sexta-feira, 22 de junho de 2018

EUA: a armadilha da dívida conduz à espiral da morte


por F. William Engdahl

A economia dos EUA e suas estruturas financeiras nunca recuperaram do grande colapso financeiro de 2008 apesar de dez anos já se terem passado. 
Provocou pouca discussão o facto de que no ano passado o Congresso republicano tenha abandonado o processo de cortes orçamentais obrigatórios ou retenção automática que havia sido votado numa débil tentativa de travar a ascensão dramática da dívida do governo estado-unidense. Isso foi simplesmente um factor adicional no que logo seria reconhecido como uma clássica armadilha da dívida. O que está agora a avultar não apenas sobre a economia dos EUA mas também sobre o sistema financeiro global é uma crise que poderia resultar no fim do sistema dólar pós 1944. 
Primeiramente, alguns antecedentes básicos. Quando o presidente Nixon, por conselho de Paul Volcker, então secretário do Tesouro, anunciou em 15 de Agosto de 1971 o fim unilateral do sistema ouro-dólar de Bretton Woods, para substituí-lo por um dólar flutuante, economistas de Washington e banqueiros da Wall Street perceberam que o papel único do US dólar como divisa de reserva principal mantida por todos os bancos centrais e a divisa para o comércio mundial, especialmente petróleo, dava-lhes algo que parecia ser uma prenda do paraíso monetário. 

Enquanto o mundo precisasse de US dólares, Washington podia incorrer em défices governamentais infindáveis. Bancos centrais estrangeiros, especialmente o Banco do Japão na década de 1980 e, desde a viragem do século, o Banco Popular da China, teriam pouca opção senão reinvestir seu excedente comercial ganho em dólares em títulos do Tesouro dos EUA com juros e classificação AAA. Este perverso sistema dólar permitiu a Washington financiar suas guerras em lugares distantes como o Afeganistão ou Iraque com o dinheiro de outros povos. Durante a administração de George W. Bush, quando o défice orçamental de Washington excedia anualmente um milhão de milhões (trillion) de dólares, o vice-presidente Dick Cheney brincou cinicamente: "a dívida não importa; Reagan provou isso". Até certo ponto, assim parecia. Agora estamos a ficar perigosamente próximos daquele "ponto" em que a dívida importa. 

Ascensão da dívida federal 

Falando na generalidade, há três grandes divisões da dívida medida na economia dos EUA. A dívida federal de Washington, a dívida corporativa e a dívida privada familiar. Hoje, devido em grande parte a dez anos de taxas de juro historicamente baixas a seguir à maior crise financeira da história – a crise sub-prime de 2007-2008 que se tornou uma crise sistémica global depois de Setembro de 2008 – todos os três sectores contraíram empréstimos contraíram empréstimos como se não houvesse amanhã devido às taxas de juro quase zero do Federal Reserve e às suas várias Facilidades Quatitativas (Quantitative Easings). Nada de tão radical pode perdurar para sempre. 

Desde que irrompeu a crise financeira em 2008 a dívida federal dos EUA mais do que duplicou, de US$10 milhões de milhões para mais de US$21 milhões de milhões hoje. Mas estas condições foram tornadas manejáveis por uma política de emergência do Federal Reserve que tratou da crise financeira e bancária através da compra anual de quase US$500 mil milhões daquela dívida. Grande parte do remanescente foi comprada pela China, Japão e mesmo a Rússia e Arábia Saudita. Além disso os níveis de dívida foram restringidos pelos tectos bipartidários de gastos estabelecidos no Budget Control Act de 2011 que mantiveram défices recentes parcialmente sob controle. 

Agora as condições da futura dívida federal e do crescimento do défice estão pré-programadas para crise sistémica ao longo dos próximos vários anos. 

O desastre do "Trumponomics" 

A teoria económica do Trump Tax Cuts Act de 2017, assinado em Dezembro, corta dramaticamente certos impostos sobre corporações de negócios de 35% para 21%, mas não compensou isso com aumentos de receitas alhures. A promessa é de que impostos menores incitarão o crescimento económico. Trata-se de um mito sob as presentes condições económicas e o fardo sobre o público em geral e privado torna-se mais pesado. Ao invés disso, a nova lei fiscal, assumindo condições económicas ideais, diminuirá as receitas expectáveis num total de US1 milhão de milhões ao longo dos próximos 10 anos . Se a economia entrar em recessão severa, o que é altamente provável, as receitas fiscais afundarão e os défices explodirão ainda mais. 

Assim, o que o novo corte fiscal de Trump fará é aumentar dramaticamente a dimensão do défice orçamental anual dos EUA. O Congressional Budget Office estima que já no Ano Fiscal de 2019 o défice anual que deve ser financiado pela dívida atingirá US$1 milhão de milhões. Por sua vez o Treasury Borrowing Advisory Committee espera emissões de dívida governamental de US$955 mil milhões para o Ano Fiscal de 2018, a comparar com os US$519 mil milhões no Ano Fiscal de 2017. Assim, o défice nos Anos Fiscais de 2019 e 2020 excederá US$1 milhão de milhões. Em 2028, daqui a dez anos, sob suposições económicas moderadas, a dimensão da dívida federal dos EUA ascenderá a um montante insustentável de US$34 milhões de milhões, a comparar com os US$21 milhões de milhões actuais, e o défice em 2028 excederá os US$1,5 milhão de milhões. E só neste ano de 2018, com taxas de juro historicamente baixas, o custo dos juros só sobre o total da dívida federal atingirá os US$500 mil milhões. 

Tomadores de empréstimos zumbis ... bombas relógio 

Agora, após quase uma década de sem precedentes baixas de juro para o salvamento externo (bail out) da Wall Street e para criar nova inflação de activos em acções, títulos e habitação, o Fed está nas etapas iniciais daquilo que alguns chamam Endurecimento Quantitativo (Quantitative Tightening, QT). As taxas de juro estão a subir e assim foi durante o ano passado, até agora muito gradualmente pois o Fed está a ser cauteloso. Contudo, o Fed continua a elevar as taxas e agora os Fundos do Fed posicionam-se nos 1,75% depois de há aproximadamente dez anos estarem efectivamente em zero. Se eles travassem agora isto assinalaria um pânico de mercado que o Fed sabe que seria muito pior do que diz. 

Porque nunca na sua história o Federal Reserve entregou-se a um tal experimento monetário com taxas de juro tão baixas por tanto tempo, os efeitos da reversão também estão em vias de serem sem precedentes. No início da crise financeira de 2008 as taxas do Fed estavam em torno dos 5%. Isso é o que o Fed está a pretender para retornar ao "normal". Contudo, com a subida das taxas de juro, o sector mais do crédito, o assim chamado non-investment grade ou "junk bonds" enfrenta incumprimentos estilo dominó. 

A Classificação de Crédito da Moody's acaba de emitir uma advertência de que, excepto por alguma espécie de milagre, quando as taxas de juro dos EUA sobem, e estão a subir, até 22% das corporações estado-unidenses que estão a ser mantidas vivas através da contracção de empréstimo a taxas historicamente baixas, não só no petróleo de xisto (shale oil) mas também na construção e nos serviços público, as chamadas corporações "zumbi", enfrentarão uma avalanche de incumprimentos em massa da sua dívida. O Moody's escreve que, "baixas taxas de juros e o apetite do investidor por rendimentos (yields) pressionaram companhias a emitir montanhas de dívida que apresentam níveis de protecção comparativamente baixos para investidores". O relatório da Moody's prossegue declarando alguns números alarmantes: desde 2009, o nível das companhias globais não-financeiras classificadas como lixo ascendeu 58%, o que representa US$3,7 milhões de milhões em dívida pendente, o mais alto nível de sempre. Cerca de 40%, ou US$2 milhões de milhões, são classificadas como B1 ou mais baixo. Desde 2009, a dívida corporativa dos EUA aumentou 49%, atingindo um recorde total de US$8,8 milhões de milhões. Grande parte daquela dívida foi utilizada para financiar recompras de acções pelas companhias a fim de promoverem o seu preço em bolsa, a razão principal para a sem precedente bolha de mercado das acções na Wall Street. 

No total, 75% do gasto federal é economicamente não produtivo, incluindo os militares, o serviço da dívida, a segurança social. Ao contrário da Grande Depressão durante os anos 1930, quando os níveis da dívida federal eram quase nulos, hoje a dívida é de 105% do PIB e está em ascensão. O gasto na infraestrutura económica nacional, incluindo o Tennessee Valley Authority e uma rede de barragens e outras infraestruturas construídas pelo governo federal, resultou no grande boom económico da década de 1950. Mas gastar US$1,5 milhão de milhões num disfuncional programa do jacto F-35 para todas as finalidades não fará isso. 

Nesta situação precária Washington está a fazer o melhor que pode para hostilizar os próprios países de que precisa para financiar estes défices e comprar a dívida dos EUA – China, Rússia e mesmo Japão. Quando investidores financeiros pedirem mais juros para investir em dívida dos EUA, as taxas mais altas dispararão a avalanche de incumprimentos adverte a Moody's. Isto é o pano de fundo real das perigosas acções de política externa dos EUA no período recente. Ninguém em Washington parece preocupar-se e isso é o facto alarmante. 



[*] Consultor de risco estratégico e conferencista, autor de obras sobre petróleo e geopolítica. 

O original encontra-se em https://journal-neo.org/2018/06/01/usa-in-a-debt-trap-death-spiral/ 

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .



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