quinta-feira, 11 de outubro de 2018

EUA: Sete dias em setembro - 'Democracia’ aos “tropeços” no século 21, por Joe Lauria


Joe Lauria,* Consortium News

Traduzido pelo Coletivo Vila Mandinga

Nos primeiros sete dias de setembro, foram divulgados – quase inacreditavelmente – esforços empreendidos para cercar e talvez para derrubar um presidente constitucionalmente eleito nos EUA, levantando questões complexas sobre o tão louvado sistema democrático norte-americano.
O que se passou parece extraído do romance, depois filme, Sete Dias em Maio: história de um golpe militar fracassado contra um presidente dos EUA que tentava melhorar as relações com a Rússia. O presidente na ficção foi baseado no presidente real, John F. Kennedy, que abriu a Casa Branca em 1963 ao diretor Frankenheimer para que filmasse as únicas cenas de filme de Hollywood jamais filmadas lá.
Kennedy sabia perfeitamente da fúria política desencadeada nos altos escalões do Pentágono depois de ele se ter recusado a avançar para ataque em grande escala contra Cuba na operação Baía dos Porcos. A fúria entre os militares aumentara depois que Kennedy falou sobre seu desejo de uma détente com Moscou, depois da Crise dos Mísseis Cubanos, que o presidente expressara claramente num discurso seminal, na Universidade Americana, cinco meses antes de ser assassinado.

A cena do confronto essencial no filme pode ser vista aqui [Vídeo (2’25”), 7 dias em maio, 1964, John Frankenheimer].


A fala crucial do personagem que representa Kennedy, falando ao general, é: “O senhor, general, mostra tal afeto, fervente, apaixonado, religioso, por seu país! Por que, em nome de Deus, não mostra nenhuma confiança no sistema de governo que o senhor mesmo defende tão furiosamente?”

Ninguém precisa ter conhecido Jack Kennedy para saber que Donald Trump não é Jack Kennedy. Trump levantou várias posições perigosas para os interesses dos norte-americanos e de outros povos em todo o mundo: quanto ao clima, nos cortes de impostos para os bilionários, no seguro-saúde, na guerra de drones, na tortura, na imigração, no Irã, na Palestina e mais.

Mas Trump, sim, tentou ostensivamente melhorar as relações dos EUA com Rússia e Coreia do Norte, para diluir os pontos mais sensíveis do gatilho nuclear pelo planeta. E por isso, é indiscutível que no mínimo parece, que esteja recebendo o mesmo tratamento dispensado a Kennedy antes do Texas, 1963.

Provas circunstanciais

Até os primeiros sete dias de setembro, havia só provas circunstanciais de que agências de inteligência trabalharam com o partido no poder para minar o candidato do partido da oposição antes da eleição, e para minar o presidente eleito, depois.

Dentre essas provas circunstanciais, destacam-se:


·        uma série de ‘vazamentos’ anônimos, feitos por funcionários da inteligência de Obama; um dos vazamentos foi confessado pelo então diretor do FBI, James Comey; 

·        uma série de mensagens políticas anti-Trump trocadas entre dois funcionários do FBI, Peter Strzok e Lisa Page, dentre as quais uma que admite “nenhum sinal” de colusão Trump-Rússia, apesar de Strzok trabalhar na equipe do Conselheiro Especial Robert Mueller precisamente para encontrar algum “sinal”, “qualquer sinal”; 

·        o uso de um dossiê elaborado por empresa de pesquisa paga pelo Partido Democrata (muito diferente de relatório verificado e aprovado pela inteligência), comprado para ser usado adiante, para conseguir ordem judicial para espionar a campanha de Trump e montar uma base para as ‘conclusões’ de Mueller; 

·        um agente da CIA e FBI, com ligações com a empresa que produziu o dossiê, que se infiltrara na campanha de Jimmy Carter em 1980, e em 2016 sondou agentes da campanha de Trump sobre uma possível ‘operação’ para conectar Trump a Moscou.

Tudo isso criou uma imagem dos Democratas, partido do governo no ramo Executivo, que usava agências do Estado, para comprometer primeiro um candidato, depois um presidente Republicano eleito constitucionalmente. Grande parte da mídia-empresa e dos mídia-empresários desqualificaram ou enterraram essas pistas, como “teoria de conspiração”, ao mesmo tempo em que promoviam incansavelmente a ideia caluniosa (até hoje não surgiu uma prova, que fosse!) de que Trump teria entrado em colusão com os russos para fraudar a eleição a seu favor.

O esforço foi interpretado como movimento clássico de diversionismo – atacar a Rússia para desviar as atenções, para bem longe da derrota que Hillary Clinton se autoinfligira. E seguindo uma tradição política velha de séculos, lançar todas as culpas sobre uma potência estrangeira hostil, para assim despertar a agitação social doméstica, que não resultaria de políticas sociais injustas promovidas pelos dois principais partidos – as quais, essas sim, “minaram nossa democracia” e “semearam divisões dentro da sociedade”. Essa agitação social ajudou a eleger Trump.

Por pior que seja, em termos de perigo para a República, Trump vai-se dentro de dois ou seis anos. O maior perigo, real, pode estar fora de controle: funcionários da inteligência se autointrometendo no processo eleitoral, e, agora, aliados a funcionários do governo Trump, também se intrometendo no processo de governar. Como rezam as tradições da Agência de Segurança Nacional, “Governos vão e vêm. Nós sempre estaremos aqui.”

Suspeitas antigas

Sempre se suspeitou de forças terríveis ativas por trás do palco, com poder real sobre presidentes dos EUA. Os cidadãos só raramente, vez ou outra, vislumbramos rápidos sinais dessas presenças macabras.

Imagem: Carter trabalhou contra Obama na Síria (Comando da Reserva da Força Aérea dos EUA)

O secretário da Defesa Ash Carter desafiou abertamente o presidente Barack Obama, quando sabotou um plano para cooperar militarmente com a Rússia contra extremistas na Síria, matando dúzias de soldados do Exército Árabe Sírio, no momento em que o secretário de Estado John Kerry fazia os últimos acertos no acordo, que foi então abandonado. Assim aconteceu de funcionários jamais eleitos pressionarem Obama para que interviesse diretamente na Síria.

Passamos quase todo o tempo limitados a só especular sobre forças invisíveis que controlam presidentes eleitos.

Mas nos sete primeiros dias de setembro, tivemos três indicações surpreendentemente públicas, sobre gente não eleita obrando para enfraquecer a autoridade de um presidente eleito: as revelações do novo livro de Bob Woodward; uma coluna anônima publicada no The New York Times; e um discurso nada usual, de Barack Obama, sobre Trump.

Masha Gessen, autor de críticas fortes contra Trump e o presidente Vladimir Putin da Rússia, assim explicou o perigo, na revista The New Yorker
“Com esse estado de coisas já impresso, confirma-se ainda mais fortemente que um corpo, ou mais de um, não eleito, está controlando e ativamente minando o poder do presidente eleito. Ainda que talvez seja a salvação do país no curto prazo, é claro sinal de que morreram alguns dos ideais e normas constitucionais que o mesmo país mais prezava. Nenhum anônimo, pessoa ou grupo, pode governar em nome do povo, porque o povo não conhece quem está realmente no comando.”
Surge uma prova material 

Dia 5 de setembro, o The New York Times tomou a decisão altamente inusual de publicar coluna não assinada. Intitulada “Sou Parte da Resistência dentro do Governo Trump”, a coluna levava um subtítulo: “Trabalho para o presidente, mas eu e colegas que pensam como eujuramos cortar partes de sua agenda e suas piores inclinações.”

O funcionário – ainda não identificado – oferece prova forte de que funcionários não eleitos tentam, sim, controlar um presidente tão eleito quando desatento: “O dilema – que o presidente não percebe completamente – é que muitos dos altos funcionários em seu governo trabalham diligentemente, por dentro, para frustrar partes da agenda do presidente…”

Mas aqui está a chave. Essa força ativa por trás do trono tem agenda política diferente da agenda do presidente. Não é verdade que estejam muito interessados em “erguer-se acima da política, passar por cima da cerca e fazer acontecer a favor de uma entidade só: os norte-americanos” – como jura o colunista anônimo. Não. Eles trabalham para determinar, eles mesmos, as políticas e a política do governo Trump.

Mas essa gangue não tem qualquer problema com alguns dos itens mais atrasistas do programa de Trump. Esses, o colunista anônimo celebra. “Não me entendam mal” – escreve ele. –“Há pontos brilhantes, não capturados pela cobertura quase completa e ininterruptamente negativa que o governo recebe: desregulação efetiva, reforma histórica dos impostos, militares mais robustos, e outras mais”.

Desregulação, para permitir o arrocho com que o setor privado sangra os trabalhadores. Desregulação que piora as condições da mudança climática. Reforma dos tributos, para meter ainda mais dinheiro no bolso dos bilionários, com os norte-americanos médios cada dia mais atolados em dívidas. E militares norte-americanos mais robustos, para multiplicar os sofrimentos da humanidade por todo o planeta.

O único problema que parece realmente grave, o principal que os espiões domésticos têm contra Trump, é outro:

“Sobre a Rússia, por exemplo, o presidente relutava em expulsar muitos dos espiões do Sr. Putin, como castigo pelo envenenamento de um ex-espião russo na Grã-Bretanha. Reclamou durante semanas contra altos membros do gabinete que o empurravam para mais e mais confrontação com a Rússia, e manifestou sua frustração por os EUA continuarem a impor sanções contra aquele país por mau comportamento. Mas o pessoal da segurança nacional sabia mais e melhor sobre o que fazer – aquelas ações tinham de ser tomadas, Moscou tinha de ser forçada a pagar pelo que fez.”


O problema da ‘Resistência’ é a política de Trump para a Rússia – a parte mais racional e progressista de sua agenda –, não muito diferente dos generais, na obra-prima de Frankenheimer.

Obama ataca Trump

Dia 7 de setembro, Obama quebrou a tradição dos ex-presidentes, e criticou seu sucessor, num discurso na University of Illinois. Há uma lei não escrita em Washington, pela qual o presidente que deixa a Casa Branca não olha para trás. Claro que essa lei já foi quebrada antes. Teddy Roosevelt chamou Taft de “quebra-cabeças” e “estúpido”. Mas a ideia é que quando você deixa de ser presidente eleito, é seu dever não dificultar a v ida do que lá está, eleito.

“Qual, afinal, é a dificuldade de dizer que nazistas são ruins?” – perguntou Obama, falando da relutância de Trump, que não condenou neonazistas em Charlottesville, VA, ano passado.

Dado que Obama ainda era presidente, quando suas agências de inteligência passaram a trabalhar contra Trump, o que ele disse foi duro de engolir: “Não se trata de ser Democrata ou Republicano. Nós não pressionamos o Departamento de Justiça ou o FBI para que usem o sistema de justiça criminal como porrete para punir nossos oponentes políticos.”

Relembrando evidentemente suas próprias batalhas com funcionários do governo que o pressionaram, ainda assim Obama reconheceu que não seria democrático a equipe de um presidente tentar cortar-lhe as pernas. “A ideia de que tudo dará certo, apesar de haver gente dentro da Casa Branca que não segue as ordens do presidente” – disse Obama, comentando a coluna anônima do NYT –, “não é fato consumado. Falo sério. Ninguém espera que nossa democracia opere desse modo.”

Medo por causa de Fear

As revelações mais alarmantes sobre o serviço de controlar presidente eleito nos EUA vieram do livro de Woodward, Fear: Trump in the White House [Medo: Trump na Casa Branca] que surgiu na mídia durante os primeiros sete dias de setembro, dia 4, exatamente. Numa entrevista, Woodward disse que procurou “muito, muito por qualquer prova de colusão com a Rússia, mas nada encontrei.”

Nem assim o pessoal da Equipe Trump parou de interferir nos deveres do presidente como chefe do Executivo, e avançou muito além da função de aconselhar o presidente.

Grande parte da reportagem de Woodward repousa em fontes anônimas ou são informação de segunda mão. Assumindo-se que o que Woodward escreva seja verdade, lá se lê que o ex-conselheiro de Trump para questões econômicas Gary Cohn “roubou uma carta de cima da mesa de Trump”. Se Trump tivesse assinado aquela carta, os EUA teriam saído de um acordo de livre comércio com a Coreia do Sul. Woodward cita Cohn, que, nas palavras de um funcionário não identificado, teria dito: “Roubei de cima da mesa dele (...) Não deixaria que ele visse aquela carta (...) Nunca, jamais, ele verá aquele documento. Consegui proteger o país.”

Parece excessivo. Assim, já é demais.

E daí em diante a coisa torna-se muito mais complicada que Sete Dias em Maio.

“[Trump] rascunhou um tuíto dizendo que ‘Vamos retirar dependentes da Coreia do Sul (...) Familiares dos 28 mil que temos lá’” –, disse Woodward à CBS News.

Segundo a CBS:

Aquele tuíto jamais foi enviado, porque chegou mensagem via um canal secreto da Coreia do Norte, dizendo que os norte-coreanos interpretariam o gesto de retirar dependentes como sinal de que os EUA preparavam-se para atacar. “Naquele momento, toda a liderança no Pentágono estava em estado de alarme: ‘Santo Deus, um tuíto e já temos informação confiável de que os norte-coreanos interpretarão como sinal de que é iminente um ataque’” – disse Woodward.

Segundo o livro, Trump também deu ordem ao secretário de Defesa Jim Mattis para assassinar o presidente Bashar al-Assad da Síria, depois do ‘ataque químico’ de abril de 2017. “Let’s fucking kill him! Vamos entrar. Vamos acabar com eles” – disse Trump, segundo Woodward. (O Kremlin, suposto chefão de Trump, teria detestado a ideia, mas... deixa p’rá lá).

Mattis teria dito a Trump que [Trump] “acerta em cheio”. Mas não cumpriu a ordem. Em vez disso, concebeu ataques pontuais.

Foi insubordinação? Ou estaria salvando os EUA, o Oriente Médio e talvez todo o planeta, de guerra muito maior?

Dessa vez, quem sabe, haveria generais preservando a paz? O dilema, sem dúvida, é terrível. Mas Sete Dias em Setembro pode ter sido o contrário de Sete Dias em Maio?*******


* Joe Lauria é editor-chefe de Consortium News e ex-correspondente de Wall Street Journal, Boston GlobeSunday Times de Londres e vários outro jornais. Pode ser encontrado em joelauria@consortiumnews.com e pelo Twitter: @unjoe.




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