terça-feira, 15 de maio de 2018

Eleições no Iraque-2018: Grande jogo de influências no Oriente Médio


David Hearst,* MiddleEastEye

Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu


ATUALIZAÇÃO 14/5, 10h18 Express, Londres
"Documento fornecido à agência Reuters por um candidato em Bagdá e que também já circula entre jornalistas e analistas mostra resultados de todas as 18 províncias. Ainda não foi possível confirmar a autenticidade do documento, mas os resultados das 10 províncias já anunciados oficialmente pela comissão eleitoral coincidem com os números do documento.
Cálculos da Reuters baseados no documento mostraram que Sadr venceu nos votos populares com mais de 1,3 milhão de votos, e obteve 54 das 329 cadeiras do Parlamento. O segundo é Amiri, com mais de 1,2 milhão de votos, equivalentes a 47 cadeiras, seguido por Abadi, com mais de 1 milhão de votos e 42 cadeiras parlamentares."
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Há notícias boas e notícias más sobre as eleições no Iraque. A boa notícia é que as listas partidárias não estão divididas por linhas sectárias. Ser sunita ou ser xiita não é fator determinante. Há outras divisões, sim, muitas dentro das próprias listas partidárias.

A má notícia é que a eleição no Iraque que deve acontecer dia 12 de maio será campo de batalha em que cruzarão armas todas as potências regionais, todas intensamente envolvidas no resultado. No processo, a política iraniana fragmentou-se alucinadamente, na disputa para comprar influências. O Iraque está convertido em último estágio no grande jogo por influência regional.

EUA e Irã no mesmo lado

Nos idos de 2010, EUA e Irã descobriram que estavam no mesmo lado. Em 2010, a lista do Movimento Nacional Iraquiano, al-Iraqiya, sunita, de Ayad Allawi, obteve a maior fatia dos votos (24,7%) e o maior número de assentos no Parlamento (91, de 325), ligeiramente à frente da coalizão Estado de Direito, dominada pelos xiitas, do então primeiro-ministro Nouri al-Maliki (24,2% dos votos e 89 assentos parlamentares).

Mas Maliki, primeiro-ministro desde 2006, pôde ficar no cargo, em parte porque conservou o apoio de Washington e de Teerã. Maliki foi reeleito em 2014, mas poucos meses adiante, em agosto daquele ano, foi forçado a renunciar, quando do 'Estado Islâmico' declarou-se no controle de Mossul, segunda maior cidade do Iraque, e de grandes áreas no norte do país.

Foi substituído por Haider al-Abadi, seu principal opositor dentro do partido Dawa que estava no poder desde 2005.

"Quando al-Iraqiya em 2010 tornou-se o maior partido, deveria ter feito o primeiro-ministro. Mas Obama conseguiu que países árabes pressionassem Allawi a ceder o poder a Maliki, homem do Irã," disse do experimento de partilha do poder um político iraquiano de um dos blocos xiitas predominantes no país.

"Muito nos surpreendeu que os EUA estivessem com o Irã. Os EUA nos disseram: 'Estamos mais interessados em ter um estado democrático estável, dominado por xiitas que possa ajudar a obrigar os iranianos a ver que podem ter sistema melhor controlado pelos xiitas.'"

Desse ponto de vista, Washington virou-se contra os sunitas em grande medida porque ainda lembravam a feroz resistência que os soldados dos EUA enfrentaram no Iraque, em áreas predominantemente sunitas, durante a ocupação.

A rivalidade entre sauditas e iranianos

Hoje contudo, o Irã está aberto a ambas as listas eleitorais, dominadas por sunitas e dominadas por xiitas, na busca para consolidar suas áreas de influência em áreas do país onde as unidades Mobilização Popular, UMP [ing. Popular Mobilisation units (PMU)], também conhecidas como al-Hashd al-Shaabi, as unidades paramilitares que lutaram ao lado das forças de segurança iraquianas para expulsar o Estado Islâmico, conseguiram firmar-se mais com o colapso do EI e o enfraquecimento do Governo Regional Curdo, GRC [ing. Kurdish Regional Government (KRG)] desde o referendum da independência, ano passado.

Iraquianos passam diante de cartazes de propaganda eleitoral de candidatos às eleições para o Parlamento, em Bagdá, dia 19/4/2018. Cerca de 7 mil candidatos concorreram às eleições de 12/5, em que se disputam 329 cadeiras no Parlamento (Foto AFP)

"O Irã começou a entrar em áreas sunitas. Entraram até em áreas nas quais o Estado Islâmico esteve ativo e o Irã jamais antes tivera qualquer influência, como [a província] al-Anbar. O Hashd também começou a firmar pé em áreas curdas nas quais jamais antes esteve, como Erbil" – disse-me um analista iraquiano.

"Os sunitas começaram a apoiar a posição do Irã, então os iranianos começaram a pressionar os líderes sunitas com a intermediação do [grupo] Hashd al-Shaabi. Há nisso várias implicações."

Concorrência entre Arábia Saudita e Irã já levou a divisões dentro de dois partidos predominantemente xiitas: o Dawa, partido governante, e o Supremo Conselho Islâmico.

O Partido Dawa foi dividido em uma coalizão Nasr (Vitória) chefiada por Abadi, que está sendo visto como seduzido pela Arábia Saudita, enquanto Maliki, líder do partido está à frente de outra coalização "Estado de Direito", em geral considerada pró-Irã. Para possibilitar esses 'arranjos', foi aprovada uma lei que permite que candidatos do mesmo partido inscrevam-se em listas eleitorais de grupamentos adversários.

Uma terceira lista, Fatah, que representa o grupo Hashd al-Shaabi e é comandada por Hadi al-Amiri, líder da milícia chamada Brigadas Badr, considerado aliado firme do Irã. Mas uma 4ª lista chamada Sairoon (os que marcham), encabeçada pelo influente líder religioso xiita Muqtada al-Sadr, que já foi símbolo da oposição xiita à ocupação norte-americana, e hoje aproxima-se da Arábia Saudita.

Ano passado, al-Sadr fez visita inusitada à Arábia Saudita, onde foi fotografado em encontro com Mohammed bin Salman. Em entrevista já há algum tempo, al-Sadr também disse a Middle East Eye que milícias sectárias não têm espaço no Iraque. Ex-presidente do Parlamento iraquiano disse a MEEque Sadr é "dos xiitas mais próximos dos sunitas" e o líder xiita "mais aberto ao diálogo".

Uma quinta lista também de xiitas, Hikmah (Sabedoria), é o início do racha no grupo Supremo Conselho Islâmico do Iraque, liderado por Ammar al-Hakim.


Arábia Saudita e Irã: rivais no Oriente Médio



Qassem Soleimani, comandante da Brigada Quds, dos Guardas Revolucionários do Irã, e que está convertido em pró-cônsul de fato do Irã no Iraque, tem tentado, ainda sem sucesso desde fevereiro, unificar os líderes xiitas, de modo a que Abadi, Amiri e Hakim formem uma só lista eleitoral. Um enviado especial mandado para lá por Soleimani negociou durante 12 horas, tentando persuadir os três a pôr de lado as diferenças.


"Foi tentativa para legitimar o grupo al-Hashd al-Shaabi. Mas poucas horas antes do anúncio do acordo, os sauditas pressionaram Abadi a retirar-se, e ele saiu" – contou-me um analista iraquiano.

Lealdades divididas

As listas dominadas por sunitas também estão divididas entre potências regionais em competição pelo Iraque. Al Qarar (Decisão) é liderada por Khamis Khanjar e Osama el Nujifi, um dos três vice-presidentes do Iraque. Reúne dez pequenos partidos na coalizão e é considerado mais próximo de Turquia e Qatar, esse último atualmente sob bloqueio da Arábia Saudita.

A segunda lista, chamada Al-Wataniya (Coalizão Nacional), inclui o Partido Islamista do Iraque, ligado à Fraternidade Muçulmana e o maior partido sunita do país, e Allawi, que já foi primeiro-ministro.

Dois grupos seculares e partidos islamistas incluídos nessa lista são considerados mais próximos do Irã, e Allawi é visto como tendente aos Emirados. Uma terceira lista, al-Hal (a Solução) liderada por Jamal al-Karboli, é tida como mais próxima da Arábia Saudita.

Mais para o norte, o quadro é o mesmo. Há uma lista, chamada "Curda", constituída dos dois partidos governantes no Curdistão, PUK e KDP, o primeiro pró-Irã, o outro mais próximo da Turquia.

A segunda lista é constituída de islamistas curdos que firmaram uma aliança com um grupo isolado, do campo dos Talibãs, chamado movimentoGorran (Mudança). A terceira lista é liderada por Barhem Saleh, um dos três vice-primeiros-ministros do Iraque.

A Turquia pode bem se ver na posição de árbitro do movimento geral, ou com o Iraque encaminhando-se na direção do Irã, ou na direção sudoeste, para Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. O contra-argumento para todos esses cálculos e projeções é que iraquianos, não importa a confissão religiosa, de modo algum podem ser tratados com 'representantes' ou 'delegados locais', por procuração, de potências regionais. Para o bem do que restou dessa nação destroçada, não devem ser tratados desse modo. 

Mas para evitar que aconteça, os líderes dos partidos precisam começar a não agir, eles mesmos, como 'representantes' locais, de potências regionais. Só depois das eleições se poderá ver o quanto já fizeram ou virão a fazer, agindo como 'paus mandados'. 

A ocupação norte-americana terminou, mas a mentalidade que a move e mantém ainda vive.*******



* David Hearst é editor-chefe de Middle East Eye. Foi editor do Guardian, diretor da sucursal em Moscou, editor para a Europa, correspondente na Europa e na Irlanda. Antes doGuardian, trabalhou no The Scotsman, onde foi correspondente de educação.

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