha a perder importância na região em futuro próximo – o relatório concluiu". ('Doutrina [do general] Bajwa ajuda o Paquistão a resistir aos EUA (relatório)', 17/2/2018, Pakistan News) [NTs].


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