quarta-feira, 20 de junho de 2018

Alastair Crooke: Que sentido haveria, por hora, num encontro Trump-Putin?


Alastair Crooke, Strategic Culture Foundation

Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu

O presidente Trump trouxe à baila a ideia – e chegou a sugerir um convite ao presidente Putin, para que viesse a Washington. Ostensivamente, parece boa ideia: détente entre Rússia e EUA permitiria escoar a pressão geopolítica que cresce na 'retorta' cheia, já estourando nos rebites.
Uma reunião de cúpula pareceu a resposta correta – outrora. Mas a política exterior de Trump já não é a que um dia foi. E está andando de modo, pode-se dizer, inesperado. 
No nível formal, séries de documentos da política exterior e da defesa dos EUA caminharam por outra via, diferente, a começar pelo incômodo casamento dos destaques da campanha de Trump (sobre reabilitar o decadente 'cinturão da ferrugem' norte-americano', com a necessidade, para os EUA de 'vencer outra vez'); e atado pelo pé a um Conselheiro de Segurança Nacional, com a 'noiva' vestida num 'longo' à Paul Wolfowitz modelo primazia norte-americana global. E daí para uma posterior metamorfose, na qual Rússia e China convertem-se, de 'rivais e concorrentes', em subversivos ('potências revisionistas') dedicados a pôr a pique o 'lar' global – e (na derradeira formulação) bem quando os EUA renascem, reemergem, ressurgem, qual fênix dominante nuclear.

Essa progressão até a dominação não casa bem com a imagem inicial de campanha de um presidente que traria de volta os empregos perdidos, e não queria saber de aventuras militares. Imagem de campanha?! Morreu. Que descanse em paz. RIP.

Mas também o 'trazer de volta os empregos perdidos' revelou-se questão menos de 'negócios mais astutos' – e mais na linha do modelo de negócios de Máfia: i.e., 'desistam do gasoduto Ramo Norte 2 imediatamente; se nããããõ... quebro as pernas alemãs de vocês (acabo com as exportações de automóveis alemães para os EUA).

Em resumo 'transitamos', de Trump induzindo a volta dos empregos na manufatura, com um pouco de cenoura e porrete – para seu 'pôr abaixo' todos os parceiros comerciais dos EUA, com o 'porrete' de pesadas tarifas e sanções – quer dizer, 'arte' de negociar tipo obedeça-senããão..., em vez de A Arte da Negociação, a qual, pelo menos, implicava um mínimo de negociação, sem visar diretamente à absoluta rendição do outro 'negociador' (como os EUA 'exigem' no caso do Irã). 

A natureza do neoporrete que Trump aciona agora também representa 'um passo atrás' (especialmente no que tenha a ver com o Irã, 'negociação' em que praticamente já nem se finge que não seja golpe nu e cru para mudar o regime). 

Com efeito, estamos lidando aqui com a 'retrospectiva' de Trump: a recuperação e repotencialização das alavancas históricas do poder dos EUA (do mundo anglo): domínio sobre o sistema financeiro global; domínio sobre a tecnologia; e domínio sobre a energia (com a força militar sempre em prontidão). Domínio nesses três campos foi, nos anos entre as guerras mundiais e pós 2ª Guerra Mundial, a fonte da primazia política.

O essencial nisso tudo é que cada progressão na 'jornada' da política externa de Trump fala a um fortalecimento e ampliação do poder norte-americano, não a alguma aceitação estoica da lenta decadência dos EUA. Em resumo, Trump só trata de prolongar e empoderar o mundo unipolar – e de adiar o mundo multipolar.

Lembrem – nos primeiros dias da influência de Steve Bannon sobre Trump, as coisas eram diferentes. Então, Bannon, acompanhando os Evola e Guénon, era claramente multipolarista: EUA queriam ser culturalmente norte-americanos à sua moda – e por que a Rússia não poderia ser russa à moda cultural russa?

Assim sendo por que o presidente Trump pôr-se-ia agora a convidar o presidente Putin a vir a Washington – dado que a era Bannon é passado e foi substituída pelo desejo de reviver culturalmente – as esferas de primazia anglo-velhas, do Homem Branco?

Bem... Uma resposta pode ser que Trump procura separar Rússia e China (vendo o presidente Putin as como membro putativo do 'clube' cultural – acompanhando a doutrina Kissingeresca segundo a qual os EUA devem sempre triangular entre aquelas duas potências. – Também porque, sem meias-palavras, a China não é parte do que a Equipe Trump chama de legado judeu-cristão. 

Mas... por que o presidente Putin meter-se-ia em tal situação? Também sem meias-palavras: pôr-se ao lado do unipolarismo de Trump assinalaria o fim do multipolarismo – que é a principal plataforma política dos presidentes Xi e Putin, e base da atração que a liderança dos dois inspira ao resto do mundo. Trump pode estar tentando seduzir Putin e fazê-lo renunciar ao multipolarismo –, trilha na qual o presidente Putin não pode nem pôr o pé.

É verdade que o presidente Putin – apesar de consideráveis pressões internas – mantém ainda a porta aberta para alguma entente com Washington (pelo menos, até agora). Sinal disso é que conservou um governo orientado para alguma entente, não governo orientado por uma Stavka (pelo menos até agora).

Mas – por outro lado – ser convidado pelo presidente Putin para coparticipar da produção de energia norte-americana pró-dominação (como em alguma espécie de 'neo-OPEP'), seria cenoura suficiente para tentar o presidente Putin? Outra vez, é difícil crer que sim. Os EUA podem dominar o mercado 'especulativo' do petróleo-papel, mas não dominam o mercado de petróleo físico (os EUA são, no máximo, produtores marginais). Mas os EUA hoje não dominam a tal ponto. Só se os EUA controlassem a produção iraniana e iraquiana, além do petróleo dos EUA e do Golfo (que, sim, controlam).

Para que houvesse aí algum estímulo real, portanto, o presidente Putin teria de já ter concluído que o Irã não conseguirá sobreviver ao sítio das sanções de Trump – e capitulará. A submissão do Irã aos EUA interessa aos russos? Absolutamente não: mais uma vez significaria transgredir a linha vermelha do compromisso de China e Rússia com o mundo multipolar. Claramente interessa a China e Rússia, no plano estratégico, que um elemento chave de qualquer mundo multipolar (o Irã) não tombe sob as garras do unipolarismo de Trump.

É provável que o Irã imploda? Não. Considerados de Moscou (e talvez também de Pequim), os assuntos podem ser vistos de ponto de vista muito diferente. Vê-se assim que o Irã não representou 'vitória' alguma para presidente Pato Manco dos EUA algum, antes o contrário: o Irã é evidência de que Trump caiu numa 'armadilha-caldeirão' (como a denominou Tom Luongo).[1]

O 'caldeirão' é uma armadilha militar russa, pela qual uma aparente fragilidade numa linha militar de defesa – que o inimigo vê como tal – induz o inimigo a, irrefletidamente, mergulhar num cerco que rapidamente se fecha, por trás e em torno dele – para em seguida ser aniquilado.

Em termos de geopolítica, o que aí aparece implícito? Luongo sugere que Trump está respondendo com exagerada pressa ao próprio desejo de derrubar o governo do Irã e a Revolução Iraniana, para que os EUA passem a dominar todo o campo da energia. É passo maior que a perna – Trump só enerva tudo e todos.

Para que suas sanções contra os iranianos sejam realmente devastadoras, Trump ameaça tudo e todos, sanciona todos, por todos os lados, humilha todos, por todos os lados, agride interesses comerciais – e passa o trator em todo o Oriente Médio: sanciona o Irã, trata a autocracia saudita como sua subalterna, devasta a Palestina e assassina palestinos – e trata a cidade santa, Jerusalém, como se fosse propriedade em tabuleiro de Monopólio, a ser tratada no rolar de um dado.

Não surpreendentemente, Moscou acredita que pode esperar que a onda passe: o paradigma está em processo de se inverter. Hoje o mundo bate à porta de Moscou. Líderes europeus que – até recentemente – competiam em grosserias contra o presidente Putin, hoje entoam cânticos de "a Europa precisa da Rússia". Claro, não passa de retórica de uma União Europeia agredida, escalavrada, e se os cânticos têm substância ainda falta confirmar. 

Com quase todo o mundo do dólar sob sanções, ou sob sanção secundária, os estados estão furiosos. E com o comércio global sancionado e em recuo, a liquidez em dólar com certeza evaporará em todo o globo – não só nos mercados emergentes, – com os fundos procurando a segurança de valores tangíveis facilmente negociáveis. Isso, quando os riscos denominados em EUA-dólar são redenominados em 'alguma outra coisa' – e a desdolarização decola mesmo.


Não. Parece que faz pouco sentido, talvez nenhum, que o presidente Putin vá à Casa Branca. Não, pelo menos, com certeza, até que estejam consumadas as eleições de meio de mandato nos EUA, em novembro, e consumada esteja a agitação que Trump promove no mundo para turvar todas as águas, e depois também de agosto, quando passa a ser vigente o corpo principal de sanções – e todas as consequências serão afinal conhecidas. A menos que o presidente Putin queira simplesmente deixar um marcador na trilha, uma indicação de que, depois de tudo estar feito e refeito, um (já então) devidamente castigado Mr. Trump, será, claro, bem-vindo a Moscou.

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