quarta-feira, 27 de junho de 2018

Depois de fracassar no Iraque, na Síria, no Líbano e no Iêmen, Arábia Saudita tenta uma “vitória” na Palestina, por Elijah J. Magnier


Elijah J Magnier, Blog

Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu

A Arábia Saudita está à procura de uma “vitória” depois de repetidas derrotas de sua política exterior no Oriente Médio. Na Síria, a rica petromonarquia, apesar de ter consumido dezenas de bilhões de dólares na empreitada, não conseguiu a tão desejada 'mudança de regime'. 
Tirou jihadistas da cadeia e facilitou-lhes a viagem para o Levante para que convertessem a Síria num “estado falhado” que jamais conseguisse opor-se à expansão do Wahhabismo e de Israel. No Iêmen, mais de 40 mil pessoas foram mortas no bombardeio e nos ataques indiscriminados de sauditas-Emirados contra o mais pobre dos países muçulmanos no Oriente Médio. 
Resultado disso, 22 milhões de pessoas, segundo o Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas, carecem hoje de urgente socorro humanitário. No Iraque – talvez o maior desapontamento que os sauditas sofreram –, o governo central em Bagdá conseguiu evitar que a Mesopotâmia fosse dividida. E no Líbano, aliados sauditas não conseguiram assegurar maioria nas eleições para o Parlamento, na qual os aliados do Irã saíram vitoriosos. 


Só restou aos sauditas um último “dossiê” que ainda podem tentar promover: é a vez da Palestina.

A mídia israelense Maariv comentou um encontro secreto entre o príncipe coroado saudita Mohammad Bin Salman e o primeiro-ministro de Israel Benyamin Netanyahu no Palácio Real da Jordânia, em Aman, semana passada. A notícia foi 'vazada’ para os jornais – no típico estilo israelense para fugir de qualquer responsabilidade direta. Claramente, Israel quer beneficiar-se da oportunidade de Trump na presidência, para obter o maior número possível de concessões, mais do que jamais obteve de qualquer presidente dos EUA. Mas Trump começou por disparar ameaças contra líderes árabes, especificamente contra as ricas petromonarquias. Disse que só estariam no poder graças à proteção que lhes dá o exército norte-americano. E se quisessem que as coisas continuassem nesse pé... Foi e é ameaça clara.

Trump fez pior, impondo aos sauditas pesadas contas a pagar, a título de “acordos comerciais”. E aproveitou-se também da submissão dos árabes e de aceitarem esse tipo de relação de uma só mão, para atrair para o seu lado o jovem príncipe coroado, forçando a criação de um relacionamento em alta velocidade entre os sauditas e Israel. Para proteger o reino, a Arábia Saudita não enviou delegação a Israel, mas fechou os olhos quando os EUA reconheceram “Jerusalém como capital de Israel”.

O Bahrein, os Emirados Árabes Unidos (EAU) e o Qatar já haviam estabelecido relações com Tel Aviv. Mas a Arábia Saudita é ainda vista como guardião da “Pedra Preta” mais sagrada dos muçulmanos, da “casa de Deus” em Meca construída por Abraão e que dezenas de milhões de muçulmanos visitam a cada ano. Assim sendo, a reunião cuja notícia vazou, entre o futuro rei e o líder israelense Netanyahu é evento significativo. É o começo da integração e de reconhecimento mais oficial de Israel pelos sauditas. Não há dúvidas de que é parte do que Trump e Israel estão preparando, a que deram o título de “o acordo do século”.

Na verdade, os EUA preparam-se para anunciar unilateralmente seu tal “acordo do século”. Unilateralmente, porque a principal parte envolvida, os palestinos, recusam qualquer acordo que considere Jerusalém como capital de Israel, que extinga o direito dos refugiados de retornar à Palestina e que separe Gaza e Cisjordânia. Como se espera, Trump exigirá que a Arábia Saudita (e os Emirados) financie seu “acordo”, apresentando tentações financeiras à Autoridade Palestina, ou a Palestina será atacada por pesadas sanções. Os EUA já cortaram $65 milhões da dotação desse ano garantida à Palestina pela Agência da ONU para Refugiados (UNRWA). Israel acusa a UNRWA de estar contribuindo para o crescimento, não para a redução do número de refugiados palestinos. Essa queixa, formulada por Israel, visa a pôr fim, para todos os palestinos até à possibilidade de retornarem à Palestina.

O presidente da Autoridade Palestina Mahmoud Abbas boicotou e criticou duramente o establishment norte-americano, desde o reconhecimento ilegal de Jerusalém como capital de Israel. É onde a Arábia Saudita terá maior serventia.

Abbas recusou-se a receber o principal assessor e genro do presidente dos EUA Jared Kushner e Jason Greenblatt, representante especial de Trump para negociações internacionais. Abbas sabe que não pode tomar nenhuma decisão que vá além de sua autoridade pessoal, por maior que seja a pressão de EUA ou dos sauditas contra seu cargo na Autoridade Palestina.

Na verdade, o apoio do Golfo à decisão de Trump, em relação a Jerusalém e a todas as demais escolhas políticas que garantam vantagem desmedida a Israel à custa de direitos dos palestinos, está fazendo aumentar sempre mais o isolamento da Arábia Saudita, entre as populações árabes e muçulmanas (que andam na direção oposta aos próprios ditos governantes). Israel e os EUA carregam a Arábia Saudita com eles, para garantir alguma legitimidade oficial ao tal “acordo do século”. Mas, mais uma vez, não se pode esquecer que a Palestina arde, em fogo desde que Trump anunciou Jerusalém como capital de Israel. Os palestinos continuarão a escalar em solo, custe o que custar em vidas humanas, porque estão em causa seus direitos mais fundamentais. E de modo algum cederão nesses direitos, quer a Arábia Saudita aprove os delírios de Israel ou não.

O príncipe coroado Mohammad Bin Salman tem os meios para pressionar o rei Abdallah da Jordânia, guardião haxemita dos sítios sagrados de Jerusalém, usando poder financeiro para oferecer soluções à crise econômica pela qual a Jordânia passa. Mas a Arábia Saudita não pode de modo algum oferecer Jerusalém a Trump ou, na verdade, a Netanyahu, porque al-Aqsa pertence a todos os crentes, não só ao palestinos.


Parece inacreditável que a Arábia Saudita não perceba que está empurrando os palestinos para os braços do Irã – único país, além da Síria e aliados no “Eixo da Resistência”, que recusa a hegemonia dos EUA, não importa o quanto Trump os ameace. Forçar a mão dos palestinos não levará a nenhum efeito positivo. Só fará escalar as agitações na Palestina e gerará mais motivos e pretextos “legítimos” para a ação dos jihadistas no Oriente Médio, ajudando-os a conseguir mais e mais novos recrutas para lutar contra os países que se submeteram cegamente ao desejo de EUA-Israel – o que sempre custa alto preço – e ignoraram a vontade do povo.

blogdoalok

Nenhum comentário :

Postar um comentário