Se este fosse um mundo decente, em sua maior praça seria levantado um monumento em homenagem a Eduard Snowen. O jovem ex-agente americano informou ao mundo de que o segredo e a privacidade nas comunicações, um direito fundamental, não existem. E fez isso sabendo o que estava em jogo. Sabia que enfrentaria um poder enorme, o do seu governo, que tortura, encarcera indefinidamente sem acusações, submete a um tratamento desumano a dissidentes como Bradley Manning, sem qualquer possibilidade de um julgamento justo, e que tornou normal a prática do assassinato extra-judicial, inclusive de cidadãos norte-americanos, com quatro casos conhecidos, dentre eles o de um adolescente de 16 anos.
Snowden sabia que sua vida se veria arruinada por sua decisão, e que provavelmente não poderia tornar a ver sua família nem poderia regressar a seu país, a não ser algemado. Conhecia o preço de meter o dedo no olho do Império, e apesar de tudo decidiu agir. Colocou sua consciência na frente, a consciência que insta os funcionários de seu país, mediante julgamento, a “defender a “Constituição dos Estados Unidos diante de inimigos externos e internos”. A mesma consciência à qual o Tribunal de Crimes de Guerra de Nuremberg apelou, ao proclamar, depois da Segunda Guerra Mundial, que “os indivíduos tem deveres internacionais que transcendem a obrigação nacional de obedecer, pela qual os cidadãos tem o direito de violar as leis nacionais para impedir crimes contra a paz e a humanidade”.
Por pôr sua consciência à frente de seu destino pessoal, Eduard Snowden merece ser admirado e publicamente reconhecido por seus semelhantes comuns. Ou seja, é um herói.
A pergunta seguinte é o que são o presidente Obama e os demais homens de Estado que perseguem Snowden ativa e passivamente, organizando seu assédio mediante um potentíssimo esforço diplomático e policial, ou colaborando para esse esforço com episódios tão vergonhosos como a negação do espaço aéreo ao presidente boliviano, por suspeitar que levava Snowden em seu avião. A resposta a essa pergunta é que o presidente Obama é, na melhor das hipóteses, um refém de um sistema incorrigível, e que seus cúmplices europeus são uns vassalos miseráveis.
Obama chegou à presidência montado na crítica à guerra iraquiana de George W. Bush. Não alterou a agenda da “segurança nacional” lançada pelo Império aproveitando a oportunidade brindada pelos atentados de 11 de setembro de 2001, mas sim a emendou. Saiu do Iraque, mas continuou apertando no Afeganistão e no Paquistão. Multiplicou o poder e a liberdade da Joint Special Operation Command (JSOC) e intensificou as operações de assassinatos sob responsabilidade dos grupos de operações especiais e dos drones até uma escala que os homens de Bush jamais sonharam. Prometeu fechar Guantánamo, a mais conhecida ilha do arquipélago de prisões e centros secretos de tortura espalhados pelo mundo, mas não o fez.
Nas palavras de Noam Chomsky, Obama é outro presidente norte-americano criminoso, mais um na série. Sua campanha foi paga por Wall Street, de forma que não havia como iludir-nos muito desde o início. O sociólogo norte-americano Norman Birnbaum não nega a Obama algumas boas intenções de mudanças, mas o caso é que ele não se opôs aos assassinatos extra-judiciais através dos drones – que freqüentemente necessitam de ordens diretas e pessoais suas para serem executados – nem à vigilância total, nem a tantas outras coisas, pela simples razão de que é um “prisioneiro desse aparelho” da segurança nacional. Esse aparelho, diz Birnbaum, “tem suas próprias leis e sabe perfeitamente como disciplinar as pessoas”.
Birnbaum relembra os assassinatos dos Kennedy, de Martin Luther King e de outros personagens da vida norte-americana que chegaram a representar certos riscos de mudança, e presume que “nosso sistema tem formas e maneiras de advertir para que não se superem determinados limites”. “Creio”, disse Birnbaum, em uma entrevista com Deutschlandfunk, “que no caso de Obama, o presidente fez para si essa leitura de nossa história”.
Confrontado com uma situação parecida, Michail Gorbachov foi valente: sua determinação por mudanças e reformas foi adiante de seu realismo e pragmatismo. Chegado o momento, preferiu queimar-se a claudicar, confiando, talvez, em ser recompensado “pela história”, sim, mas assumindo claros riscos físicos que incluíram um golpe de Estado contra ele. Que uma coisa assim não tenha sido possível nos EUA não tem tanto a ver com a qualidade das pessoas, mas certamente com o sistema.
Invertendo o que dizia a direita sobre o comunismo, que era um sistema “irreformável”, nossa constatação mais bem a pensar o contrário: o comunismo soviético foi tão reformável que até se auto-dissolveu. O que demonstra ser irreformável e aponta para uma direção cada vez mais inquietante, orwelliana e ditatorial é o sistema dos Estados Unidos. Em qualquer caso, a pulverização dos direitos fundamentais à qual estamos assistindo, com os drones, os Guantánamos e as NSA aponta para um regime político em sintonia com esse estado de coisas, ditatorial e oligárquico, que sugere a ordem sócio-econômica da Grande Desigualdade. Dito de uma forma mais simples: uma sociedade de extrema desigualdade, desprovida de Estado social e regida pelo interesse de uma minoria, precisa de formas políticas duras e abolição de direitos fundamentais.
Chegamos assim aos vassalos, a todos esses indignos pigmeus políticos que governam o continente europeu, de Lisboa a Atenas. A caça a Snowden levada a cabo pelos governos da Espanha, Portugal, Itália e França em torno do avião de Evo Morales colocou em seu lugar a “comunidade de valores” transatlântica. Os europeus colaboram com a potência que os espiona para prender a pessoa que denunciou isso. Dos governos da Espanha (bases militares, trânsito de vôos da CIA no sistema Guantánamo, escudo anti-mísseis, etc), com qualquer dos dois partidos, já conhecíamos o nível de servilismo. Portugal é um país menor, a cínica flexibilidade italiana já era conhecida, mas a indignidade da França nesse episódio supera os mais céticos. A Europa viveu nesta semana uma de suas horas mais vergonhosas e esclarecedoras. Heróis, um presidente covarde e alguns miseráveis vassalos. Cada qual no seu lugar.
Rebelion/Gílson Sampaio
segunda-feira, 8 de julho de 2013
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A Europa viveu nesta semana uma de suas horas mais vergonhosas e esclarecedoras
A Europa viveu nesta semana uma de suas horas mais vergonhosas e esclarecedoras
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