domingo, 6 de maio de 2018

Os capacetes brancos tentaram recrutar Roger Waters com dinheiro saudita


A máquina de propaganda dos terroristas anti-síria, alguns deles reciclados em «Capacetes Brancos», é muito poderosa e bem financiada.
Roger Waters with My Morning Jacket and Lucius in concert
Um dos seus trunfos é angariar apoios entre estrelas de cinema e do mundo do espectáculo. Lá estão, entre outros, os inevitáveis George Clooney e Ben Affleck (cujo filme “Argo” é um exemplo acabado de propaganda da CIA). Mas com Roger Waters o tiro saiu-lhes pela culatra.
No decurso de um concerto em Barcelona a 13 de Abril, Waters denunciou os «Capacetes Brancos» sírios como “uma organização de fachada que existe unicamente para gerar propaganda para jihadistas e terroristas.”

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Advertindo que as não confirmadas reclamações do grupo acerca de ataques com armas químicas sobre território controlado pelos insurgentes tinham por objectivo desencadear uma intervenção militar ocidental, Waters alertou a assistência: “Se fossemos dar crédito à propaganda dos Capacetes Brancos e de outros, estaríamos a encorajar os nossos governos a começar a bombardear as pessoas na Síria. Isto seria um erro de proporções colossais para todos nós, enquanto seres humanos.”
Tinha efectivamente experiência directa com a poderosa operação de relações públicas pró-guerra por detrás dos Capacetes Brancos. Fora em Outubro de 2016 que essa empresa de relações públicas representando os Capacetes Brancos tinha tentado recrutá-lo, convidando-o para um luxuoso jantar organizado por um multimilionário britânico-saudita, Hani Farsi. Disseram ao lendário músico de rock e reconhecido activista que ao subscrever a missão daquela organização, poderia ajudar a “elevar as vozes dos pacíficos heróis sírios.”
Dias antes deste recente concerto em Barcelona, Waters foi de novo pressionado no sentido da apoiar os Capacetes Brancos, desta vez por um excêntrico fotojornalista associado ao ele que descreveu como “uma muito poderosa rede síria.” Esse activista pedia para se juntar a Waters no palco para proferir uma mensagem destinada às “crianças da Síria.”
Waters não deu resposta a nenhuma das solicitações.
Estas solicitações enviadas por correio electrónico por representantes e activistas dos Capacetes Brancos foram disponibilizadas por Waters ao Grayzone Project e foram publicadas no seu site. Estes documentos demonstram que o endinheirado aparelho de relações públicas daquela organização têm tomado celebridades como alvo-chave para atingir os corações e as mentes de um público ocidental alargado.
Ao contrário de outras celebridades, Waters deu-se ao trabalho de se informar sobre os Capacetes Brancos e de investigar a sua agenda de acção.
“Fiquei bastante desconfiado com o convite para aquele jantar dos Capacetes Brancos,” disse Waters ao Grayzone Project. “E as minhas piores suspeitas confirmaram-se.”
A abordagem inicial de The Syria Campaign
O convite para o jantar de Outubro de 2016 foi entregue a Waters por um representante do Corniche Group, uma empresa financeira internacional propriedade do multimilionário saudita com base em Londres Hani Farsi. Farsi solicitava a presença de Waters num jantar de recolha de fundos que ele organizara em apoio de The Syria Campaign.
The Syria Campaign é uma fachada bem financiada de relações públicas criada para promover os Capacetes Brancos como um grupo de heróicos salva-vidas que necessitam da protecção dos militares ocidentais. Através de uma série de petições e de manifestações públicas, The Syria Campaign procurou, sem sucesso, que fosse estabelecida uma zona de sobrevoo proibido que, a ter sido estabelecida, teria provavelmente resultado no tipo de intervenção militar ocidental que derrubou o Presidente líbio Muhamar Khadafi e desmantelou a Líbia.
A hábil empresa tem também recorrido a acções públicas de impacto, como um flash-mob pró Capacetes Brancos com a participação de uma orquestra na Estação Central de Nova Iorque, cujos participantes foram pagos $600 cada.
A relação de Farsi com The Syria Campaign tinha sido mantida sob reserva até agora. Um magnate sírio-britânico chamado Ayman Asfari tem assumido um papel muito mais destacado junto da empresa de relações públicas, provendo-a com fundos para a promoção do apoio EUA e G-B à mudança de regime na Síria. Waters foi informado que a mulher de Asfari, Sawsan, estaria envolvida no jantar de recolha de fundos de 2016.
No decurso dos últimos dois anos, The Syria Campaign obteve apoios para o trabalho dos Capacetes Brancos por parte de actores como George Clooney, Aziz Ansari, Ben Affleck, e estrelas pop como Coldplay e Justin Timberlake. The Syria Campaign orquestrou também a produção de um documentário Netflix de 2017 sobre os Capacetes Brancos, vencedor de um Óscar. Na mensagem electrónica dirigida a Waters um funcionário do Corniche Group apelava a que este visse o filme e enviava um link para a sua apresentação.
“Eu encorajaria as celebridades que subscreveram o apoio aos Capacetes Brancos a que deixem de os apoiar, uma vez que já sabemos o que é que eles são,” disse Waters ao Grayzone Project. “Não os censuro por terem sido convencidos. Aparentemente os Capacetes Brancos eram apenas boas pessoas fazendo boas acções. Mas agora sabemos que eles procuram encorajar o ocidente a lançar ilegalmente bombas e mísseis sobre a Síria.”
Waters disse que concluíra também que The Syria Campaign – a empresa de relações públicas por detrás dos capacetes brancos – não era apenas a voz humanitária que pretendia ser, mas uma engrenagem empresarial que representava interesses bastante mais prosaicos.
O principal fundador de The Syria Campaign, Asfari, foi descrito pelo jornal britânico The Independent como um dos super-ricos exilados sírios preparado para tomar conta da reconstrução do país se Assad fosse afastado e para, presumivelmente, angariar lucrativos contratos no processo.
No convite enviado a Waters, The Syria Campaign incluía referências a artigos que pareciam comunicados de imprensa dos Capacetes Brancos: um de Time Magazine e outro do Guardian apelando ao comité Nobel a que atribuísse o seu máximo galardão à organização. Aparentemente The Syria Campaign assumia o crédito de ter produzido ambas as peças.
Financiamento governamental, actividade extremista violenta
A realidade dos Capacetes Brancos é muito mais perturbante do que aquilo que os seus contratados promotores de relações públicas poderão admitir. Não apenas têm os Capacetes Brancos actuado exclusivamente ao lado dos insurgentes islamitas extremistas, incluindo a filiada local da Al Qaeda Jabhat al-Nusra e o ISIS, como os seus membros têm participado em numerosas e documentadas execuções públicas, e ajudado os extremistas a ver-se livres dos corpos decapitados daqueles que mataram.
Incapaz de ocultar os factos documentados acerca das ligações dos Capacetes Brancos com os insurgentes jihadistas, The Syria Campaign publicou um extenso relatório desmentindo todas as informações críticas.
Na mensagem electrónica enviada a Waters, The Syria Campaign assumiu o crédito de ter “ajudado estes trabalhadores salva-vidas a obter mais de $15 milhões de financiamentos governamentais e tê-los tornado uma organização conhecida em todo o lado.”
Efectivamente, desde que os Capacetes Brancos foram criados na Turquia por um antigo agente do MI5 chamado James Le Mesurier, o grupo recebeu pelo menos $55 milhões do Foreign Office britânico, $23 ou mais da Agência para Iniciativas de Transição da USAID – o braço efectivo do Departamento de Estado para «mudanças de regime» – e uma quantidade não especificada de milhões do reino do Qatar, que tem também apoiado uma variedade de grupos extremistas na Síria, Al Qaeda incluída.
Os Capacetes Brancos são um recurso de rotina utilizado pelos governos que os financiam como fonte no terreno acerca de alegados ataques químicos, incluindo o mais recente incidente em Douma. Quando o Secretário da Defesa James Mattis citou «redes sociais» em vez de qualquer prova científica de um ataque químico em Douma, estava a referir-se a um vídeo gravado por membros dos Capacetes Brancos. Do mesmo modo, quando o porta-voz do Departamento de Estado Heather Nauert tentava explicar porque é que os EUA tinham bombardeado a Síria antes que os inspectores da OPCW tivessem produzido um relatório no terreno, ela afirmou, “Temos a nossa própria informação.” Com pouco mais para mostrar, estava provavelmente a referir-se ao material difundido nas redes sociais por membros dos Capacetes Brancos.
Um apelo final de um activista excêntrico
Nos dias que antecederam o concerto de Waters a 13 de Abril em Barcelona, um assistente recebeu uma mensagem de um fotojornalista francês chamado Pascal Hanrion que se apresentava a si próprio como “um militante junto dos capacetes brancos sírios para denunciar os crimes contra a humanidade na Síria,” e parte de uma “muito poderosa rede síria.” Ao contrário dos profissionais da The Syria Campaign, Hanrion parecia ser um activista independente.
Ainda em Julho de 2016, Hanrion correu um percurso tipo maratona através dos Alpes Suíços envergando um capacete branco que lhe fora oferecido de presente pelos trabalhadores salva-vidas de Jisr al-Shugour, localizada na província síria de Idlib, controlada pela Al Qaeda. Segundo o jornalista Jenan Moussa, as casas dos residentes de origem em Jisr al-Shugour tinham sido entregues pela filiada local da Al Qaeda a jihadistas Uighur chineses e suas famílias.
Na sua mensagem, Hanrion solicitava juntar-se no palco a Waters de forma a poder enviar uma mensagem às “crianças da Síria” recordando-lhes: “não estais esquecidas!”
Em vez de permitir que o excêntrico activista acedesse ao palco, Waters proferiu uma mensagem dele próprio, incitando a sua audiência a desconstruir tijolo a tijolo o muro de narrativas pró-guerra.
O que deveríamos fazer é ir e persuadir os nossos governos a que não vão lançar bombas sobre as pessoas,” pediu Waters à multidão, inspirando ondas de aplausos. “E não certamente até que tenhamos feito toda a investigação que é necessária para termos uma ideia clara do que está realmente a acontecer. Porque vivemos num mundo em que a propaganda parece ser mais importante do que a realidade.”



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