terça-feira, 6 de março de 2018

Rota da Seda de Xi chegou para ficar, por Pepe Escobar


Pepe Escobar, Asia Times

Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu

Bastaram duas frases para Xinhua noticiar fato histórico relevante: o Comitê Central do Partido Comunista Chinês "propôs remover a expressão 'o presidente e o vice-presidente da República Popular da China governarão por no máximo dois mandatos consecutivos', da Constituição do país".

Tudo será confirmado ao final da próxima sessão do Congresso Nacional do Povo que se iniciará semana que vem em Pequim.

Seguiu-se a devida tempestade geopolítica made in Ocidente: a infalível condenação do "regime" e o "renascimento autoritário" e todo o espectro da demonização de praxe do "ditador vitalício" e de "o novo Mao". É como se o Novo Imperador estivesse assumindo o chicote para dar início a neo-iminentes Grande Fome, Revolução Cultural e Tiananmen, num combo.

Compare-se essa histeria com o que disse o conhecido eminente professor de Relações Internacionais na Universidade Renmin, Shi Yinhong, que tentou introduzir na conversa um pouco de realpolitik: "Por muitos anos adiante, no futuro, a China continuará a avançar seguindo o pensamento de Xi, a rota que ele traçou, seus princípios-guia e sua liderança absoluta."

Os capitães de indústria da economia global, velhos e novos, tem muito melhores barbatanas de tubarão para consumir, do que se deixarem constranger pelo jogo rasteiro da política ocidental ocupada em demonizar a China. O turbocapitalismo – com ou sem "características chinesas" – absolutamente nada tem a ver com a democracia liberal ocidental. O Pequeno Timoneiro Deng Xiaoping introduziu uma "terceira via" real: proficiência econômica combinada com controle político. Deng, por falar dele, aprendeu o que sabia de um homem forte de Cingapura, Lee Kuan Yew – queridinho do Ocidente.

Xi incorpora a garantia de que a China precisa para levar adiante, com a mínima turbulência possível, um muito necessário expurgo anticorrupção, para podar os muitos ramos apodrecidos do PCC, ao mesmo tempo em que move o timão na direção de uma reorientação econômica também muito necessária, que visa a beneficiar, sobretudo, o proletariado rural chinês.

Além disso, Xi já está na liderança internacional dos movimentos no campo da mudança climática, proliferação nuclear, para nem falar do realinhamento do comércio global, chamado globalização 2.0.

E assim voltamos às tentativas infantiloides do Ocidente, para desqualificar as Novas Rotas da Seda, conhecidas como "Iniciativa Cinturão e Estrada, ICE, chamando-as de "inchadas", além da gritaria de que a ICE estaria enfrentando "retrocesso global". No máximo, percebe-se rapidamente tudo com que o Ocidente sonha e alucina.

No mundo real, o que está acontecendo é que o governo Trump tenta pôr em pé uma anti-ICE com a ajuda dos Quatro (EUA, Japão, Índia e Austrália) – mas que nada tem do charme transnacional e transcontinental que tem a Iniciativa Cinturão e Estrada, para nem falar do dinheiro.

O Japão faz barulho sobre uma contrainiciativa afro-asiática, de $200 bilhões. A Índia centraliza sua ofensiva num negócio com o Irã, para que o porto de Chabahar consiga competir com Gwadar. O governo Turnbull na Austrália, com seu Documento de Política Externa de 2017, aposta pôr os EUA contra a China. E o almirante Kurt Titt, comandante do Southcom, choraminga feito carpideira, com outros oficiais militares, que a ICE ameaça a influência dos EUA.

Xi, assim como o presidente Vladimir Putin da Rússia, identificaram muito claramente de que lado sopram os ventos, com Washington a esbravejar contra ambas, China e Rússia, chamando-as de "potências revisionistas" e indubitável ameaça estratégica.

A dinastia Tang encontra Platão

Xi pode agora converter-se em versão pós-moderna de um imperador Tang ilustrado. Mas também entra em cena como Platão reincorporado – rei filósofo que governa amparado nos melhores e mais brilhantes (pensem em Liu He, diretor do Gabinete de Coordenação Central de Assuntos Financeiros e Econômicos, e principal homem de Xi para a política econômica).

O Partido Comunista Chinês, como a República de Platão, concluíram que, sim, tudo é questão de gestão. O impulso titânico da China para fazer avançar o próprio modelo econômico simplesmente nunca estará completado antes, no mínimo, de 2030. Dentre os desafios, há o trabalho de gerenciar a transição das empresas públicas [ing. state-owned enterprises (SOEs)]; o movimento na direção do aumento do PIB de valor agregado; o trabalho de organizar a China como grande sociedade de consumo; e de conter o aumento dos riscos financeiros.

Por tudo isso, são chaves, agora, a consistência e a continuidade.

Xi não fez segredo de seus principais movimentos. O Sonho Chinês – a China como nação estável, de renda média. A Iniciativa Cinturão e Estrada como vetor de conectividade, integrando, não só a Eurásia, mas também a África e a América Latina. A influência crescente do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura, e a Organização de Cooperação de Xangai. Garantir a segurança do Mar do Sul da China, e uma presença crescente da China não só no Oceano Índico, mas em todo o percurso até a Terceira Ilha – questão de garantir proteção às linhas de suprimento/conectividade da China.

E por fim, mas não menos importante, a China configurada como principal potência do Pacífico Asiático, também chamado "Indo-Pacífico".


A história julgará Xi pelos seus feitos. O resto não passa de sinofobia.

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