sábado, 14 de julho de 2018

EUA acusam 12 russos (mas nada provam) - Anúncio, hoje, pode esvaziar o encontro Trump-Putin



Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu

O Conselheiro Especial Robert Mueller acusou formalmente (PDF, 29 páginas) 12 cidadãos russos que supostamente seriam funcionários ou agentes do Serviço de Inteligência Militar da Rússia (ru. GRU). As pessoas, diz o documento da acusação, trabalhariam para uma subunidade operacional (26165) e uma subunidade técnica (74455) do GRU.
A acusação do Conselheiro foi aceita por um Grande Júri em Washington DC, para 12 crimes descritos e comentados abaixo. Na sequência, rápida avaliação desses movimentos.
primeira acusação é "Conspirar para cometer crime contra os EUA", por roubar e-mails e vazá-los. A acusação diz que as unidades doGRU teriam enviado e-mails 'iscas' para a campanha de Hillary Clinton e organizações do Partido Democrata, o Comitê Nacional Democrata e o Comitê Democrata de Campanhas para o Congresso [ing. DNC e DCCC]. Os acusados teriam tido acesso às caixas postais de John Podesta e outros. São acusados também por ter supostamente instalado programas espiões [ing. spyware] (X-agent) nos computadores do DNC para extrair deles e-mails e outros dados. Os e-mails teriam sido distribuídos e publicados por personas online (DCLeaks, Guccifer II e depois por Wikileaks). 

A peça de acusação pretende que DCLeaks e Guccifer II seriam nomes de fachada para a GRU russa. Wikileaks ("organization 1", no documento de acusação) é citada mas, até aqui, não foi acusada.

Nota: Há um Grande Júri especial para o longamente cozinhado caso contra Julian Assange e Wikileaks. Assange negou que os e-mails que publicou viessem de fonte russa. Craig Murray, ex-embaixador britânico disse que recebeu os e-mails numa viagem a Washington DC e levou-os para Wikileaks.

A acusação narra com alguns detalhes o modo como vários computadores alugados e vários nomes de domínios teriam sido usados para obter acesso aos computadores dos comitês DNC e DCCC. A narrativa é bastante plausível, mas oferece poucas provas que a sustentem.

As acusações de 2 a 9 têm a ver com "Roubo de identidade com agravante", por os acusados terem supostamente usado nomes de usuários e senhas para obter acesso a contas pessoais de e-mails de outros.

acusação 10 tem a ver com uma "Conspiração para lavar dinheiro". Teria supostamente acontecido "mediante uma rede estruturada de transações para capitalizar o anonimato que se constata em criptomoedas como o bitcoin". Os acusados teriam obtido bitcoins, canalizado seus bitcoins por dúzias de contas e transações, e então os teriam supostamente usado para alugar servidores, acesso a redes virtuais privadas e nomes de domínio usados na operação.

Nota: O texto da acusação reforça meu palpite [orig. The indictment reinforces the author's hunch] de que bitcoin e outras moedas seriam invenções e playgrounds para o ócio dos serviços secretos, assim como Tor e outras peças 'modernas' de internet, que visariam a proteger 'privacidades'. É razão suficiente pela qual se recomenda que sejam evitadas.

acusação 11 é "Conspirar para cometer ofensa contra os EUA". Alguns dos acusados teriam hackeado e invadido plataformas eleitorais e empresas norte-americanas fornecedoras de softwares relacionados a eleições.

Nota: Outra matéria destaca que aqueles supostos ataques não resultaram em qualquer mudança nos resultados das eleições nem em qualquer outro dano.

[No caso de condenação] Os EUA confiscarão todos os valores que os acusados tenham nos EUA, como parte de qualquer sentença condenatória contra os acusados.

AVALIAÇÃO:

Não é coincidência que essa acusação seja tornada pública nesse momento, apenas alguns dias antes da primeira reunião de alto nível entre Donald Trump e o presidente russo Vladimir Putin, e pouco antes de encerrada a muito bem-sucedida Copa do Mundo de futebol que acontece na Rússia. A divulgação, nessas circunstâncias, visa a sabotar as conversações.


  • A peça de acusação descreve operação de amplo alcance, mas oferece ZERO provas do que alega.

  • Mueller parece ter certeza de que sua acusação jamais chegará diante de qualquer corte judicial, porque o que ele diz é extremamente difícil de provar. Qualquer advogado de defesa decente terá de perguntar como foi obtida aquela informação e quanto, daquilo tudo, baseia-se em vigilância ilegal praticada pela Agência Nacional de Segurança. Os EUA detestarão ter de revelar essas coisas.

  • É realmente pouco provável que chegue a haver julgamento desses casos. Todos os acusados são russos na Rússia e nenhum deles há de ser estúpido o bastante para aceitar convites para visitar Las Vegas ou Disney World.



Mas quem sabe?

Em fevereiro, Mueller indiciou a Agência Russa de Pesquisa para Internet [Russian Internet Research Agency], uma 'agenciadora de cliques' [ing. clickbait farm], que tem finalidades comerciais, acusando a empresa de influenciar as eleições nos EUA. Daquela vez, como hoje, o futuro da 'acusação' dependia de jamais ser levada a julgamento. 

Num passo inesperado, uma das empresas russas acusadas, Concord Management, aceitou o desafio e exigiu investigação completa. Mueller então tentou adiar a apresentação de provas (que ele provavelmente não tem). Um primeiro juiz rejeitou a manobra de Mueller. O caso está parado.

A acusação, que bem pode ter sido inventada do começo ao fim e provavelmente jamais será testada em tribunal, reforçará mesmo assim a campanha "Rússia é inimiga", que foi lançada muito antes da eleição de 2016. Reforçará a crença de alguns Democratas, de que teria sido ação da Rússia – não a escolha do(a) pior candidato(a) imaginável – que teria custado a Hillary a eleição.

A détente com a Rússia, que o presidente Trump dos EUA tenta construir, será agora ainda mais difícil de alcançar e de manter.


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