quarta-feira, 4 de julho de 2018

Batalha no sul da Síria aproxima-se do fim: Israel cedeu à vontade da Rússia, por Elijah J. Magnier


Elijah J Magnier, Blog

"Impossível será o presidente Trump defender a posição de Israel como força de proteção ao ISIS (...) e atacar o Exército Árabe Sírio por desejar recuperar o próprio território e eliminar totalmente a presença do ISIS no sul da Síria."

Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu

Depois de apenas duas semanas desde o início da operação militar, jihadistas e militantes na maior parte da área rural a leste de Daraa no sul da Síria já se renderam ou foram derrotados, as mais de 70 vilas que os terroristas ocupavam foram liberadas pelo Exército Árabe Sírio. 


Nesse tempo, Israel reduziu as demandas ou condições que anunciou nas duas últimas semanas: desde ameaças contra a aproximação do Exército Árabe Sírio na direção sul, até ameaças no caso de Damasco avançar suas forças além da linha de demarcação e do acordo de desengajamento de 1974 entre Síria e Israel. É sinal claro de que todos os atores (EUA, Israel, Jordânia, Arábia Saudita) abandonaram os jihadistas e militantes que treinaram e patrocinavam; jihadistas e militantes mercenários foram deixados à própria sorte.

Ao longo de mais de sete anos, Israel investiu inteligência, dinheiro, equipamento médico e militar nesses jihadistas e seus aliados. Em várias ocasiões, Israel disse que prefere ter o "Estado Islâmico" junto às fronteiras, às forças do Irã. Muitas vezes Israel exibiu imagens de jihadistas – incluindo os que lutam sob a bandeira da al-Qaeda – recolhidos a hospitais israelenses, recebendo tratamento para ferimentos sofridos nos confrontos com forças de Damasco. Hoje já é perfeitamente claro que os projetos de Israel foram derrotados, se Israel tem de 'declarar' que se o Exército Árabe Sírio cruzar a linha de desengajamento de 1974 significará invadir linhas vermelhas. 

Israel chora sozinha, porque o Exército Árabe Sírio tem declarada intenção de derrotar todos os militantes e jihadistas que receberam suprimento de outros países – e os meios necessários para tanto. Jamais passou pela cabeça dos sírios iniciar nova guerra com Israel, antes de o território sírio (no norte) ser libertado.

Os aliados sírios participam da batalha do sul da Síria como conselheiros e com unidades (pequenas) para apoio, para o caso de a batalha vir a se tornar crítica nesse ou naquele front. Até aqui, jihadistas e militantes são facilmente derrotados e não têm oferecido grande resistência. Há pouca dúvida sobre como o ISIS ('Estado Islâmico', também chamado Jaish Khaled Bin al-Waleed) alojado sobre a linha de desengajamento de 1975 reagirá, porque nem o Exército Árabe Sírio nem a Rússia estão oferecendo qualquer chance aos terroristas para se transferirem de onde estão. Nessas condições, a única possibilidade para o ISIS no sul da Síria é combater, render-se ou voltar para Israel, uma vez que, já há muitos anos, o Exército de Israel convive belamente com o ISIS. O número de terroristas é estimado em algo entre 1.500 e 2.000, número relativamente pequeno, se se considera que o Exército Árabe Sírio enfrentou dezenas de milhares deles em al-Yarmouk, na área rural de Homs, al-Badiya, Deir-ezzour e Albukamal no norte e nordeste – e derrotou-os todos, completamente.
Armas encontradas pelo Exército Árabe Sírio em Daraa durante a batalha do sul da Síria

O presidente sírio Bashar al-Assad desconsiderou qualquer ameaça israelense relacionada à participação de conselheiros iranianos e das Forças Especiais do Hezbollah na batalha do sul da Síria. De fato, a Rússia compreende a necessidade da presença de aliados de Damasco em campo, de modo que toda a operação esteja protegida e o sucesso assegurado. Mais que isso, Moscou tem visto que o Hezbollah e os conselheiros iranianos afastam-se sempre depois que a batalha está decidida a favor do Exército Árabe Sírio, e em todos os casos em que Damasco considera que a área seja segura o suficiente para sair. 

Por isso o presidente Putin pode garantir ao seu contraparte norte-americano Donald Trump (e Putin também já garantiu a seus visitantes israelenses mês passado em Moscou) que nenhum conselheiro iraniano ou do Hezbollah será deixado nas fronteiras de Israel (desejo do governo central sírio). Foi suficiente para Trump informar a Israel que os EUA não têm qualquer motivo para crer que haveria qualquer perigo, para Israel, de o Exército Árabe Sírio permanecer em suas fronteiras.

Durante quase 45 anos, Damasco jamais se engajou em qualquer ataque sério contra Israel, desde a linha de desengajamento de 1974 na divisa com as colinas ocupadas do Golan. Não há comparação entre a presença de forças regulares sírias e a presença dos terroristas do ISISnas colinas ocupadas do Golan. 

De fato, será impossível para o presidente Trump defender a posição de Israel como força de proteção ao ISIS – e não importa há quanto tempo o grupo terrorista e Israel convivam como "bons vizinhos" –, e atacar o Exército Árabe Sírio por desejar recuperar o próprio território e eliminar totalmente a presença do ISIS no sul da Síria.

O que resta no sul da Síria é só uma batalha tática. Vai-se intensificar num front e suavizar-se no outro. A batalha já está alcançando seu primeiro objetivo, de limpar Daraa oriental, nos próximos dias, e tornar segura a passagem de fronteira em Naseeb, entre Jordânia e Síria, que ajuda os dois países a recobrar algumas centenas de milhões de dólares anualmente em negócios e comércio.

Na segunda fase, a oeste de Daraa e Quneitra, o Exército Árabe Sírio levará suas forças na direção sudoeste de Daraa para varrer dali os jihadistas que estão no caminho entre o Exército Árabe Sírio e o local onde está o ISIS. Não há hora específica decidida para o fim da batalha. 

Mas ainda assim o resultado é facilmente previsível: o Exército Árabe Sírio retomará o controle do próprio território sírio, especialmente a cidade de Daraa, por onde todos os países envolvidos na 'mudança de regime' (Arábia Saudita, Jordânia, EUA, Reino Unido, Qatar) iniciaram o fluxo de armas e dinheiro para o sul. 


Nada conseguiram, além de destruir o Levante (são necessários $300 bilhões para reconstruir a Síria), provocar a morte de 400 mil pessoas e criar milhões de deslocados e refugiados.


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