quarta-feira, 16 de maio de 2018

O “Golpe de Mestre” dos Estados Unidos contra a Venezuela (Documento do Comando Sul)


Stella Calloni

As negociações em torno da península de Coreia e a retirada norte-americana do acordo sobre o programa nuclear iraniano (JCPOA ou Acordo dos 5+1) não devem interpretar-se como um reposicionamento das Forças Armadas dos Estados Unidos. Sem importar que Administração esteja no Poder em Washington, o Pentágono segue em frente com o seu plano de domínio à escala mundial. Stella Calloni revela que o SouthCom (o tristemente célebre “Comando Sul”) tem planificada uma operação militar contra a Venezuela, antes da eleição presidencial de 20 de Maio. Baseando-se num documento interno do Pentágono, Stella Calloni põe a nu a implicação da Argentina, Colômbia, Brasil, Guiana e Panamá nesse projecto de derrube de um Poder democrático, nascido do voto popular. É um plano de destruição de toda uma sociedade. As Forças Armadas dos Estados Unidos estão de volta contra os povos na América Latina.
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O Almirante Kurt W. Tidd, Comandante-em-chefe do Comando Sul norte-americano (SouthCom)


Os Estados Unidos e seus sócios preparam em silencio um brutal «Plano para acabar com a ditadura da Venezuela»: o «Golpe de Mestre» («Masterstroke») [1], que já está em marcha e cuja primeira parte começaria antes das próximas eleições venezuelanas e que, se não tiverem êxito em derrubar o Presidente Nicolás Maduro com a nova ofensiva, que utilizará todo o aparelho propagandístico e mediático mais acções violentas em «defesa da democracia», acionarão o Plano B, o qual incluirá vários países impondo uma «força multilateral» para intervir militarmente.
Panamá, Colômbia, Brasil, Guiana são pontos-chave da operação militar, com o apoio da Argentina e de «outros amigos», sob controle do Pentágono. Já têm preparadas nas bases que ocuparão, nos países de apoio directo (fronteiriços), até hospitais e centros de provisão de víveres para os seus soldados.
Tudo isso aparece especificado num documento real, de 11 páginas, que leva a assinatura do Almirante Kurt Walter Tidd, actual Comandante-em-chefe do Comando Sul [SouthCom] norte-americano, documento ainda não divulgado.
O documento analisa a situação actual ratificando a guerra que se trava contra a Venezuela, mas também o preverso esquema de guerra psicológica que permite entender a perseguição, o assédio, o descrédito, a mentira criminosa que se utilizam para acabar não só com as líderanças populares mas também contra os povos da região.
Ao referir-se à situação actual na Venezuela, o Plano menciona que titubeia a «ditadura venezuelana chavista como resultado dos seus problemas internos, da grande escassez de alimentos, do esgotamento das fontes de dinheiro externo e de uma corrupção desenfreada, que diminuiu o apoio internacional, ganho com petrodólares, e que o valor da moeda nacional dura pouco tempo e o poder aquisitivo da moeda nacional está em queda constante».
Assumem que este cenário, que admitem ter criado eles próprios, com uma impunidade que aterra, não mudará. Assim, justificam as suas acções afirmando que o governo venezuelano recorrerá a novas medidas «populistas» para conservar o Poder.
Assombra o lugar em que colocam a oposição que os próprios Estados Unidos manejam, aconselham e pagam, ao assumir que «o corrupto regime de Maduro colapsará, mas lamentavelmente as forças opositoras, defensoras da democracia e do bem-estar do seu povo, não têm poder suficiente para pôr fim ao pesadelo da Venezuela» por disputas internas e até por «corrupção semelhante à dos seus rivais, bem como a escassez de raízes» que não lhes permite tirar «o máximo proveito desta situação e dar o passo necessário para ultrapassar o estado de penúria e a situação precária em que o grupo de pressão que exerce a ditadura de esquerda submergiu o país».
O que é aterrador é que embora considerem que se está perante «uma ação criminosa sem precedentes na América Latina», referindo-se ao governo da Venezuela —um governo que nunca actuou contra nenhum dos seus vizinhos e que tem sido de uma forte solidariedade regional e mundial—, o Plano norte-americano sustenta que a «democracia avança na América, continente no qual o populismo radical estava destinado a tomar o controle». Argentina, Equador e Brasil são exemplos disso. «Este renascimento da democracia (como a chamam) é apoiado pelas mais valiosas determinações e as condições da região estão a seu favor. Este é o momento para que os Estados Unidos provem, com acções concretas, que estão empenhados nesse processo, no qual o derrube da ditadura venezuelana seguramente representará um ponto de inflexão continental».
Por outro lado, eles encorajam o Presidente dos EUA, Donald Trump, a agir considerando que «esta é a primeira oportunidade da Administração Trump para demonstrar e levar avante a sua visão de democracia e segurança» e convencê-lo de que «a sua participação activa é crucial, não apenas para a Administração, mas, também para o continente e o mundo. Chegou o momento».
Isso significa «intensificar o derrube definitivo do chavismo e a expulsão do seu representante, minar o apoio popular» ao governo e
«Incentivar a insatisfação popular, aumentando o processo de desestabilização e de falta de abastecimento» [para] «garantir a deterioração irreversível do seu actual ditador».
Se alguém quiser entender a fundo a arte da perversão contra-insurgente basta ler a parte em que o documento se refere ao Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, encorajando a «assediá-lo, ridicularizá-lo e mostrá-lo como um símbolo de torpeza e incompetência, expô-lo como uma marionete de Cuba».
Mas também sugerem :
«Exacerbar a divisão entre os membros do grupo do governo, revelando as diferenças das suas condições de vida e dos seus seguidores e, ao mesmo tempo, incitando-os a manter essas divergências em crescendo».
O plano está destinado a ser executado rápida e furiosamente, tal como as medidas tomadas pelos mordomos de Washington, Mauricio Macri (Argentina) e Michel Temer (Brasil), ambos com uma história escandalosa de corrupção, mas transformados pelo Império em «líderes da transparência» que tomaram medidas, em horas, para a destruição dos Estados nacionais com tanta certeza como a do disparo de um míssil.
O documento assinado pelo Chefe do Comando Sul norte-americanos demanda tornar o governo de Maduro insustentável, forçando-o a claudicar, negociar ou escapar. Este Plano para acabar em curtíssimo prazo com a chamada «ditadura» da Venezuela, apela a:
«Incrementar a instabilidade interna para níveis críticos, intensificando a descapitalização do país, a fuga de capitais estrangeiros e a deterioração da moeda nacional, mediante a aplicação de novas medidas inflacionárias que incrementem essa deterioração».
Outro objectivo é
«obstruir todas as importações e ao mesmo tempo desmotivar os possíveis investidores estrangeiros»
para –e vejam a bondade do Império–
«contribuir para tornar mais crítica a situação da população».
Também abarca o Plano nas suas 11 páginas
«apelar a aliados domésticos, assim como a outras pessoas inseridas no cenário nacional, com o objectivo de gerar protestos, distúrbios e insegurança, pilhagem, saques, roubos, assaltos e sequestros de navios e de outros meios de transporte, com a intenção de cortar o abastecimento do país, através de todas as fronteiras e de outras maneiras possíveis, pondo em perigo a segurança nacional dos seus vizinhos».
Consideram importante «causar vítimas» e apontar como responsável o governo da Venezuela «ampliando, perante o mundo, a crise humanitária a que está submetido o país», usando a mentira de uma corrupção generalizada dos governantes e «ligar o governo ao narcotráfico para desacreditar a sua imagem perante o mundo e os seus seguidores internos», além de promover «o cansaço entre os membros do PSUV» [Partido Socialista Unificado da Venezuela] «incitando a discórdia entre eles próprios, para que rompam ruidosamente as relações com o governo e para que rechacem as medidas e restrições que também os afectam» e torná-los «tão débeis quanto a oposição, criando fricções entre o PSUV e Somos Venezuela».
A proposta vai aumentando de tom como quando apela a
«estruturar um plano para lograr a deserção dos profissionais mais qualificados do país, para o deixá-los totalmente sem profissionais, o que agravará ainda mais a situação interna e neste sentido culpar o governo».

A mão militar

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Como numa série policial, este Plano apela para «utilizar os oficiais do exército como uma alternativa de solução definitiva» e
«continuar endurecendo a situação dentro das Forças Armadas para levar a cabo um Golpe de Estado, antes que finalize 2018, se esta crise não levar a que a ditadura colapse, ou se o ditador não se decide afastar-se».
Supondo que todo o exposto pode falhar, e com evidente desprezo pela oposição venezuelana, o Plano apela a «continuar o fogo contínuo na fronteira com a Colômbia, multiplicar o tráfico de combustível e outros bens, o movimento dos paramilitares, incursões armadas e tráfico de drogas, provocando incidentes armados com as forças de Segurança da Fronteira» venezuelana e além disso a
«recrutar paramilitares principalmente dos campos de refugiados em Cúcuta, La Guajira e Norte de Santander, áreas sobretudo habitadas por cidadãos colombianos que emigraram para a Venezuela e que agora retornaram, fugindo do regime que intensificou a desestabilização das fronteiras entre os dois países, usando o espaço vazio deixado pelas FARC [Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia], a beligerância do ELN [Exército de Libertação Nacional (Colômbia)] e as actividades na área do Cartel do Golfo (paramilitares)».
Aqui vem a estruturação do golpe final quando se planeia
«preparar o envolvimento de forças aliadas, em apoio aos oficiais do exército venezuelano, ou para controlar a crise interna no caso em que se demore muito a iniciativa (…) estabelecer um cronograma rápido que previna que o ditador continue ganhando o controle no cenário interno. Se necessário fôr, actuar antes das eleições estipuladas para o próximo mês de Abril».
Na realidade, essas eleições serão a 20 de Maio e desde já os Estados Unidos, e os seus comparsas, fizeram saber que não as reconhecem.
O cerne da questão é
«Obter o apoio e cooperação das autoridades aliadas de países amigos (Brasil, Argentina, Colômbia, Panamá e Guiana). Organizar as provisões das tropas, apoio logístico e médico desde o Panamá. Fazer bom uso das instalações de vigilância eletrônica e de sinais inteligentes; de hospitais e instalações existentes em Darién (selva panamenha), do equipamento de drones do Plano Colômbia, bem como dos terrenos das antigas bases militares de Howard e Albroock (Panamá), bem como as pertencentes ao Rio Hato. Além disso do Centro Regional Humanitário das Nações Unidas, projectado para situações de catástrofe e emergência humanitárias, que conta com uma pista de aviação (aterrissagem-br) e armazéns próprios».
Como vemos, já se trata de um cenário de intervenção onde se propõe
«Avançar no estacionamento de aviões de combate e helicópteros, veículos blindados, posições de inteligência e unidades militares de logística especiais (polícia, oficiais militares e prisões) (...)
«Desenvolver a operação militar sob bandeira internacional, patrocinada pela Conferência dos Exércitos Latino-Americanos, sob a protecção da OEA e a supervisão, no contexto jurídico e mediático, do Secretário-Geral [da OEA] Luis Almagro».
«Declarar a necessidade de o Comando Continental fortalecer a acção, usando o instrumento do Capítulo Democrático Inter-americano, com o objectivo de evitar a ruptura democrática».
E ainda mais
«Unindo o Brasil, Argentina, Colômbia e Panamá afim de contribuir para o número apropriado de tropas, fazer uso da sua proximidade geográfica e experiência em operações em regiões de floresta ou de selva. Fortalecendo o seu status internacional com a presença de unidades de combate dos Estados Unidos e das nações mencionadas; sob o comando geral do Estado-Maior Conjunto liderado pelos Estados Unidos».
Assombra a impunidade com que tudo se está preparando nas costas dos povos, em absoluta ilegalidade. E, isto torna compreensíveis as recentes manobras militares dos Estados Unidos nesta região na fronteira do Brasil com a Venezuela (Brasil, Peru, Colômbia), no Atlântico Sul (Estados Unidos, Chile, Grã-Bretanha, Argentina), no caso argentino sem autorização do Congresso Nacional, de Outubro a Novembro passado.
«Usando as instalações do território panamenho (panamense-br) para retaguarda e as capacidades da Argentina pela segurança dos seus portos e posições marítimas (...) 
- Propor ao Brasil e à Guiana fazer uso da situação migratória, a qual pretendemos incentivar na fronteira com a Guiana. 
- Coordenar o apoio à Colômbia, Brasil, Guiana, Aruba, Curaçao, Trinidad e Tobago e outros Estados frente ao fluxo de migrantes venezuelanos devido aos eventos da crise».
Mas além disso, prevê-se
«Promover a participação internacional neste esforço como parte da Operação Multilateral com contribuição de Estados, de organizações não estatais, e organismos internacionais, e fornecer logística adequada, inteligência, apoios, antecipando especialmente os pontos mais valiosos em Aruba, Puerto Carreño, Inirida, Maicao, Barranquilla e Sincelejo na Colômbia, e Roraima, Manaus e Boavista no Brasil».
Incrível mapa de uma guerra de intervenção anunciada.

Informação estratégica

É assombroso o plano para silenciar «o simbolismo da presença da representatividade de Chávez e o apoio popular» e manter o assédio «ao ditador como único responsável da crise em que ele mergulhou a nação», e os seus mais próximos seguidores, a quem se acusará da crise e da impossibilidade de sair da mesma.
Noutro parágrafo apela-se a
«intensificar o descontentamento contra o regime de Maduro (...) assinalar a incompetência dos mecanismos de integração criados pelos regimes de Cuba e da Venezuela, especialmente a ALBA (Aliança Bolivariana dos Povos da Nossa América) e a Petrocaribe».
Quanto ao tema mediático, o plano desenhado pelos Estados Unidos apela a incrementar dentro do país, através dos meios de comunicação locais e estrangeiros, a disseminação de mensagens desenhadas e baseadas em depoimentos e publicações originadas no próprio país, fazendo uso de todas as capacidades possíveis, incluindo as redes sociais, e, por outro lado, «apelar através dos meios de comunicação para a necessidade de pôr fim a essa situação porque é, em essência, insustentável».
Num dos últimos parágrafos do documento, trata-se de «assegurar» ou mostrar o uso de meios violentos por parte da «ditadura» para obter apoio internacional, utilizando
«todas as capacidades de Guerra Psicológica do Exército dos Estados Unidos».
Por outras palavras, repetindo os mesmos cenários de mentiras, armados de notícias, fotografias e vídeos falsos, e tudo o que já foi usado nas guerras coloniais do século XXI.
O documento também assinala igualmente que «os Estados Unidos deverão apoiar internamente os Estados americanos que o apoiam», elevar a imagem destes e da «ordem multilateral de instituições do sistema inter-americano, como instrumentos para a solução dos problemas regionais. Promover a necessidade do envio da Força Militar da ONU para imposição da paz, uma vez que a ditadura corrupta de Nicolás Maduro seja derrubada».
Tradução
Alva

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