sábado, 2 de junho de 2018

Sanções dos EUA contra o Irã: O desmanche da Pax Americana


Christopher Wood,* Global Research (de Grizzle)

Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu

Entreouvido na Vila Vudu:


Sinceridade? Devemos mandar os Meirelles&Parentes para o Irã, pra estudar. Afinal, lá vige uma saudável 'austeridade' (sem arrocho) e são realmente considerados, com decência humana e política, os interesses da economia (do Irã) e do povo (do Irã)...

Problema será convencer o Irã a deixar entrar essa ralé que lambe bota de qualquer banqueiro que opere CONTRA interesses nacionais (de qualquer nação) e de todo o povo pobre do mundo.
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Uma questão prática é o que acontecerá aos investimentos europeus no Irã. O exemplo mais destacado é o investimento da empresa francesa de energia Total, num campo gigante de gás no Irã. Total disse esse mês que sairá do Irã e do desenvolvimento do campo de gás Pars Sul, a menos que seja especificamente protegida contra as penalidades e sanções relacionadas inventadas pelos EUA (no Financial Times, 18/5/2018, Total threat to pull out of Iran dents EU hopes of saving accord”).

Claro que se pode negociar alguma espécie de arranjo de acomodação. Mas se Washington adotar linha mais dura, por exemplo, se declarar a jurisdição dos EUA nas transferências de dólares entre dois países soberanos, como em 2014, com a multa de US$9 bilhões aplicada ao banco BNP francês, nesse caso parece inevitável alguma espécie de confronto e, resultado do confronto, mais será questionada a hegemonia dos EUA implícita no EUA-dólar como padrão, preocupação que Rússia e China já partilham há muito tempo.



Já se questiona o papel dos EUA como "policiais econômicos do planeta"



Nesse campo, a reação mais interessante à questão iraniana, desde que Donald Trump se pronunciou dia 8 de maio, é a do ministro das Finanças da França Bruno Le Maire, que disse, dia 9/5, que não é aceitável que os EUA sejam "os policiais econômicos do planeta".[1]





Sobre isso, a França é o país europeu que se deve observar mais de perto, dado que tem longa história de desejar levantar-se à frente dos EUA no mundo do pós-1945. Absolutamente não se pode dizer o mesmo da Alemanha nem, com certeza, da Grã-Bretanha.



Pompeo ameaça o Irã com escalada nas sanções



Ainda na questão do Irã, o secretário de Estado e ex-diretor da CIA Mike Pompeo fez discurso ultra agressivo na 2ª-feira, ameaçando o Irã com sanções mais duras. Na primeira manifestação sobre política exterior como Secretário de Estado, Pompeo disse que "as sanções voltarão a ter pleno efeito e novas sanções serão impostas (...) A mordida das sanções será dolorosa se o regime não mudar de curso (...) Serão de fato as mais fortes sanções da história, quando estiverem completadas".



A retórica acima não sugere qualquer disposição para negociar com a posição dos europeus. O significado disso tudo é que Europa e EUA permanecem em rota de colisão.

Crescem as exportações iranianas depois do fim das sanções



A importância da Europa para o Irã aparece claramente no fato de as exportações do Irã para a Europa terem aumentado quase nove vezes desde o fim das sanções em janeiro de 2016.





As exportações do Irã para a União Europeia passaram de US$1,3 bilhão em 2015 para US$11,4 bilhões nos 12 meses até janeiro, segundo o setor de estatísticas comerciais do FMI (Gráfico 1).





Há também, claro, o crescente comércio entre Irã e China. O total do comércio entre Irã e China subiu de 18% ao ano, para US$27,5 bilhões nos 12 meses até janeiro (Gráfico 2). Tudo isso faz do Irã um bom exemplo do mundo cada vez mais multipolar, no qual a influência dos EUA ou seus interesses dilui-se a olhos vistos.



Gráfico 1: Irã– Exportações anuais para a União Europeia
Fonte: FMI – Direction of Trade Statistics






Gráfico 2: Irã – Comércio anual total com a China
Fonte: FMI – Direction of Trade Statistics




Moeda iraniana sofre o golpe 



Enquanto isso, a moeda iraniana foi duramente atacada em meses recentes, como resultado da incerteza gerada pelas repetidas ameaças de Trump, antes de os EUA saírem do acordo nuclear e agora, depois de o movimento estar completado.



O rial caiu 33% no mercado negro contra o EUA-dólar ano a ano (Gráfico 3). Aconteceu depois de um período de estabilidade, comparativamente, quando a moeda teve oscilação de 13% ao longo de dois anos, ajudada pelo otimismo criado pelo acordo nuclear e pelas altas taxas de juros reais. Os papéis do Tesouro iraniano alcançaram o pico, em 27%, no início de 2017 e caíram para 16% no final do ano passado. Estão agora de volta aos 19%, por efeito das pressões de mercado criadas pela renovada ameaça das sanções norte-americanas.



Gráfico 3: Rial iraniano/EUA-dólar (Escala invertida)



NOTA: Baseada na taxa do mercado não oficial, 
depois que o Irã unificou as duas taxas de câmbio, dia 9/4. 
Fonte: Ministry of Economic Affairs and Finance, Bonbast.com



Investimento estrangeiro substancial no Irã 



Com um perfil demográfico de mercado emergente clássico, em termos de população de 80 milhões, 60% da qual com menos de 35 anos, o Irã atraiu, é claro, muitos investimentos estrangeiros diretos em anos recentes, mais especialmente depois do acordo nuclear de 2015.





O mais recente foi o investimento já mencionado, da francesa Total, de US$4,8 bilhões, assinado em julho de 2017. Mas a Total diz que até agora só investiu menos de €40 milhões, ainda segundo o FTimes, acima mencionado, motivo pelo qual a empresa francesa quer saber se receberá garantias que a protejam contra sanções.





Em termos de dados agregados, o influxo atual de investimento externo direto subiu 64% ao ano, para US$3,37 bilhões em 2016, segundo dados da ONU. Relatório do governo iraniano publicado ano passado revela que o Irã aprovou US$11,8 bilhões em investimentos externos diretos durante os 12 meses até dezembro de 2016, com Espanha e Alemanha responsáveis por US$3,2 bilhões e US$2,9 bilhões daquele total, respectivamente.



Gráfico 4: Entrada de investimento externo direto no Irã
Fonte: UNCTAD World Investment Report 2017



Assistiremos ao fim da Pax Americana?



Seja como for, permanece a evidência de que confronto entre EUA e Eurozona nessa questão é, potencialmente, desenvolvimento crucial num recuo naPax Americana.



No momento, é provável que a Europa, em espírito de pacificação, contente-se com evitar a questão, na esperança de que Donald Trump não ser reeleito à presidência para um segundo mandato, e a vida volte "ao normal".



A Economia do Irã 



Deixando de lado as questões geopolíticas, a economia e os mercados financeiros do Irã trazem surpresas positivas. O país tem tradição de capital aberto, e não taxa ganhos ou dividendos de capital. Em 2017 a Bolsa de Valores de Teerã completou 50 anos de existência.





Mas se em anos recentes há entrada considerável de investimento externo direto, o portfolio da atividade do investimento externo sempre foi muito mais limitado, com estimativa de apenas US$100 milhões em valores agregados. É consequência, em termos de ações, tanto da não inclusão nos índices de referência Morgan Stanley Capital International (MSCI) como, claro, das sanções.



Não há bancos estrangeiros no Irã 



Ainda não há bancos estrangeiros no Irã e falta portanto quem garanta custódia confiável a papéis do portfólio de investidores internacionais. Na verdade, apesar do acordo nuclear de 2015, continua a ser impossível usar cartões de crédito de bandeira não iraniana para pagar contas de hotel ou qualquer outra transação.





As agências externas de avaliação de risco também estão ausentes, o que não surpreende, porque as três maiores são norte-americanas. É uma lástima, para o governo do Irã, dado que, com dívida mínima na balança de comércio externo, e dívida interna total de apenas 35% do PIB, faria muito sentido que o país lançasse papéis soberanos. A dívida exterior total é agora de apenas US$10,8 bilhões, apenas 2,5% do PIB, segundo o Banco Central do Irã (Gráfico 5).



Gráfico 5: Dívida Externa do Ira, como % do PIB
Fonte: Banco Central do Irã, FMI




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* Chris Wood anima a publicação semanal GREED & fear.
[1] "Se aceitamos sanções extraterritoriais? A resposta é não", disse Le Maire a repórteres em Paris, acrescentando que a França não aceitará a "vassalização da Europa" por funcionários dos EUA decididos a impor sanções ao Irã" (12/5/2018, Rádio Liberty, consideradas todas as reservas que se exigem em relação a esse veículo) [NTs].


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