quarta-feira, 4 de julho de 2018

Drama das sanções anti-Irã e a OPEP-plus, por Pepe Escobar


Pepe Escobar, Asia Times

Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu

É possível que a história já tenha conhecido mais estranhos parceiros de cama geopolítica. Mas no mundo atual da OPEP-plus, as regras do jogo já são controladas de facto pela Arábia Saudita, usina de produção de petróleo da OPEP, em uníssono com a Rússia, non-OPEP.

Pode acontecer até de a Rússia unir-se à OPEP como membro associado. 
Una-se ou não, já há uma cláusula chave no acordo bilateral Riad-Moscou, que estipula que, agora, a nova regra para elevar ou reduzir a produção de petróleo são as intervenções conjuntas.Alguns dos principais membros da OPEP não estão exatamente muito felizes. No encontro recente em Viena, três estados-membros – Irã, Iraque e Venezuela – tentaram, mas não conseguiram, vetar o movimento na direção de aumentar a produção. A produção na Venezuela está declinando. O Irã enfrenta declaração tácita de guerra econômica que lhe movem os EUA. E o Iraque precisará de tempo para aumentar a produção.

Goldman Sachs insiste: “O mercado de petróleo continua em déficit (...) a exigir maior produção do núcleo da OPEP e da Rússia para evitar quebra no estoque no final do ano.” Goldman Sachs espera que a produção de OPEP e Rússia cresça 1,3 milhão de barris/dia até o final de 2019. Corretores de petróleo do Golfo Persa disseram a Asia Times que esses números não são realistas: “Goldman Sachs não conhece os números para afirmar que Rússia e Arábia Saudita teriam capacidade para produzir todo esse petróleo. No máximo, seria 1 milhão de barris/dia. E nada garante que a Rússia se interessaria por sacrificar o Irã, ainda que tivesse capacidade.”

Em teoria, Rússia e Irã, ambos sob sanções dos EUA, coordenam as respectivas políticas de energia. Ambas estão interessadas em fazer frente à indústria do petróleo de xisto dos EUA. Os principais analistas de energia consideram que só com o petróleo a $100 o barril, o fracking se tornaria altamente lucrativo. E petróleo e gás gerado por fracionamento nos EUA é coisa de curto prazo; as jazidas estarão esgotadas em 15 anos. Mais importante que tudo isso, é possível que, na verdade, o petróleo de xisto não passe de um esquema Ponzi.

Longe vão os dias quando o governo Obama ordenou que Riad desencadeasse uma guerra de facto no preço do petróleo para ferir ambos, Rússia e Irã. Mas o jogo mudou drasticamente, com a Venezuela perdendo um milhão de barris/dia em produção, e o Irã, sob sanções que logo entrarão em vigor, pode perder outro milhão.

Como Asia Times noticiou, a OPEP (plus Rússia) pode aumentar sua produção em, no máximo 1 milhão de barris/dia. E demoraria, porque, como disseram os corretores de petróleo no Golfo Persa: “800 mil barris/dia na redução é efeito do esgotamento que não pode ser restaurado.”

Produtores de petróleo não querem preços mais altos 

Muitas nações produtoras de petróleo não querem altos preços para o petróleo. Quando isso acontece, a demanda despenca, e a temida concorrência – sob a forma de carros elétricos – ganha forte impulso.

É o que explica em parte por que Riad prevaleceu na guerra, em Viena, para conter o aumento dos preços. A Arábia Saudita é o único produtor com alguma capacidade ociosa; os números reais são fonte de debate infindável nos círculos de energia. O Irã sob sanções dos EUA, por sua vez, precisa muitíssimo de alguma renda extra de energia, e teve de votar contra.

O resumo é que, apesar do acordo em Viena, é praticamente certo que, no curto prazo, o preço do petróleo terá de subir. Análises feitas por BNP Paribas, dentre outros, dizem claramente que os problemas de oferta com Venezuela e Líbia, plus s proverbial “incerteza” sobre as sanções contra o Irã, implicam que “os fundamentos do petróleo continuam (...) favoráveis a aumento nos preços do petróleo nos próximos seis meses, mesmo contra a decisão da OPEP-plus.”

O ministro do petróleo do Irã Bijan Zanganeh fez o que pôde para reduzir o quanto de petróleo realmente voltará ao mercado. Como os corretores de petróleo do Golfo Persa, ele com certeza sabe que não poderá ser mais de 1 milhão de barris/dia, e que mesmo esse reduzido aumento exigirá tempo.

Considerando que em termos de realpolitik Riad simplesmente não tem autorização para qualquer “decisão” na política de petróleo sem autorização prévia dos EUA, ainda é preciso saber como Washington reagirá à nova entente cordiale de longo prazo entre Riad e Moscou. No que tenha a ver com a geopolítica do petróleo, esse é fato que, sim, muda o jogo inteiro.



Gráfico 1: OPEP e produção de petróleo da Rússia (em mi barris/dia)


Só business, como sempre 

O grande Não Sabido é como se desdobrará a guerra econômica dos EUA contra as exportações de petróleo do Irã.

Zanganeh do Irã foi bastante realista: não espera que os compradores ganhem qualquer tipo de 'favor' de Washington, nas sanções. A francesa Total e a Royal Dutch Shell já suspenderam as compras.

Os maiores clientes do Irã na venda de petróleo são, pela ordem: China, Índia, Coreia do Sul e Turquia.

Índia comprará petróleo iraniano em rúpias. A China ignorará completamente as 'ordens' do governo Trump. Sinopec, por exemplo, precisa muito do petróleo iraniano para as novas refinarias em várias províncias chinesas, e não parará de comprar.

Nihat Zeybekci, ministro da Economia da Turquia foi claro: “Decisões que os EUA tomem nessa questão não nos obrigam a coisa alguma.” E acrescentou: “Não reconhecemos interesses de país algum que não sejam nossos interesses.” O Irã é o principal fornecedor de petróleo para a Turquia, responsável por quase 50% do total de importações.

E o Iraque não abandonará a cooperação estratégica de energia com o Irã. A lei é a cadeia de suprimento: Bagdá envia petróleo de Kirkuk para uma refinaria em Kermanshah no Irã, e obtém petróleo iraniano refinado para o sul do Iraque.

Rússia não recuará da intenção de investir $50 bilhões na infraestrutura de energia do Irã.

Japão e Coreia do Sul trabalham intensamente em lobbies para obter licenças especiais no regime de sanções. Segundo o ministro de Energia da Coreia do Sul: “Estamos na mesma posição que o Japão. Estamos conversando com os EUA e continuaremos a negociar para conseguir uma isenção”.

Num mundo menos Hobbesiano, os UE-3 (França, Reino Unido e Alemanha), plus China e Rússia – países que, todos eles, participaram da negociação do acordo nuclear com o Irã (conhecido como Joint Comprehensive Plan of Action, JCPOA), ao lado de Japão e Coreia do Sul, diriam aos EUA que a guerra econômica unilateral do governo Trump contra o Irã é, de fato, violação de tratado que foi endossado pela ONU, e desconsidera completamente todas as nações que se comprometeram a respeitar e proteger o JCPOA. No mundo real, contudo, não acontecerá assim.

A questão toda é a energia 

Mais uma vez, a parte de onde não afastar os olhos é a Bolsa de Valores de Energia de Xangai [ing. Shanghai Energy Stock Exchange. Os contratos denominados em petroyuan começaram a ser negociados em final de março. Em maio, já cobriam 12% do mercado global. O preço de um barril de petróleo, em yuan, oscilou entre o Brent e o West Texas Intermediate (WTI).

China não está com meias medidas e aposta simultaneamente na Arábia Saudita e no Irã. China Investment Corp. pode bem comprar 5% da Aramco, por redondos $100 bilhões. Paralelamente, a China começou em 2012 a pagar em yuan pelo petróleo iraniano. Se os europeus se mantiverem firmes [ing. buckle up], como esperam os principais analistas iranianos, o volume de negócios de energia com a China pode rapidamente chegar aos $40 bilhões por ano.

O Irã está firmemente conectado com o petroyuan. O Irã agora já conta com uma frota de navios superpetroleiros, protegidos por seguros adequados, para exportar o próprio petróleo. Os iranianos calculam que a guerra econômica de Washington fará subir os preços do petróleo. Assim sendo, mesmo se as exportações iranianas sofrerem, a renda de energia pode não ser afetada.

Encobertos por essas erupções dramáticas, encontram-se alguns dados surpreendentes. Irã – e Rússia – podem estar sobre reservas de petróleo e gás que valem espantosos $45 trilhões. O fracking norte-americano é, mais que tudo, mito. A Arábia Saudita pode contar com, no máximo, ainda 20 anos de petróleo. Tudo, sempre, é questão de energia – nunca deixa de ser.

Os suspeitos de sempre absolutamente não se deixarão ficar sentados e relaxados, enquanto a perenemente demonizada Rússia, assim como a Noruega, vão construindo uma sólida classe média graças à renda do petróleo e massivos superavits em conta corrente. Os sinais de alarme estão a ponto de disparar, ante a conversa de “Putin tomou o controle da OPEP”. De fato, sim, foi Putin que convenceu Mohammad bin Salman (MBS) de que ambos, juntos, deviam combater a ofensiva do xisto dos EUA.


A charada da OPEP-plus-Irã está longe de se deixar decifrar. Só uma coisa é certa: aí estão os primeiros sinais das próximas guerras clandestinas, brutais, por recursos naturais esgotáveis.

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