terça-feira, 26 de junho de 2018

Curdos perderam a chance de decidir o próprio destino: Só Damasco pode salvar os curdos, por Elijah J. Magnier


Elijah J Magnier, Blog

Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu


A decisão de Donald Trump de cair fora da Síria “muito rapidamente” e de entregar a cidade de Manbij à Turquia caiu como um raio sobre os curdos sírios reunidos na parte norte do país. 
Esses curdos, que operam diariamente como escudo humano para proteger as forças dos EUA, foram deliberadamente manipulados pelo establishment dos EUA para garantir cobertura e proteção às forças norte-americanas de ocupação no nordeste do Levante. Agora, Trump parece prestes a fritar os curdos, de um dia para o outro. Não satisfeito com isso, Trump está “leiloando” os curdos, apostando para ver que país árabe ocupará a área que os curdos controlam e ganhará o território no qual estão atualmente os acampamentos curdos.
Que opções restam aos curdos?

Bem claramente, nada preocupa menos o presidente dos EUA que o destino dos curdos. Trump está pronto para abandoná-los, apesar de saber que não há lugar para onde os curdos possam ir, nem país aos quais possam pedir proteção. Os curdos perderam a confiança do governo de Damasco por causa de suas escolhas políticas e militares pouco ponderadas – e evidentemente são caçados pela Turquia, que considera todos os curdos na Síria como membros das Unidades de Proteção do Povo Curdo [cur. YPG], grupo coligado a terroristas, pelos padrões de Ankara.

Os “mitos” que cercam os curdos (“são os melhores combatentes contra o 'Estado Islâmico' (ISIS), e/ou “são os melhores aliados dos EUA”) são tolices e nada têm a ver com a realidade. É retórica brotada principalmente dos anos 90s, quando os EUA usaram o Curdistão para garantir um ponto de apoio no Iraque durante a era Saddam Hussein. De fato, os EUA viram nos curdos uma ponte para o Oriente Médio, que lhes permitiu fixar naquela área uma fortaleza militar e de inteligência para os próprios norte-americanos e seus aliados israelenses. Com a guerra que impuseram à Síria, os EUA plantaram-se na área de al-Hasaka, no Curdistão sírio, na esperança de dividirem a Mesopotâmia e o Levante. Mais importante, os curdos no Iraque e na Síria não têm problemas para declarar os fortes laços que os ligam a Israel, apesar da animosidade contra Israel nos dois estados onde vivem: Iraque e Síria.

O Exército Árabe Sírio e seus aliados combateram contra o ISIS em todo o território sírio, perdendo dezenas de milhares de oficiais e soldados. E no Iraque, as forças de segurança iraquianas combateram contra o ISIS em toda a geografia do Iraque onde o ISIS estava presente e perderam milhares de oficiais e soldados (só o grupo Hashd al-Sha’bi perdeu mais de 11 mil militantes).

Mas o investimento e a perda de vidas curdas foram consideravelmente menores. No Iraque, combatendo contra o ISISna área curda ao norte, os curdos perderam cerca de 2.000 militantes. E na Síria, onde os curdos combateram contra oISIS, as perdas curdas são da ordem de centenas de militantes.


Os EUA apostaram num sonho curdo: curdos sírios e curdos iraquianos queriam estabelecer um Estado. Washington alimentou esse sonho, em nome da necessidade de contar com forças locais como 'representantes' locais dos EUA para estabelecer bases em áreas onde o Irã tem seus centros de influência (no Iraque e na Síria). O plano curdo falhou no Iraque por efeito da firme determinação do governo central iraquiano de impedir que o país fosse dividido. E na Síria, o plano nunca teve e continua sem ter qualquer chance de sucesso, porque Turquia, Irã, Iraque e Síria têm suas próprias razões para impedir tanto um estado curdo como qualquer tipo de ocupação pelos EUA na parte norte do Levante.

Ninguém acredita que os EUA saiam sem arrancar alguma coisa em troca da retirada ou preço ainda mais pesado para o caso de lá permanecerem. Trump já retrocedeu da decisão de retirar-se da Síria “muito rapidamente”, sem apresentar qualquer cronograma específico para continuar onde está. Depois pediu que outros países substituíssem os norte-americanos, sem levar em conta a opinião dos curdos e sem lhes dar qualquer atenção. Os curdos, verdade seja dita, são a menor das preocupações de Trump: são gastos pelos quais ele não tem qualquer interesse. Os norte-americanos, de fato, não investiram dinheiro algum, nem na reconstrução da cidade de Raqqah que eles destruíram para esvaziá-la e poder usá-la para realocar o ISIS.

Seja qual for a decisão (quer EUA fiquem, quer saiam da Síria), os curdos sírios perderam a chance de decidir o próprio destino, em grande medida por causa das incontáveis vezes que optaram por continuar escondidos por baixo das saias dos EUA.

No enclave de Afrin no noroeste da Síria, a administração curda recusou-se a devolver a área ao controle do governo sírio. Os curdos decidiram lutar contra seu mais feroz inimigo, a Turquia, durante dois meses, tempo em que perderam toda a área e criaram centenas de milhares de refugiados que fugiram para al-Hasaka e Deir-Ezzour. O governo de Afrin supunha que o mundo correria a lhes garantir apoio e impedir a ação militar dos turcos: foi o maior dos vários grandes erros que os curdos cometeram. 

Na verdade, só o presidente Bashar al-Assad enviou ajuda: 900 homens das Forças de Defesa Nacional para ajudar na resistência em Afrin, mas não conseguiu convencer o governo local a permitir que o Exército Árabe Sírio assumisse o controle do enclave antes que fosse tarde demais. (Porque os EUA preferiam ter no controle de Afrin os soldados de Ankara – inimigos que os curdos odeiam mais que quaisquer outros –, que Damasco.)

Os curdos parecem ainda não ter compreendido que já não são o “filho pródigo” do ocidente. Escolheram esquecer o erro que os curdos iraquianos cometeram ao decidir ir em frente com seu referendum, quando fracassaram tão espetacularmente, sem obter um estado independente. E os EUA estão provavelmente felizes de ver mais e mais curdos de Afrin fugindo em bando para al-Hasaka, enchendo a região com mais e mais 'agentes representantes' dos EUA, favorecendo os objetivos de Washington no Oriente Médio.

Sabe-se que os curdos perderam centenas de militantes na luta contra o ISIS para recuperar Manbij, Raqqah e outras cidades em al-Hasaka e Deir-ezzour. Lutaram para apoiar a ocupação do nordeste da Síria pelos EUA, dando a Washington um pretexto para permanecer em territórios da Síria, alegando que a presença norte-americana teria a ver com a “guerra ao terror”. Não só os EUA não intervieram em Afrin, como, ainda pior, Washington ordenou que as forças do YPG curdo deixassem Manbij, como desejava a Turquia, aliada dos EUA na OTAN.

O ministro de Relações Exteriores da Turquia Mevlut Cavusoglu disse, depois de se reunir com seu contraparte norte-americano Mike Pompeo, que “os EUA e a Turquia começarão a controlar a cidade de Manbij”. Tribos árabes locais al-Bubna, al-Baqqarah e al-Tayy emitiram comunicados dando boas vindas “às forças turcas em Manbij que afinal porão fim à ocupação da cidade por forças do PYD e PKK”.

Claramente, os curdos, consentiram livremente que o establishment dos EUA os manipulasse à vontade, sempre esperando recolher as migalhas deixadas pelas forças norte-americanas e, talvez, concretizar seu sonho de independência. Esse sonho hoje parece mais distante do que nunca, de se realizar, pelo menos nas próximas décadas.

Os curdos foram realmente surpreendidos com a declaração de Donald Trump sobre uma retirada rápida da Síria. Deram-se conta, de repente, de que estavam sendo descartados, sem mais nem menos, de um dia para o outro. É difícil para os curdos ver o establishment dos EUA lhes dar as costas e agir na direção exclusiva de seus próprios interesses nacionais, sem qualquer consideração ao que possa acontecer depois que se forem, ignorando completamente os sacrifícios que os curdos fizeram para ajudar os EUA a alcançar seus objetivos na Síria.

Quando Trump concordou com manter as forças dos EUA na Síria por um pouco mais, a decisão foi como uma injeção de temporária – mas falsa – esperança para os curdos, que viram o destino adiado. Mas por quanto tempo? Só até que os EUA evacuem todas as suas forças ou sejam expulsos de lá sob o fogo da “Resistência Síria” que começa a ganhar músculo nas áreas sírias ocupadas pelos EUA.

A resistência recém anunciada parece reunir tribos locais, especialmente “Bakkara” e “al-Assasneh”, dentre outros grupos locais prontos a dar combate às forças dos EUA – um movimento que faz lembrar o modo como começou a insurgência contra as forças dos EUA em Bagdá, em 2003.

O que os sírios curdos com certeza não veem ou talvez nem comecem a perceber é que Trump não mudará uma vírgula nos seus planos para protegê-los nem porá sua força aérea à disposição dos curdos para transportá-los aos EUA quando chegar a hora de deixarem a Síria. O resultado é fácil de prever: quando a guerra terminar, ninguém precisará de 'agentes locais' nem quererá saber deles. Sem guerra, os 'agentes locais' de forças estrangeiras tornam-se carga pesada demais.


Além do mais, os EUA não têm qualquer intenção de erradicar o ISIS – a única justificativa verossímil (digamos) para a presença de norte-americanos na Síria. O ISIS é o pretexto para que Washington mantenha soldados no Levante. Também auxilia nos objetivos dos EUA, quando seus militantes atacam a única estrada entre Síria e Iraque, a albu Kamal – estrada al Qaem. E ainda dá indicações – embora fracas – de que a Síria continua instável.

Os EUA não permitirão que a Turquia saia, sabendo que Rússia e Irã esperam de braços abertos por Ankara. Para mantê-la ao seu lado, Washington ofereceu à Turquia numa bandeja de prata o controle curdo de Manbij. E os EUA sabem bem que a Turquia jamais aceitará um estado curdo sobre sua fronteira com a Síria. Tudo isso considerado, é simples questão de tempo até que os curdos deem-se conta de que foram vendidos, e que o destino deles está selado.

Num dado momento, o governo central em Damasco considerou traidores os curdos. E eles continuarão a ser vistos como tal, a menos que parem de agir como escudo humano para proteger os EUA. O presidente Assad abriu a porta para negociações diretas e os curdos disseram-se “prontos para negociar”. O preço que os curdos têm de pagar não é complicado: têm de parar de garantir proteção às forças ocupantes (EUA, França e Grã-Bretanha) no norte da Síria.

Os curdos abriram a porta aos turcos que por ali invadiram território sírio para ocupar Afrin, em vez de se aproximarem do estado que os recebeu quando se assentaram no Levante. Os curdos podem usar um território, mas o território não lhes pertence, pertence ao estado e ao povo da Síria. É hora de os curdos acordarem.
Mapa: Etnias no norte da Síria


E então? O que fazer com os curdos? Quem permanece ao lado deles?



Trump sempre esteve pronto para deixar para trás os curdos, mas adiou a decisão porque interessa a Israel – não aos EUA – manter a ocupação norte-americana no norte da Síria. Trump também quer dinheiro de Arábia Saudita e Emirados. Os EUA já estão convertidos em exército mercenário, “pistoleiros de aluguel”. 

Segundo a mídia, Emirados e Arábia Saudita ofereceram 400 milhões de dólares, mas Trump está pedindo 4 bilhões de dólares para manter em campo os soldados norte-americanos. Parece que as forças dos EUA converteram-se em espécie de galinha dos ovos de ouro distribuídos pelos ricos países do Oriente Médio. E nessa briga de cachorro grande não há lugar para os curdos.

A equação é muito simples: se as forças dos EUA ficam e ocupam o nordeste da Síria, Washington terá de investir para reconstruir a infraestrutura, o que implica gastar dinheiro de verdade. Não é movimento que combine com os objetivos de Trump, que quer recolher dólares, não investir, um dólar, que fosse. Isso é a realidade contra a qual os curdos resistem e, ao que parece, ainda não compreenderam completamente.

Para concluir, os curdos já não têm lugar especial sob as asas dos EUA. Deixaram de ser os únicos, no Oriente Médio, com laços com Israel. Bahrein, Arábia Saudita, Qatar e os Emirados já não escondem as visitas de funcionários de Israel e as reuniões de autoridades dos dois países, e todos falam abertamente a favor de melhor relacionamento com Tel Aviv.

Os sírios talvez só tenham uma última chance: recorrer ao governo central em Damasco para que opere como mediador; para isso, os curdos têm de parar de garantir cobertura a forças ocupantes, e compreender que não passam de bucha de canhão a serviço das relações EUA-Turquia. Os curdos precisam deixar bem claro que não mais se oferecerão como escudo atrás do qual os EUA movem-se para dividir a Síria. Mas todos os recentes gentes dos curdos evidenciam que tal mudança é extremamente improvável. 


Mas não há outra via adiante para eles. E ainda depende de decidirem tomar e conseguirem tomar essa via. Mas se o fizerem, ainda podem obter reintegração plena no Estado que os acolheu quando chegaram ao Levante, há 100 anos.

blogdoalok



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