domingo, 13 de maio de 2018

O mundo visto de Teerã: EUA traem. Europa não tem espinha dorsal


Said Mohammad Marandi,* Middle East Eye
Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu

Para alguns iranianos, há método na loucura de Trump –, mas outros veem é bem pouca metodologia efetiva naquele processo de tomar decisões. Antes da era Trump, a conversa em Teerã sobre relações com o Ocidente quase sempre passava por duas questões chaves: se se poderia confiar nos EUA e qual a importância da União Europeia.

Mulher passa diante de um mural pintado na parede do prédio onde funcionou a embaixada dos EUA em Teerã, dia 8/5/2018 (AFP).


A conclusão estabelecida e já duradoura sempre foi que os EUA são país politicamente desonesto, e que a União Europeia é evento sem consequências. Na campanha eleitoral de 2013, que elegeu o presidente Hassan Rouhani, aquela avaliação dos EUA foi publicamente contestada, mas o diagnóstico da importância nenhuma da UE sobreviveu.


Resultados substantivos 


O presidente Rouhani acreditava que a União Europeia não tivesse capacidade para, nem, pelo menos a vontade de, agir como ator global. Afinal, ele passara tempo considerável liderando negociações nucleares com Alemanha, França e o Reino Unido e concluíra que são três países sem qualquer efeito, e que o Irã teria de negociar com os EUA se quisesse resultados substantivos.



Depois de longas deliberações em Teerã -- quando os que defendiam negociações diretas insistiam em que os EUA já teriam decidido mudar a própria política e aceitar o direito plenamente legal, do Irã, a ter programa nuclear para finalidades pacíficas --, marcaram-se as conversações diretas EUA-Irã.



Apesar de profunda descrença quanto à confiabilidade e às boas intenções dos norte-americanos, os iranianos decidiram testar as próprias avaliações e conclusões. Antes das eleições presidenciais iranianas de 2013, os iranianos aceitaram uma proposta dos EUA, para negociações secretas diretas, em Omã.



Prova também de que as estrelas afinal estavam alinhadas, foi que o ex-embaixador do Irã à ONU, Dr. Javad Zarif, diplomata veterano com experiência substancial em contatos com políticos dos EUA, think tanks e mídia norte-americanos foi encarregado de comandar essas negociações, depois da posse do presidente Rouhani.



Com o objetivo de iniciar novo capítulo nas relações Irã-EUA, Rouhani e seus apoiadores políticos estavam dispostos a fazer significativas concessões e firmar um acordo nuclear. Nesse campo, o personagem mais cauteloso e preocupado com não ceder demais, era o próprio ministro de Relações Exteriores. Entrementes, os que se opunham empenhadamente ao acordo alertavam sobre experiências anteriores, lembrando e relembrando incansavelmente ao governo e à opinião pública a longa história de mentiras e traições dos EUA.



Afinal, todos ali acumulavam décadas de experiência com 'promessas' dos EUA, desde os Acordos da Argélia em 1981 Naqueles acordos, os EUA comprometeram-se formalmente a não mais intervir politicamente ou militarmente, em assuntos internos do Irã!


Agressões norte-americanas 


Os norte-americanos violaram o acordo repetidamente e flagrantemente desde quase o primeiro dia – com "sanções incapacitantes", financiamentos para organizações terroristas, derrubaram um avião civil iraniano, destruíram instalações iranianas de petróleo, ajudaram Saddam Hussein a usar armas químicas e garantiram a ele toda a cobertura política durante os oito anos de guerra devastadora que Saddam fez contra o Irã.



Ainda assim, os iranianos persistiram e ampliaram todas as oportunidades para manifestar boa-vontade. Depois do fim da guerra Irã-Iraque, por exemplo, o Irã entregou um grande campo de petróleo à petroleira US Conoco, para que o desenvolvesse. Os EUA, apesar de terem sido mantidos sempre informados do andamento das negociações com a empresa de petróleo, imediatamente bloquearam o negócio, depois de firmado o acordo nuclear.


Imagem: Foto distribuída pelo Parlamento do Irã, dia 9/5/2018, mostra deputados preparando-se para queimar uma bandeira dos EUA, dentro do Parlamento em Teerã (AFP)

Imediatamente depois dos ataques do 11/9, o Irã negociou e cooperou com os EUA na questão do Afeganistão, apenas para ser rotulado como item de um "eixo do mal". No governo Obama, os EUA impuseram "sanções incapacitantes", que puniram os cidadãos comuns no Irã e mataram milhares de pessoas que foram impedidas de usar remédios indispensáveis à manutenção da vida, até que o Irã encontrasse meios para contornar as sanções.


O governo dos EUA armou até os dentes os inimigos do Irã, infiltrou exércitos de jihadistas takfiris para dentro da "profundidade estratégica" do Irã einstalou os mais potentes sistemas de armas que há no mundo junto às fronteiras do Irã.



Essas agressões são livres. Mas Trump não gosta dos slogans "Morte aos EUA"? Por que O Donald tem tanta dificuldade para compreender por que os iranianos comuns tanto querem, tão profundamente, pôr fim à arrogância, à falsidade e à hegemonia norte-americana sempre imposta por chantagem e violência?



Mas, apesar de não ter ilusões quanto à sinceridade dos EUA, o aiatolá Khamenei deu luz verde para que o presidente Rouhani seguisse nas negociações para o acordo nuclear; e disse publicamente que, se os EUA manifestassem boa vontade, outras questões seriam discutidas adiante.



Como se esperava. Aconteceu o oposto. Ao mesmo tempo em que o lado iraniano enfurecia os críticos domésticos e mostrava considerável flexibilidade, o governo dos EUA pôs-se a violar o espírito e os termos do acordo quase imediatamente depois do documento ser firmado.



No governo Obama, aprovaram-se horrenda lei de restrições de visto de entrada no país e a Lei das Sanções contra o Irã, mais indivíduos e mais empresas foram sancionadas, mas, mais importante que tudo isso, os EUA, clandestinamente, já estavam 'ordenando' que bancos, instituições financeiras, empresas de seguros e outras não negociassem com o Irã – o que é clara violação dos artigos 26 e 29 do acordo.



Os iranianos, por sua vez, não apenas atingiram todas as expectativas do acordo como, em alguns itens, até cumpriram o que lhes cabia fazer antes de esgotado o prazo assegurado pelo acordo.


Resultados tangíveis 


No governo Trump, o colapso do JCPOA foi acelerado e alcançou estágio que a maioria dos iranianos acreditavam que estivesse superado. Ao longo de quase três anos, viram poucos resultados tangíveis do fim do programa nuclear pacífico do país e de o Irã ter cumprido todas as suas obrigações.



O iranianos creem que, se os EUA deixarem o acordo, o governo norte-americano será visto pela comunidade internacional como irresponsável, não merecedor de confiança e belicoso. Mas, ao se dar algum tempo antes de também abandonar o pacto, algumas semanas, para testar a espinha dorsal da União Europeia, o Irã logo será vingado.



Como os iranianos foram vingados quando o recém nomeado secretário de Estado dos EUA Mike Pompeo admitiu perante a Comissão de Relações Exteriores do Senado que o Irã já não tinha qualquer plano para construir armas nucleares mesmo antes do acordo nuclear –, com o que desmoralizou tolamente toda a narrativa na qual os EUA tanto investiram, durante 15 anos.


Emmanuel Macron da França e a alemã Angela Merkel também serão vistos como peça avariada do maquinário, por persistentemente concederem tudo que Trump quisesse ou dissesse, sem nada receber em troca. A União Europeia cada dia mais é vista como entidade sem efetividade, praticamente irrelevante, o que é enorme estímulo para que o Irã vire-se na direção de China e Rússia, seja economicamente seja politicamente.


Ironicamente, tudo isso acontece quanto Rússia e China enfrentam hostilidade e pressão similares e, resultado disso, chegaram a conclusões similares.



Hoje, graça a anos de experiência e a recente mudança global no equilíbrio de poder, o Irã está muito mais bem preparado e posicionado para enfrentar sanções. Diferente do que se tinha há dez anos, o Irã tem hoje aliados regionais poderosos e suas relações com potências não ocidentais em ascensão evoluíram significativamente.



Se os países ocidentais fecharem as portas, outras portas abrir-se-ão para o Irã. E o grande verdadeiro derrotado no processo serão os EUA, uma Europa acovardada e submissa e os erráticos regimes regionais clientes deles. Que façam o que acharem melhor.*******



* Said Mohammad Marandi é professor de Literatura Inglesa e Orientalismo na Universidade de Teerã.

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