terça-feira, 3 de abril de 2018

Como o Oriente pode salvar o Ocidente, por The Saker


The Saker, Unz Review

Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu


"Isso mostra tudo que todos precisam saber sobre a diferença entre a Grã-Bretanha moderna e o governo de Vladimir Putin. Eles fabricam Novichok, nós fabricamos sabres leves. Uma é arma de ódio, produzida especificamente para assassinar. A outra não passa de implausível objeto de cena que zune misteriosamente para criar suspense. Mas qual dessas armas é realmente mais eficiente no mundo de hoje?" (Boris Johnson).

Comecemos essa discussão com algumas poucas perguntas básicas.


· Pergunta 1: Alguém acredita sinceramente que "Putin" (nome coletivo que designa toda a Mordor russa) realmente tentou matar um homem que o mesmo "Putin" libertou no passado porque não tinha qualquer interesse para a Rússia e quem, como Berezovsky, queria retornar à Rússia, e que, para esse objetivo "Putin" usou um agente binário de efeito neurológico?



·  Pergunta dois: Alguém acredita sinceramente que os britânicos mostraram aos seus "aliados" (serei polido e usarei esse eufemismo) alguma prova incontestável ou, no mínimo, muito forte, de que "Putin" fez realmente tal coisa?



·  Pergunta três: Alguém acredita sinceramente que a expulsão em massa de diplomatas russos forçará a Rússia, seja como for, a se curvar às exigências ocidentais (para nossos objetivos, não faz qualquer diferença definir quaisquer exigências das quais falamos aqui)?



· Pergunta quatro: Alguém acredita sinceramente que depois desse último episódio, as tensões de algum modo arrefecerão ou diminuirão e as coisas melhorarão?



· Pergunta cinco: Alguém acredita sinceramente que o aumento agudo que hoje se vê nas tensões entre o Império Anglo-sionista (codinome "Ocidente") não põe o Império e a Rússia em rota de colisão, que pode resultar em guerra, provavelmente/possivelmente guerra nuclear, talvez não deliberadamente, mas como resultado de uma escalada nos incidentes?



Ainda que no mundo zumbificado dos drones ideológicos que ainda permanecem no transe bestificado induzido pela mídia-empresa há sem dúvida os que respondem "sim" a algumas ou mesmo a todas essas perguntas acima, digo que não há um, que seja, um, tomador de decisões políticas importante em todo o Ocidente que acredite em qualquer daqueles absurdos. Na realidade, todos que fazem diferença no mundo sabem que os russos nada têm a ver com o incidente Skripal; que os britânicos não exibiram qualquer prova prestável; que a expulsão de diplomatas russos só tornará mais firme a posição dos russos; que toda essa histeria anti-Rússia só pode piorar; e que tudo isso põe pelo menos a Europa e os EUA, se não todo o planeta, em posição de extremo perigo.

Pois mesmo assim, o que acaba de acontecer é espantoso: 

– em vez de usar os princípios fundamentais da lei ocidental (o acusado é inocente até que a culpa seja provada ou não reste qualquer dúvida razoável sobre a culpa); as regras básicas de comportamento civilizado (não acuse alguém que você sabe ser inocente); normas éticas universalmente aceitas (a verdade da questão é mais importante que qualquer artifício político); ou mesmo os instintos de autopreservação (não quero morrer pela sua causa), a vasta maioria dos líderes ocidentais escolheram um novo paradigma para tomada de decisões que pode ser resumido em duas expressões:



·  "altamente provável"
·  "solidariedade"

É evento absolutamente crucial e marca mudança fundamental no modo como o Império Anglo-sionista agirá doravante. Consideremos os pressupostos e implicações desses dois conceitos.

Primeiro, "altamente provável". Embora "altamente provável" realmente pareça ser versão simplificada de "preponderância da prova", realmente significa coisa muito diferente e é argumento falacioso circular: "Putin" é mau, envenenamento é mau, logo é "altamente provável" que Putin tenha cometido o envenenamento. Como se prova que "Putin é mau"? Ora! Putin envenena gente, né-não?!

Parece piada?

Examinem esse maravilhoso quadro publicado pelo "Governo de Sua Majestade" intitulado "Um longo padrão da atividade maligna dos russos".



Padrão da atividade maligna da Rússia (governo de Sua Majestade Elisabeth 2ª)

Nos 12 eventos listados como prova de um "padrão de atividade maligna da Rússia", um é demonstravelmente falso (a invasão da Geórgia em 2008); um engloba duas diferentes acusações (ocupação da Crimeia e desestabilização da Ucrânia); um é circular (assassinato de Skripal); e todos os demais são acusações absolutamente sem provas. Só faltou o estupro em massa de bebês pinguins por marinheiros russos embriagados no polo sul ou o emprego de uma "arma secreta" para despachar furacões contra os EUA. Ninguém precisa ser formado em Direito para ver isso, só se requer QI acima da temperatura ambiente, e conhecimento básico de lógica. Por maior que seja o desprezo que me inspiram os líderes ocidentais, nem assim eu diria que não tenham QI requerido e mínimos conhecimentos de boa lógica. É onde entra em cena a "solidariedade".
"Solidariedade" nesse contexto é simplesmente um "suporte conceitual" para o famoso "meu país, certo ou errado" de Stephen Decatur, aplicado a todo o Império. O precedente para Meine Ehre heißt Treue [Minha honra é a lealdade, al. no orig.; lema dos SS nazistas] apenas levemente reformulado paraMeine Ehre heißt Solidarität [Minha honra é a solidariedade, al. no original] também vem à mente.

Solidariedade significa simplesmente que as elites comprador governantes do Ocidente sempre dirão e farão seja que diabo for que os Anglo-sionistas as mandem dizer e fazer. 

Se amanhã líderes do Reino Unido ou dos EUA proclamarem que Putin come criancinhas no café da manhã, ou que o Ocidente precisa enviar mensagem forte a "Putin", de que a invasão russa contra Vanuatu não será tolerada, que seja: toda a nomenklatura anglo-sionista repetirá a cantoria em uníssono e que se danem fatos, lógica e até a decência humana!

Mentir e difundir mentiras com máxima solenidade absolutamente não é novidade na política, nada de novo, até aí. Novidades são dois desenvolvimentos muito mais recentes: primeiro, todos dessa vez sabem que as mentiras são mentiras; e, segundo, ninguém move um dedo para desafiar mentira e mentirosos, ou para desmenti-los. Bem-vindos! Acabam de chegar à Nova Ordem Mundial Anglo-sionista!

Ao Império: "Fareis guerra, não importa o quanto tenhais de enganar e mentir"



Vós tendes por pai o diabo e quereis satisfazer os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio, e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira (Bíblia Sagrada, João 8:44)

Ao longo das últimas semanas tenho observado algo que me parece bem interessante: nos canais de TV da Rússia e em toda a mídia-empresa em idioma inglês, aparece um determinado tipo de sujeito anti-Putin que realmente muito se orgulha de o Império ter embarcado em campanha de mentiras realmente sem precedentes contra a Rússia.

Essa gente vê as mentiras como simples mais uma ferramenta numa espécie de "caixa de ferramentas políticas" que podem ser usadas como qualquer outra técnica política. Como já disse outras vezes, a indiferença ocidental ante a verdade é algo de origens antigas, de fato, de origens medievais: grosso modo, quando os sucessores espirituais dos francos em Roma decidiram que o seu ramo original, só deles, de "Cristandade" não mais precisava dos mil anos do Consensus Patrum

O escolasticismo e uma sede insaciável de poder mundano, secular, produziram dois frutos: o relativismo moral e o colonialismo (que recebeu oimprimatur do Papa e foi formalizado no Tratado de Tordesilhas). A Reforma (muito acentuadamente influenciada pelos judeus) produziu as bases do capitalismo moderno, o qual, como Lênin diagnosticou muito corretamente, sempre visou a chegar ao imperialismo, como seu mais alto grau. Agora que o Ocidente está perdendo o controle que tinha sobre o planeta (imaginem vocês, alguns países felasdaputa ousam resistir), todas as justificativas ideológicas foram jogadas fora e só restaram os verdadeiros, sinceros, honestos impulsos nus e crus dos líderes do Império: húbris messiânica (essencialmente, autoidolatria), violência e, sobretudo, confiança cega, massiva, no poder da mentira e da falsidade em todos os níveis da sociedade, domarketing comercial dirigidos a crianças até Colin Powell sacudindo aquele vidrinho cheio de sabão em pó no nariz do Conselho de Segurança da ONU, para justificar mais uma injustificável guerra de agressão.

Autoidolatria e total confiança na força bruta e em mentiras e falsidades – esses, sim, são hoje os verdadeiros "valores ocidentais". Nada de estado de direito, nada de leis, nada de método científico, nada de pensamento crítico, nada de pluralismo e absolutamente nada, mesmo, de liberdade. Estamos de volta, completado o círculo, ao tipo de bandidagem e de bandidos analfabetos que os francos encarnaram tão perfeitamente e que lhe valerão a má fama que tiveram no mundo civilizado (de então, Mediterrâneo sul e oriental). A agenda, por falar dela, também é a mesma que os velhos francos tinham há mil anos: ou se submetem e aceitam nosso domínio, ou morte; e o modo de aceitar a dominação é não criar dificuldades ao saque de todas as riquezas de vocês. 

Outra vez, pouco diferente entre hoje e aqui e o saque pela Primeira Roma em 410, o saque pela Segunda Roma em 1204 e o saque pela Terceira Roma, em 1991. 

Como os psicólogos sabem bem, o melhor indicador para prever comportamento futuro é comportamento passado.

Interessante é que os chineses viram perfeitamente através dessa operação 'psicológica' estratégica e agora estão tocando o alarme em seu jornal super oficial Global Times (26/3/2018) (negritos são meus):



"As acusações que os países ocidentais gritam contra a Rússia baseiam-se em motivos ocultos, mais ou menos como os chineses usam a expressão "pode ser verdade", para aproveitar uma oportunidade desejada. Do ponto de vista de uma terceira pessoa, os princípios e a lógica diplomática por trás desses esforços drásticos são falhos, para nem dizer que expulsar diplomatas russos quase simultaneamente é modalidade brutal de comportamento. 

São ações que pouco impacto têm, além de fazer aumentar a hostilidade e o ódio entre a Rússia e seus contrapartes ocidentais (…) O fato de as maiores potências ocidentais reunirem-se como gangue de bandoleiros e "sentenciar" outro país, sem seguir os procedimentos que regem a maioria dos países e desrespeitar os postulados básicos da lei internacional é assustador. 

Durante a Guerra Fria, nenhuma nação ocidental se atreveria a cometer provocação dessa monta. Hoje, as coisas são feitas com ilimitada facilidade. 

Essas ações nada são além de uma modalidade de abuso, praticado pelo ocidente, que ameaça a justiça e a paz mundial. (…) É muito além de ofensivo o modo como EUA e Europa trataram a Rússia. São ações frívolas, temerárias e irresponsáveis que hoje já caracterizam a hegemonia ocidental, que só entende de degradar e contaminar as relações internacionais.

É chegado o momento perfeito para nações não ocidentais fortalecerem sua unidade e seus esforços colaborativos entre elas. Essas nações têm de estabelecer um nível de independência fora do alcance da influência ocidental, ao mesmo tempo em que rompem as cadeias de declarações de monopolização, atribuições predeterminadas. E têm de valorizar suas próprias capacidades de julgamento. (…) O ocidente não passa de pequena fração do mundo, que já nem se compara ao representante global que chegou a pensar que fosse.

As minorias silenciadas na comunidade internacional têm de se aperceber disso e provar ao mundo, precisamente já, e por ações, o quão profundamente tudo isso está bem compreendido para elas."



Como dizem os franceses "à bon entendeur, salut!" ['pra bom entendedor, pingo é letra']: a posição dos chineses é absolutamente clara. O aviso, também. Eu resumiria na seguinte formulação: se o ocidente quer ser capacho dos anglo-sionistas, com licença, o oriente não será.

[BARRA LATERAL: Sei que há países na Europa que, até aqui, tem mostrado coragem para resistir contra o Diktat dos anglo-sionistas. Ótimo. Bom para eles. De minha parte, antes de me pôr a aplaudi-los de pé esperarei para ver o quanto conseguem resistir às pressões.]



Generalplan Ost moderno, da Ahnenerbe 



"A decisão, portanto, está aqui, no Oriente; aqui o inimigo russo, esses 200 milhões de russos têm de ser destruídos no campo de batalha e pessoa a pessoa, e fazê-los sangrar até morrer" (Reichsführer Heinrich Himmler)

Mas nem assim, nada disso explica por que os líderes do Império decidiram entrar nesse jogo desesperado de "franga nuclear"* para tentar, mais uma vez, forçar a Rússia a aceitar suas exigências para que "vá embora e cale o bico". É contraintuitivo, e recebo vários e-mails semanais dizendo que absolutamente de modo algum os líderes do Império Anglo-sionista quereriam guerra com a Rússia, muito menos guerra nuclear. A verdade é que, por mais que os líderes ocidentais sejam absolutamente, sem dúvida possível, psicopatas, ainda não são nem estúpidos nem suicidários, como tampouco o foram Napoleão ou Hitler! E, sim, provavelmente não querem mesmo guerra em plena escala contra a Rússia. 

O problema é que esses governantes também estão desesperados, e por bons motivos.

Examinemos só a situação a partir de uns poucos meses passados. Os EUA foram derrotados na Síria; ridicularizados na República Popular Democrática da Coreia (RPDC); Trump passou a ser odiado na Europa; os russos e alemães já estão trabalhando no gasoduto "Ramo Norte" [ing. North Stream]; os líderes britânicos estão obrigados a, pelo menos, fingir que trabalham para o Brexit; todo o "projeto Ucrânia" deu com a cara no chão; as sanções contra a Rússia fracassaram; Putin é hoje mais popular que nunca; e a campanha histérica anti-Trump prossegue a pleno vapor dentro dos EUA. O movimento seguinte, das elites anglo-sionistas foi simplesmente brilhante: ao organizar ataque sob falsa bandeira realmente horrendo nos EUA, o Império alcançou os seguintes resultados: 



· Os europeus foram instantaneamente dobrados e metidos de volta no nicho da anglosfera ("solidariedade", lembram?)



· Os britânicos pró-Brexit voltam a ocupar posição sob todos os aspectos muito semelhante à de líderes (i-)morais da Europa.



·   Os russos estão demonizados em tal grau que qualquer acusação, não importa o quanto seja estúpida, será acolhida como verdade.



· No Oriente Médio, EUA e Israel têm hoje rédea solta para iniciarem qualquer guerra que queiram, porque a capacidade (puramente teórica) da Europa para se opor ao que os anglos queiram está agora evaporada, principalmente agora que os russos tornaram-se "criminosos assassinos conhecidos usadores de armas químicas" de Ghouta a Salisbury.



·  A Copa do Mundo da Rússia será sabotada no mínimo por massiva campanha anti-Rússia. Se a campanha for realmente bem-sucedida, ainda há esperanças de que os alemães finalmente entreguem os pontos e, se não puderem cancelar, que pelo menos atrasem muito a construção do gasoduto Ramo Norte, forçando assim os Europeus a aceitar (o que mais poderia ser?!) o gás norte-americano.



É plano ambicioso e, exceto se ocorrer algo completamente inesperado, com certeza parece que pode funcionar. O problema dessa estratégia é que absolutamente não consegue o objetivo de forçar a Rússia a realmente "cair fora e calar o bico.

Os neoconservadores são especialmente dados a humilhar os inimigos (vejam como continuam a atirar contra Trump, mesmo que o infeliz já esteja reduzido à posição de mais subserviente servo deles), e nesse caso há muito prestígio em jogo. A Rússia pois ainda terá de ser humilhada, realmente humilhada, não por mera sabotagem contra atletas russos nos Jogos Olímpicos, ou pela expulsão de diplomatas russos, mas por algo muito mais tangível como, digamos, um ataque contra a força tarefa muito pequena e vulnerável que os russos mantém na Síria. E aqui, precisamente, está o maior risco.

A força tarefa russa na Síria é minúscula, pelo menos se comparada às capacidades descomunais do CENTCOM+OTAN. Os russos avisaram que, se forem atacados, revidarão não apenas contra os mísseis, mas também contra os veículos que os disparem. Dado que os EUA não são suficientemente idiotas para expor a própria aviação às defesas russas, com certeza só usarão poder aéreo que não esteja ao alcance das defesas aéreas russas; implica que só usarão mísseis cruzadores para atingir alvos dentro do "cone de proteção" das defesas aéreas russas. 

Fato é que duvido que os russos tenham ocasião para derrubar muitos aviões dos EUA, não, pelo menos, com seus S-300/S-400 terra-ar de longo alcance. O formidável sistema Pantsir – de artilharia combinada de mísseis terra-ar de médio alcance e artilharia antiaérea – pode ter muito melhor sorte, simplesmente porque é impossível prever a localização do Pantsir. Mas a real pergunta é: os russos revidarão contra navios da Marinha dos EUA, se dispararem mísseis cruzadores contra a Síria?



Minha opinião estritamente pessoal é que não, a menos que Khmeimim, Tartus ou outro grande objetivo russo (os complexos onde estão instalados os russos em Damasco) sejam atingidos. Ataque contra navio da Marinha dos EUA seria ato de guerra, exatamente o que os russos não farão, se puderem evitar. O problema é que essa contenção será, mais uma vez, interpretada como fraqueza, não como firme decisão pela paz, contra a guerra, pelos "francos modernos" (imaginem um ser de Neanderthal armado com um porrete nuclear). 

E se os russos decidirem agir à moda EUA e servir-se de violência para "mandar um recado", o Império imediatamente verá como ameaça direta ao próprio prestígio e razão suficiente para escalar e restabelecer a hierarquia "certa" entre a "nação indispensável" e o "posto de gasolina fantasiado de país". Eis, adiante, a dinâmica do processo:



· Rússia limita-se a palavras de protesto ® o Império toma os discursos como sinal de fraqueza; e escala;



· Rússia responde à altura, com ações efetivas ® o Império sente-se humilhado; e escala.

Consideremos agora a mesma situação, mas do ponto de vista dos russos. Cada um pergunte a si mesmo: o que eu faria nessa situação?

A resposta, me parece, é óbvia: qualquer um tentará ganhar o máximo possível de tempo, e preparar-se para a guerra. É precisamente o que os russos fazem, exatamente, desde pelo menos o início de 2015.

Para a Rússia não é absolutamente novidade: já passaram por isso, já fizeram isso e lembram perfeitamente. O "projeto ocidental" para a Rússia sempre foi o mesmo desde a Idade Média. A única diferença hoje são as consequências da guerra. A cada século que se vai, aumenta mais e mais o custo humano de várias Cruzadas que o ocidente tentou contra a Rússia. Hoje estamos olhando cara a cara a possibilidade muito real de outra batalha deBorodino ou Kursk, não de outra Hiroshima, mas de evento que não sabemos sequer imaginar, na verdade, com centenas de milhões de seres humanos mortos em apenas umas poucas horas.

Como se faz parar uma coisa dessas?

O ocidente será capaz, digamos, pelo menos, de agir de outro modo?

Eu, pessoalmente, duvido que seja.

Único ator que pode deter a guerra que se aproxima: China



Há um ator que pode, talvez, a corrida atual em direção ao Armageddon: a China. Os chineses já declararam oficialmente que estão convocando uma"parceria estratégica ampla para cooperação", adiante abreviada para "parceria estratégica". É expressão cuidadosamente cunhada, porque não se fala de "aliança": dois países das dimensões de Rússia e China não podem firmar aliança no sentido tradicional –, porque são grandes demais e diferentes demais para isso. Mas estão, isso sim, numa relação simbiótica, que os dois lados compreendem perfeitamente (para detalhes leiam 22/12/2014, Documento  A Dupla Hélice: China-Rússia (íntegra), Larchmonter 445, traduzido em Redecastorphoto). 

Tudo isso significa, em termos simples, o seguinte: os chineses não podem permitir que a Rússia seja destruída pelo Império porque, derrotada a Rússia, os chineses ficarão cara a cara, um contra um, diante de um ocidente unido, triunfante e infinitamente arrogante (pela mesma razão, avalio que a Rússia não pode permitir que o Irã seja derrotado pelo Império; e também pela mesma razão, o Irã tampouco pode permitir que os israelenses destruam o Hezbollah). 

Claro, em termos de poder militar, a China é uma anã, comparada à Rússia; mas em termos de poder econômica, a Rússia é a anã, comparada à China em sua "comunidade estratégica de interesses". Assim, a China não pode ajudar militarmente a Rússia. Mas lembrem que a Rússia não necessita disso, porque ajuda militar é ajuda para vencer uma guerra. E a Rússia não quer vencer uma guerra: a Rússia precisa desesperadamente evitar uma guerra! E é aí que a China pode fazer enorme diferença: psicologicamente.

Sim, nesse momento o Império está atacando os dois países, Rússia e China, mas todos, dos líderes imperiais à população bestificada do Império, parecem pensar que ali haveria dois inimigos diferentes e separados. [Podemos aproveitar essa oportunidade por ter cronometrado com tanta "perfeição" a sua guerra comercial contra a China.] Não, Rússia e China não são entes separados: são simbiontes que partilham a mesma visão de uma Eurásia pacífica e próspera, unida por um futuro comum que girará em torno da Iniciativa Cinturão e Estrada e que – fator crucial – estará livre do dólar, ou, para ser mais claro, livre de qualquer servidão em relação aos EUA. Mas Rússia e China também partilham idêntica noção de uma ordem mundial pós-hegemônica: um mundo multipolar de nações diferentes e verdadeiramente soberanas, vivendo juntas sob as regras da lei internacional. 

Se os anglo-sionistas conseguirem o que querem, nada disso jamais acontecerá. Em vez desse projeto, veremos a Nova Ordem Mundial prometida por Bush, dominada pelos países da anglosfera (basicamente os países-membros de ECHELON, conhecidos também como "Cinco olhos) e, no trono no topo dessa pirâmide, o super-capataz sionista. Isso a China não pode permitir e não permitirá. 

Tampouco pode a China permitir que haja uma guerra EUA-Rússia, não, especialmente, uma guerra nuclear, porque a China, como a Rússia, também precisa de paz.




Não vejo o que a Rússia possa fazer para convencer o Império a mudar o curso atual: os líderes norte-americanos deliram e os europeus obram como servos submissos e calados. Como se viu acima, faça a Rússia o que fizer, o Império sempre encontra vias para escalar a violência. Claro, a Rússia pode reduzir o ocidente a uma pilha de cinzas radiativas. Não é solução, porque, na retaliação inevitável, a Rússia também será reduzida à pilha semelhante das mesmas cinzas radiativas. Apesar disso, o povo russo deixou absoluta e perfeitamente claro, nas eleições presidenciais recentes, que não tem qualquer intenção de se render a essa nova Cruzada que o ocidente move contra o povo russo. 

Quanto ao Império, jamais aceitará o fato de que a Rússia recuse-se a se submeter. Assim sendo, parece-me que a única coisa que pode deter o Armageddon seria os chineses continuar a repetir incansavelmente aos senhores do Império e ao povo do ocidente o que se lê no artigo citado acima, deGlobal Times: que "O ocidente não passa de pequena fração do mundo, que já nem se compara ao representante global que chegou a pensar que fosse." "as minorias silenciadas na comunidade internacional têm de se aperceber disso e provar ao mundo, precisamente já, e por ações, o quão profundamente tudo isso está bem compreendido para elas.

A história ensina que o ocidente só ataca oponentes que lhe pareçam indefesos ou, no mínimo, mais fraco. O fato de que os papas, Napoleão ou Hitler erraram ao avaliar a força da Rússia nada muda nesse truísmo. De fato, os neoconservadores hoje cometem exatamente o mesmo erro. Assim, contar a eles sobre a evidência de que a Rússia é hoje muito mais forte do que diz a propaganda ocidental e do que, parece, creem muitos governantes ocidentais (propagandistas sempre acabam por acreditar na própria propaganda), pouco ajuda. 

Os "alertas sobre a realidade" em que os russos insistem pouco efeito terão, simplesmente porque o ocidente vive fora de contato com a realidade e não tem capacidade para compreender as próprias limitações e fraquezas. 

Mas se a China entra em cena e traz aquela mensagem crucial ("O ocidente não passa de pequena fração do mundo") e diz que o resto do mundo provará "com ações" [que compreende bem que o ocidente não passa de pequena fração do mundo], nesse caso outros países também entrarão em cena, e uma guerra pode ser evitada, porque o delírio da hora, baseado na tal "solidariedade", colapsará à face de uma Eurásia unida.

Só a Rússia pode continuar a carregar o peso do dever de conter os psicopatas messiânicos que governam o Império.

Os povos do resto do mundo, liderados pela China, precisa agora entrar em cena e evitar a guerra.*****




* Orig. "nuclear chicken game", "jogo da galinha", da Teoria dos Jogos, que optamos por traduzir como "Jogo da Franga", depois de consultados especialistas [NTs].

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