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sexta-feira, 1 de junho de 2018

Iraque : a presença dos EUA em questão

Thierry Meyssan

O Iraque jamais teve paz após a invasão norte-americana, há quinze anos atrás, de tal maneira que os eleitores perderam a confiança nas diferentes instituições políticas que se sucederam. Seja como for, os que participaram no escrutínio legislativo de 12 de Maio escolheram listas anti-EUA, sancionando assim a do Primeiro-ministro que, no entanto, não havia governado mal. Conseguirão os Estados Unidos manter a desordem ? Ou serão realmente forçados a partir ?
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O líder nacionalista Iraquiano, Moqtada al-Sadr


12 de Maio, desenrolaram-se eleições parlamentares no Iraque. Elas deviam consagrar a “Aliança para a Vitória” do Primeiro-ministro, Haider al-Abadi, ou seja, a partilha do país entre os Estados Unidos e o Irão.
Ora, não foi nada disso o que se passou. Em qualquer caso, as duas coligações (coalizões-br) vencedoras são a «Aliança dos Revolucionários para a Reforma» e a «Aliança da Conquista»: duas formações anti-EUA.
Talvez os iraquianos tenham sido influenciados pelo anúncio, no próprio dia das eleições, da retirada dos EUA do acordo nuclear com o Irão (JCPoA). É possível. Seja como for, apenas um terço dos eleitores se deslocou às urnas e votou esmagadoramente contra os Estados Unidos.
Observe-se, de passagem, que o acordo de não-agressão EUA-Irão [1], posto em causa por Donald Trump, não se aplicava unicamente ao Iraque, mas também ao Líbano. O que explica a ausência de reacção dos EUA à eleição do Presidente Michel Aoun, em 2016.
Após um momento de silêncio, inúmeros ex-deputados Iraquianos denunciaram fraudes e reclamaram a anulação do escrutínio. Se a princípio se tratava apenas de contestações em circunscrições particulares, o movimento exige, agora, um novo escrutínio nacional.
Surpreendendo, o líder da Aliança dos Revolucionários para a Reforma (na frente da contagem), Moqtada al-Sadr, declarou que não veria qualquer objecção a isso. Significa, segundo ele, que mesmo que tenha havido fraudes aqui e ali, elas apenas podem ter como consequência a eliminação desta ou daquela personalidade, não do total do resultado: a maré anti-EUA .
O programa do clérigo xiita Moqtada al-Sadr é simples: retirada de toda a presença estrangeira (salvo diplomática), seja norte-americana, turca ou iraniana. Sem preconceber o que acontecerá com as tropas Turcas ilegalmente estacionadas em Bachiqa, e sabendo que os Iranianos não precisam de enviar tropas para o Iraque para aí estarem representados, esta mensagem dirige-se, prioritariamente, aos 100.000 Norte-americanos ainda presentes, entre os quais um quinto de soldados regulares.
A outra mensagem de Moqtada al-Sadr —apoiado pelo Partido Comunista— é o fim do sectarismo. Parece que os Iraquianos assimilaram que, na ausência de um regime despótico como o de Saddam Hussein, apenas a unidade nacional permite defender o país. Foi por isso que Moqtada al-Sadr se voltou, antes das eleições, para a Arábia Saudita e para as outras potências sunitas do Golfo Pérsico. Ele define-se como um nacionalista, no sentido do baasismo original: não como um nacionalista iraquiano, antes como um nacionalista árabe.
Foi também por isso que os eleitores não deram apoio maciço à “Aliança da Vitória” do Primeiro-ministro : ao fazer referência à sua vitória sobre o Daesh (E.I.), Haider al-Abadi rejeitava os antigos baasistas que apoiaram, por “default”, a organização terrorista [2].
A propaganda da Administração Bush assimilara os baathistas de Saddam Hussein aos nazistas. Washington tinha qualificado o Partido Baath iraquiano de «organização criminosa» e interdito aos seus membros actuação na política. Quinze anos mais tarde, esta decisão ainda é a causa principal dos problemas que atingem o país. A isso, deve acrescentar-se a Constituição sectária, redigida pelo Israelo-Ianque Noah Feltman e imposta pelo Pentágono, que faz pairar permanentemente o espectro de divisão do país em três Estados distintos (xiitas, sunitas e curdos). Seja como for, foi-se o tempo em que a CIA poderia orquestrar, por baixo da mesa, a guerra civil e desviar a raiva anti-EUA para perseguições inter-comunitárias.
No Irão, os partidários do Presidente Hassan Rohani decidiram interpretar o escrutínio iraquiano como uma erupção populista contra a corrupção. Enquanto os partidários dos Guardiões da Revolução salientam mais o carácter unificador da Aliança de Moqtada al-Sadr.
Se o Irão procurar impor a sua vontade aos Iraquianos, será igualmente rejeitado por eles. Muito embora trabalhe nos bastidores para unir os opositores de Moqtada al-Sadr, Teerão nada diz em público. Obviamente, os acontecimentos evoluem a seu favor: é certo, os Estados Unidos rejeitam o acordo nuclear, mas deverão perder a sua influência no Iraque e a sua capacidade de agir a partir deste país, tanto na Síria como na Turquia.
A Turquia também está calada : Moqtada al-Sadr terá que gastar muita energia face aos Estados Unidos e não poderá atacar simultaneamente as tropas turcas, aliás, muito menos numerosas. Não chegou ainda o momento em que ele terá que se posicionar perante as questões regionais e a rivalidade irano-saudita.
Tradução
Alva

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