segunda-feira, 26 de junho de 2017

Onda de nacionalismo saudita, contra interesses dos EUA


MK Bhadrakumar, Indian Punchline

Traduzido pelo coletivo da vila vudu

Ler folhas de chá na política saudita é missão arriscada. O que torna muito intrigante o júbilo em Moscou ante a nomeação de Mohammed bin Salman como príncipe coroado da Arábia Saudita.
O príncipe coroado que o rei Salman descartou, Mohammed bin Nayef, foi ministro do Interior da Arábia Saudita ininterruptamente desde 2012 e tem anos de experiência no serviço de inteligência. MbN costumava ser visto como o elemento mais pró-EUA na liderança saudita. Em fevereiro, Mike Pompeo fez sua primeira viagem internacional como chefe da CIA a Riad, para entregar a Medalha George Tenet a MbN, como reconhecimento por seu "excelente desempenho na Inteligência, no domínio do contraterrorismo, e sua inestimável contribuição para a segurança e a paz no mundo". (Al Jazeera)
Agora, passados apenas três meses, o rei Salman descartou MbN e substituiu-o pelo filho em quem mais confia. Estranho, não?

A agência de notícias estatal russa TASS distribuiu matéria poucas horas depois da nomeação de MbS, citando opinião de especialista, segundo o qual o novo príncipe coroado pode estar "pronto a fazer concessões em complexas questões regionais – crises na Síria e no Iêmen." A matéria da TASS elogiava MbS, sua "ampla visão política, ao construir diálogo baseado na verdade com autoridades russas, especialmente o presidente Vladimir Putin", que levou as relações russo-sauditas a "alto nível, sem precedentes em anos recentes", o que por sua vez levou a uma parceria que "abre a porta para solucionar conflitos no Oriente Médio."

Na verdade, MbS é figura conhecida no Kremlin. Esteve quatro vezes na Rússia nos últimos dois anos, sempre para reuniões com Putin. Analista de Moscou, da agência russa de notícias Sputnik, escreveu na 4ª-feira:


O fato de Mohammed bin Salman estar a caminho de assumir o trono saudita – desde, claro, que nenhum evento tipo "cisne negro" o afaste antes dessa posição – é notícia excepcionalmente boa para Rússia e China, por causa das relações muito produtivas de trabalho que cada um desses países construiu com o novo príncipe coroado (...) [esses países] compreendem o quanto ele está bem posicionado para ser personagem transformador (...) Rússia e China contam com ver seus próprios interesses promovidos, se Mohammed bin Salman vier a ser o rei da Arábia Saudita.

O que explicaria tais expectativas? A resposta curta é – petróleo. A cooperação sauditas-russos no campo da energia causou transformação fenomenal na relação entre os dois países. A decisão da OPEP, de reduzir a produção de petróleo foi iniciativa conjunta de russos e sauditas, com o objetivo de equilibrar oferta e demanda no mercado de petróleo, para estabilizar os preços em torno de $50 o barril.

Mas então, essa congruência de interesses também significa oposição aos EUA, cujo perfil como exportador de energia cresce rapidamente. A indústria do petróleo de xisto dos EUA está em posição de aumentar a produção e alavancar o preço do petróleo, criando excesso de oferta. Assim sendo, Arábia Saudita e Rússia contam com fortalecer o cartel do petróleo. E não se pode descartar a possibilidade de a Rússia tornar-se membro da OPEP. Essa estratégia de cooperação no petróleo pode assumir dimensões estratégicas se for possível integrar a OPEP e o Fórum dos Países Exportadores de Gás, com o objetivo de ciar um mega cartel com potencial para bloquear a papel dos EUA, sempre conflitivo, no mercado mundial.

É um jogo de apostas altas, considerando o contexto complexo da proposta privatização da Arabian-American Oil Company, Aramco, a estatal saudita do petróleo e maior empresa do mundo no setor, esperada para o próximo ano. MbS espera que a abertura do capital da Aramco seja a primeira injeção de capital num fundo soberano que possa servir para lançar seu ambicioso projeto conhecido como "Visão 2030", projeto de desenvolvimento de longo prazo mediante o qual ele espera converter a Arábia Saudita em economia diversificada e eficiente, e modernizar o país.

Não surpreende que a avaliação que MbS faz do que lhe possa render a privatização da Aramco, cerca de $2 trilhões, esteja sendo contestada por especialistas ocidentais. Matéria da Reuters na 5ª-feira estimava que se o preço do petróleo ficar onde está hoje, em torno de $50 o barril, a Aramco não valerá mais de $1,1 trilhão. Evidentemente, a pressão ocidental aumenta na direção de manter baixo o preço do petróleo, para que MbS tenha de vender ações da Aramco a preço mais baixo.

Enquanto isso, o governo Trump providencia para garantir o lançamento das ações da Aramco, a maior da história, para a bolsa de valores de New York. Mas a Arábia Saudita não dá sinais de concordar, porque desconfia das leis norte-americanas que permitem que vítimas dos ataques do 11/9 processem o governo saudita. Feitas as contas, a autonomia estratégica da Arábia Saudita (leia-se "de MbS") está sob grave desafio. (Leiam em Oil Price artigo intitulado "Por que Arábia Saudita quer desesperadamente aumentar o preço do petróleo?")

Tudo isso considerado, muitos estranharão que o Departamento de Estado dos EUA tenha optado por distribuir por iniciativa sua uma declaração na 3ª-feira, coincidindo com o decreto real que fez de MbS novo príncipe coroado, que respinga sobre a posição saudita no impasse com o Qatar (o qual, claro, tem o imprimatur de MbS.) A porta-voz do Departamento de Estado Heather Nauert sugeriu que os EUA teriam "de assumir alguma espécie de papel formal de mediação" e fez inesperada referência direta ao envolvimento da Arábia Saudita com terrorismo, no passado – "seja financiando o terror ou por outros meios" – e que não teria combatido suficientemente o terrorismo.

Os analistas russos entendem que, dado o movimento de MbS, que gravita na direção da multipolaridade na política do petróleo, ele enfrentará furiosa oposição na sucessão de seu pai. Controlar o mercado mundial de petróleo foi tema estratégico da Guerra Fria e não deixaria de ser numa nova Guerra Fria.

Quanto aos estrategistas norte-americanos, eles mantêm desde meados dos anos quarenta que conservar o "controle substancial sobre o mundo" mediante o controle sobre o petróleo do Oriente Médio seria "um dos maiores prêmios materiais da história mundial" – nas palavras de um memorando de 1945, do Departamento de Estado para o presidente Harry Truman. 


Dito de modo mais simples: a última coisa que Washington quer é que o nacionalismo saudita cresça, no momento em que ainda trabalha para ataque 'matador' na privatização da Aramco. Problema aí é que a Aramco é um estado dentro do estado da Arábia Saudita.


blogdoalok

Nenhum comentário :

Postar um comentário