sábado, 14 de julho de 2018

UE: Bancos salvam a crise e acabam com a Grécia, por F. William Engdahl


F. William Engdahl, New Strategic Outlook

Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu

Com fanfarras, no final de junho, os 19 ministros das finanças da zona do euro na UE anunciaram o fim da crise da dívida grega, que se arrasta por oito anos e levou toda a estrutura do euro à convulsão mais profunda que o sistema conheceu até hoje. 
Infelizmente, é nada. Só profunda, completa encenação. Os ministros da União Europeia recusaram-se a cancelar a dívida do estado grego. Em vez disso, encenaram uma capitalização destrutiva dos juros da dívida existente, semelhante ao que Washington fez à América Latina nos anos 1980s. É perfeitamente justificável que todos nos perguntemos o que está realmente acontecendo.


Pelo esquema recém inventado, estendeu-se o vencimento dos empréstimos por dez anos. Afastado o risco de a dívida ser cancelada, os ministros da Eurozona concordaram com prorrogar por dez anos o cumprimento da maior parte das prestações ainda a serem pagas dos empréstimos existentes, sobre uma dívida pública que continua equivalente a 180% do PIB, ou 340 bilhões de euros, apesar de cortes e reformas. A União Europeia emprestou mais 15 bilhões de euros (17,5 bilhões de EUA-dólares) como dívida nova, para 'facilitar' os pagamentos agora devidos.

Como parte do acordo, o FMI e o governo-amigo-da-UE de Alexis Tsipras entenderam-se em torno de ainda mais 'austeridade' [é ARROCHO. "Austeridade" é racionalizar gastos para preservar o realmente indispensável, sem nenhum desperdício; "austeridade" não é cortar comida da mesa dos pobres, para pagar banqueiros: isso é ARROCHO (NTs)]. Mais 'austeridade' no caso da Grécia significa mais impostos sobre os mais pobres e mais cortes nas aposentadorias até o final do ano. 

A Grécia já tem hoje o índice oficial de desemprego mais alto de toda a União Europeia, depois de oito anos de 'austeridade' ordenada pelo FMI e UE. Desde o início da crise, por efeito das exigências da mais violenta 'austeridade' [é violento ARROCHO] à moda Brüning,[1]impostas ao país pela Alemanha e pela União Europeia, a economia grega encolheu até agora 25%. O desemprego total chega a 20% e o desemprego entre os jovens já passa de 40%. 70% das aposentadorias e programas de bem-estar já foram cortados.

O programa anterior de "resgate" da Grécia, de 86 bilhões de euros, acertado em 2015, levou o total de empréstimos contraídos por Atenas a 273,7 bilhões de euros desde 2010. Hoje, já passa de 300 bilhões de euros.

Dia a dia mais pobre e mais afundada em dívidas 

Por imposição da União Europeia, do Banco Central Europeu e do FMI – a adequadamente chamada "Troika" –, a Grécia aprovou leis contra os sindicatos, suspendeu os contratos coletivos de trabalho, praticamente pôs fim à possibilidade de qualquer tipo de greve nas indústrias e legalizou as demissões em massa. A queda vertiginosa nos salários, determinada de fora do país, é complementada pela venda das joias da coroa econômica grega – num vasto programa de privatizações, do fornecimento de energia elétrica a infraestrutura (aeroportos, portos, serviços públicos como hospitais, escolas e transporte público).

Mas o dinheiro não será investido na muito necessária infraestrutura, para criar empregos que aumentem a base produtiva: será usado para pagar empréstimos antigos feitos ao país pelo Banco Central Europeu e o FMI. Um dos itens dos contratos de empréstimos obriga o governo grego a obter permamentemente entradas mais altas que despesas – com o que alcança(ria) "superávit primário no orçamento" de 3,5% do PIB em 2022 e 2% anualmente até 2060. 

A Grécia, sua economia e seu povo foram condenados à pena de servidão perpétua, colhidos na armadilha da dívida impagável: nem a Alemanha consegue alcançar os números impostos aos gregos. 

Em outubro de 2009, a dívida dos gregos chegava a 129% do PIB. Naquele ponto o partido PASOK amigo de Washington, do primeiro-ministro George Papandreou, destronou o governo conservador de Karamanlis e "revelou" a existência de uma dívida escondida de cerca de 5,4 bilhões de euros, adiada por swaps não convencionais do banco Goldman Sachs, além de várias medidas ilegais tomadas para exagerar o déficit do estado grego, de modo a provocar uma crise e forçar o 'resgate' dos corruptos bancos gregos e respectivos credores franceses, alemães e holandeses, com dinheiro grego – quer dizer, dos contribuintes. – Assim os grandes bancos insolventes foram salvos da falência.

Naquele momento, o Banco Central Europeu comandado pelo francês Jean-Claude Trichet recusou-se a acalmar o assunto – o que poderia ter tentado, se comprasse a dívida do governo grego, para pôr fim à especulação que fazia subir os juros dos papéis em euro do estado grego a impagáveis 40%. O governo grego foi declarado culpado pela crise; e União Europeia, Banco Central Europeu e FMI, a Troika, apossaram-se da economia grega.

Como Eric Toussaint do Comitê para a Abolição da Dívida Ilegítima[2] apontou num detalhado estudo da crise grega:


"Papandreou dramatizou a dívida pública e o déficit, para justificar uma intervenção externa, com a qual se internalizou capital suficiente para resolver a situação em que estavam os bancos. O governo Papandreou falsificou os números da dívida da Grécia – não para fazê-la parecer menor, como reza a narrativa dominante, mas, sim, para aumentá-la. Queria evitar perdas pesadas dos bancos estrangeiros (principalmente franceses e alemães) e proteger os acionistas privados e principais executivos dos bancos gregos" (9/1/2017, "Banks are responsible for the crisis in Greece" [Bancos são responsáveis pela crise na Grécia], Eric Toussaint, CADTM).


Jogos de culpas 

Para aliviar a culpa dos bancos gregos e estrangeiros, e exibir como culpado o governo grego, Christine Lagarde, também francesa e do FMI, mentiu deliberadamente que o estado grego teria dado aos gregos o benefícios de um generoso sistema de proteção social, apesar do fato, disse ela, de os cidadãos nem pagarem impostos. Deixou de explicar que os impostos extraídos de assalariados e aposentados na Grécia são retidos na fonte.

O governo Papandreou no final de 2009 revelou a existência de "acordos do banco Goldman Sachs, de swaps de moeda, fora do mercado", com o governo grego anterior, instrumento que teria permitido esconder o tamanho do déficit público, para que o país pudesse integrar-se à Eurozona em 2002. Estava instalada a crise grega.

Fundos internacionais de hedge e banqueiros estrangeiros, além do Banco Central Europeu, fizeram o resto. Estima-se que pelo menos 77% do dinheiro de resgate foi diretamente ou indiretamente para o setor financeiro europeu, bancos que já receberam  670 bilhões de euros de apoio direto do estado no início da crise. Em outras palavras: cerca de 231 bilhões de euros absolutamente não trouxeram qualquer benefício à sociedade grega; só beneficiaram o setor financeiro internacional. Cidadãos desinformados na União Europeia ouviram que o dinheiro seria para "resolver a crise grega". Mentira. Todo o dinheiro foi usado para salvar bancos internacionais.

Apesar dos 300 bilhões de euros de "ajuda" posterior para sobreviver à crise grega, a dívida hoje já alcança assustadores 180% do PIB, muito mais do que no início. Os únicos que ganharam foram o Tesouro alemão, que conseguiu quase 3 bilhões de euros de seus papéis gregos, e os grandes bancos credores, especialmente na França, Alemanha e Bélgica, e os fundos hedge de especulação.

Quanto a 2016, um total de 47 bilhões de euros foram canalizados da União Europeia, FMI e Banco Central Europeu, via um fundo do governo grego, para recapitalizar os quatro maiores bancos gregos, sob o argumento de que salvar os bancos privados, em vez de nacionalizá-los e limpá-los, seria essencial para a economia. O que realmente aconteceu foi que um grupo de fundos hedge internacionais como o de Paulson e outros investidores estrangeiros conseguiram comprar 74% das ações com voto desses bancos recapitalizados por meros 5,1 bilhões de euros. Os investidores gregos foram proibidos de investir.

Sem resgate 

Yanis Varoufakis, ex-ministro das Finanças da Grécia, e hoje crítico das políticas do governo Tsipras, escreveu:


"Mas não foi resgate. A Grécia jamais foi resgatada. Nem o foram os demais suínos [ing. pigs] da Europa – como foram chamados em conjunto os países PIIGS, a saber, Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha [ing. Spain]. O resgate da Grécia, depois da Irlanda, depois de Portugal, depois da Espanha foram pacotes para resgatar, em primeiro lugar, alguns bancos franceses e alemães."


Para Eric Toussaint, do CADTM, que teve acesso a documentos confidenciais do FMI sobre o "resgate" grego, escreveu:


"Os documentos provaram que a decisão do FMI dia 9/5/2010, de emprestar 30 bilhões de euros à Grécia (32 vezes a soma normalmente disponível para o país) teve, como disseram claramente vários diretores executivos, o objetivo principal de resolver as dificuldades de bancos franceses e alemães."


Acrescentou que o dinheiro do FMI foi usado para pagar bancos franceses, alemães e holandeses que, em conjunto, no momento em que foi tomada aquela decisão, detinham mais de 70% da dívida grega.

Arrochar salários dos gregos, cortar financiamento público para educação e saúde, privatizar serviços públicos essenciais e reduzir pensões e aposentadorias dos mais pobres jamais dará qualquer 'dinamismo' à economia grega. Mas, afinal, a 'austeridade' [ARROCHO!] não foi concebida para essa finalidade. O real objetivo do projeto de 'austeridade' [é ARROCHO], como hoje já se vê cada dia mais claramente, sempre foi destruir a Grécia como estado-nação soberana – objetivo central das potências sem cara que agem por trás da União Europeia em Bruxelas.

Como a Alemanha aprendeu na crise de 1931, no governo do chanceler Heinrich Brüning, o arrocho só faz piorar as condições, faz crescer o desemprego e a miséria. 

O mais recente movimento na tragédia da dívida grega, ou, dito mais claramente, o estupro do povo e do patrimônio público dos gregos, nada traz de bom para Grécia. Mas mantém intacto, por mais algum tempo, o sistema da servidão por dívida ilegítima.*******



[1] Heinrich Brüning (1885-1970), político conservador, chanceler e ministro de Relações Exteriores da Alemanha de Weimar, de 1930 a 1932, até pouco antes de Hitler chegar ao poder. Incapaz de resolver os problemas econômicos da Alemanha, acelerou o processo rumo à ditadura que viria, passando a ignorar o Parlamento e governando por decretos. Em 1934, Brüning deixou a Alemanha e mudou-se para os EUA, onde deu aulas de ciência política na Universidade de Harvard, de 1937 a 1952 [NTs, com informações de Enciclopaedia Britannica].
[2] Comitê para a Abolição da Dívida Ilegítima (antes chamado Comitê para a Abolição da Dívida do 3º Mundo, CADTM).

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